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Campinas, São Paulo, Brazil
Rio de Janeiro em 1929. Bacharelado e Licenciatura em Matemática(PUC Rio, USP e PUCCAMP,1956).Cursos no exterior:”Advanced Topics”, Universidad Nacional de Chile,1964, “Vibrations and Waves”, Reed College, Oregon,USA,1965. Cursos no Brasil:Curso “Phywe” para professores de Física na AEC(Rio,1958), PSSCC Physics com os autores(1962).Doutorado (Física UNESP,1974) com a tese “Um Projeto Brasileiro para o Ensino de Física”,orientador Prof.J.Goldemberg, grau máximo. Ex-professor da PUCCAMP(1957-69),UNESP(1979—74),USP(visitante,197678),UNICAMP(1972-76), UFRRJ,Rio(1976,aposentado 1993). Autor dos livros: “O céu” e “As linguagens da Física” da Atica,”Com(ns)Ciência da Educação”(Papirus), “A Terra em que vivemos” da Atomo, “O que é Astronomia”da Brasiliense e “(Re)Descobrindo a Astronomia” da Atomo. Docência de cursos sobre os próprios livros em muitos países da América Latina(1974-1988), além de todas regiões do Brasil.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Reportagem "Isto É" 1983

Reportagem da Revista "Isto é" de agosto de 1983 sobre as propostas e exprimentos de um novo enfoque no ensino da Ciência no Brasil.



sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Marés para leigos

Durante as décadas em que tenho exercido a docência de Física, um dos temas que muitas vezes tive que explicar foi o da GRAVITAÇÃO. Dentro desse assunto um aspecto que sempre desperta grande interesse é o das MARÉS, a subida e descida periódica do nível das águas do mar.
Esse fenômeno sempre foi observado, desde a antiguidade pelos povos que viveram a beiramar ou na foz marítima de grandes rios. Também desde a antiguidade o homem percebeu que isso tinha a ver com a Lua, embora não soubesse nem como nem porque. Desde há muito tempo se percebeu que tanto na Lua-nova quanto na Lua-cheia as marés são maiores. Maiores aqui significa que o mar sobe mais na maré cheia (preamar) e desce mais na maré vazante (baixa-mar). Também poderíamos dizer que a amplitude das marés é maior naquelas duas fases (sizígias) da Lua. Também se havia percebido que as marés são menores nas fases de quarto crescente e quarto minguante(quadraturas). Mesmo conhecida (mas não entendida) há tanto tempo, a explicação clara e cabal para esse fenômeno só se tornou possível a relativamente pouco tempo.
A explicação das marés ficou clara a partir da descoberta da equação da GRAVITAÇÃO UNIVERSAL feita por Isaac Newton(1642-1727). Essa equação diz que dois corpos se atraem na razão direta de suas massas e na razão inversa do quadrado da distância que os separa. Essa foi a mais retumbante das descobertas já feita pelo gênero humano. Nenhuma outra descoberta teria tantas conseqüências e desdobramentos. Com ela ficava clara física e matematicamente a queda dos corpos, a razão por que, o Sol, a Lua, planetas são esféricos, porque a Lua e os planetas se mantêm em suas órbitas, o porque das órbitas tão excêntricas dos cometas e muitas outras coisas. Entre essas outras coisas estava também a explicação cabal para as marés. Embora essa explicação seja simples para os físicos, usando uma linguagem físico-matemática, ela não é tão simples para leigos.
Pela lei da GRAVITAÇÃO se sabe que a Terra e a Lua se atraem. Isso quer dizer que uma está puxando a outra. Nesse caso é também fácil imaginar que apareça uma saliência nas águas que envolvem a Terra para o lado da Lua. Também apareceria em qualquer massa deformável que envolvesse a Lua. Acontece que a Lua não tem essa massa deformável ao seu redor. Até aí fica fácil entender. A coisa se complica quando se tem que mostrar que também do lado oposto da Terra aparece essa saliência. Aí a explicação se torna um pouco mais complicada.
Há muitos anos, produzi um texto destinado a explicar de maneira mais simples essa questão das saliências opostas na distribuição das águas ao redor da Terra mas usando algumas figuras. Aqui tentarei sem elas. Pense na situação seguinte. Se um elevador cai em queda livre todos os objetos dentro dele começarão a flutuar, por estarem todos caindo com a mesma aceleração. Esse fato você provavelmente já viu na televisão quando se usa um avião em queda livre durante alguns instantes para treinar astronautas. Aí o objetivo é simular um ambiente de gravidade zero: um ambiente em que as pessoas “flutuam”, isto é, caem com a mesma aceleração que o avião.
A idéia é a de um elevador muito grande, em queda livre, com bolinhas de gude espalhadas em seu interior. O elevador imaginado tem que ser bem grande para que as bolinhas de um lado estejam mais próximas da Terra e por isso estejam sujeitas a uma aceleração maior que a aceleração do elevador. Este, por ser um corpo rígido terá a mesma aceleração em todos os seus pontos. Quando o elevador estiver em queda livre as bolinhas da parte inferior do elevador tenderão a se acumular na parte de baixo, por caírem com aceleração um pouco maior que a do elevador. As bolinhas da parte superior do elevador também estarão caindo mas com uma aceleração um pouco menor que a aceleração do elevador, por estarem um pouco mais distantes da Terra. Estas bolinhas tenderão a “ficar para trás” e vão se acumular na parte superior do elevador em queda livre. Vistas de dentro do elevador, as bolinhas formarão uma “maré”: as mais próximas à Terra se acumularão do lado de baixo; as mais distantes se acumularão do lado de cima. E´ importante lembrar que isso não depende da natureza das bolinhas. Se elas forem de vidro, de louça ou de aço o resultado seria o mesmo.
Esta explicação, utilizando bolinhas, me pareceu que ajudaria a desfazer um grande e muito difundido mal-entendido sobre os efeitos da Lua sobre o corpo humano. Em minhas palestras e debates, freqüentemente se levanta o assunto. E´ muito difundida a crença de que a Lua exerce uma forte influência sobre o corpo humano. Ainda hoje existe e se usa a expressão “lunático” para quem tem distúrbios psíquicos. Isso certamente tem a ver com a antiga crença de que a Lua atue sobre fluidos aquosos do nosso corpo. A argumentação para isso segue a seguinte lógica. “As marés são um efeito da Lua sobre as águas. O corpo humano é constituído, em sua maior parte por água. Logo, é mesmo de se supor que a Lua exerça influência sobre o corpo humano”. Como acabamos de ver, as “marés” do elevador foram sobre as bolinhas. Estas poderiam ser de qualquer outra natureza, com o mesmo efeito. Não se trata de um efeito sobre o material das bolinhas, mas sobre a distribuição delas no elevador. A Lua não exerce nenhuma influência sobre a água por ser água mas sim sobre a distribuição de qualquer massa fluida que envolva a Terra. E´ por essa mesma razão que a Lua provoca um efeito parecido a uma maré também na atmosfera.
Também a crosta terrestre sofre um esforço e uma deformação devido às mesmas razões.
Poderia haver, e há mesmo, influências da Lua sobre a vida na Terra. Essas outras influências entretanto nada têm a ver com o efeito “maré”. Mesmo antes que nosso ancestral conseguisse andar ereto, a Lua já condicionava a vida sobre aTerra. O luar sempre marcou a vida do homem primitivo, certamente muito mais do que o atual, iluminando suas andanças ou suas caçadas noturnas. Em quase todas as culturas, mesmo nas mais remotamente conhecidas, a Lua proporcionou a primeira medida do tempo transcorrido. O mês ou “uma lua” está presente em culturas as mais remotas e distantes entre si, sem falar na inspiração para românticos e poetas
Há também outras importantes razões para a influência da Lua sobre a vida na Terra. O luar é uma parte da luz do Sol que se reflete na superfície da Lua e chega até a Terra. Ora, é a luz do Sol que aciona os processos da Vida sobre a Terra. Durante o período de lua-cheia a Terra recebe um, pouco mais de luz do Sol na forma de luar. E´ inegável portanto que haja alguma influência da Lua sobre muita coisa na Terra. Há no entanto um verdadeiro folclore sobre grande número de “efeitos” da Lua que não têm qualquer fundamento na Ciência.
A alternância entre fluxo e refluxo das águas do mar dá também lugar a um grande número de formas de vida para as quais essa diferença é vital. Os mangues quase sempre são verdadeiros “berçários” para muitas espécies cujos nutrientes são garantidos pela movimentação e alternância das águas doce e salgada. Caranguejos, mexilhões e mariscos são apenas alguns exemplos dessa vida que é condicionada pelas marés.
A riqueza do tema acabou por nos afastar um pouco de uma das razões para grande importância prática do tema das marés. Voltemos a ele. As marés são importantes para todos aqueles que vivem à beira-mar ou na foz dos grandes rios. Para os pescadores as marés têm uma importância fundamental, tanto pelo nível como pelas correntes que elas produzem. Isso também tem influência sobre a movimentação dos cardumes. Pode-se imaginar, por exemplo, o que significa uma alteração de seis ou sete metros (baia de São Marcos,MA) no nível do mar para quem vive às suas margens. Nestes casos as marés determinam os hábitos e costumes das pessoas que vivem nas proximidades, além da vida dos peixes. Lembro-me de ter visto em Alcântara (Maranhão) os barcos chegados na maré cheia ficarem longe do mar, em cima dos barrancos, algumas horas depois. Esses mesmos barcos só poderiam sair na próxima maré cheia. Aí as marés condicionam fortemente a vida de todos que moram nesse litoral.
Existem outras situações em que o estudo das marés assume grande importância prática. Trata-se da navegação nas proximidades da costa. Quando se navega em alto mar as marés nada importam, nem são perceptíveis por falte de qualquer nível de referencia visível. Quando as embarcações se aproximam da costa no entanto é preciso compatibilizar a profundidade do lugar em que se navega com a o calado da embarcação. Calado é uma distância vertical entre o nível da água e o ponto mais baixo da embarcação. Para qualquer embarcação de algum porte o risco de bater ou raspar no fundo é tanto maior quanto maior for seu tamanho ou peso. Uma canoa bate ou esfrega no fundo sem qualquer conseqüência. Para um grande navio, simplesmente esfregar no fundo quase sempre o condena à morte. Mesmo sem dano aparente um simples apoio no fundo submete sua grande estrutura a um brutal aumento do esforço local. Por essa razão grande parte da arte da navegação consiste em jamais permitir que o fundo da embarcação toque o fundo do mar. Por essa razão todas as embarcações de algum porte levam sempre consigo uma tábua das marés. Quando próximo da costa o navegador tem que constantemente saber se a profundidade do mar naquele lugar é compatível com o calado de sua embarcação. Para isso são produzidas e publicadas as tábua das marés. No caso do Brasil essas tábuas são produzidas pela Diretoria de Hidrografia e Navegação da Marinha do Brasil. Essas tábuas relacionam todos os portos do país com todos os horários das preamares e baixamares e seus respectivos valores, para todos os dias do ano. Note bem. Publica-se um ano antes todos os horários com hora e minuto em que deverá ocorrer a preamar ou baixa-mar nos principais portos. O valor da altura, tanto da preamar quanto da baixa-mar vem expresso em metros até o decímetro. O valor dessas alturas é que o navegador acrescenta à profundidade que ele tem escrita na carta náutica. Para que essa previsão seja possível e exata são necessários muitos conhecimentos astronômicos, uma vez que os valores dependem fundamentalmente das posições do Sol e da Lua em relação à Terra. Além dos dados astronômicos existem as estações marégráficas que estudam as possíveis anomalias das marés e que estão distribuídas ao longo da costa. Você agora sabe algo mais sobre o mecanismo das marés, de sua importância para a segurança da navegação e que isso depende de muito conhecimento e trabalho de especialistas de que você jamais ouviu falar.
As marés existem e seu conhecimento é importante para o homem por muitas razões. Elas são provocadas pela atração mútua entre Terra, Lua e Sol. Elas têm efeitos importantes sobre a vida na Terra e que são conhecidos. Há no entanto um grande número de “efeitos” atribuídos à Lua que não passa de histórias parecidas a “causos” de lobisomem, mula sem cabeça e tantos outros que não tem qualquer fundamento na Ciência.

A Astronomia e as Navegações (Parte I)


A astronomia e as navegações
                                            (  Parte I )
                                                                        Rodolpho Caniato


         Por razões óbvias, grande parte da humanidade sempre se acumulou próximo de rios, de lagos ou do mar. Mesmo o homem mais primitivo teve que, em algum momento,  perseguir ou fugir através da água, levando suas coisas e sua gente. Não bastava saber nadar. Era preciso saber levar suas coisas ou pessoas  através da água. As necessidades da sobrevivência e a curiosidade de conhecer o que há para além daquilo que podia ver, sempre desafiaram a inteligência humana. Construir embarcações e utilizá-las é certamente uma das mais remotas  atividades do homo sapiens a exigir dele conhecimentos técnicos e a impor  desafios sempre maiores. Durante milênios essas habilidades e conhecimentos foram utilizados em pequenas travessias ou em deslocamentos próximos à costa.  Quando olhamos para um mapa atual do globo terrestre, podemos nos dar conta de como quase toda  a Terra foi povoada. Mesmo em ilhas longínquas, alguém,  navegando, “chegou lá”.
        Enquanto as navegações foram feitas nas proximidades das margens, a orientação foi feita com as referências próximas e visíveis. O desafio da orientação se complica quando já não vemos as referências de terra firme a que estamos habituados no cenário de nosso dia-a-dia. E’ nesse ponto que começa a entrar a Astronomia.
        Embora a Astronomia utilizando medidas para navegação só comece, ao que sabemos hoje, próximo aos tempos do renascimento, a orientação  já era conhecida e utilizada por povos da antiguidade.  Já ao tempo das grandes pirâmides  do Egito, muitos séculos  antes da era cristã, seus  construtores já conheciam  e usavam a orientação pelo uso dos pontos Cardeais. Orientação  era a   determinação  da  direção    em   que  está  o nascimento do Sol, o Oriente. Muito provavelmente o termo orientação, busca do Oriente, se tornou de grande uso, primeiro para as  tropas do Império Romano que se deslocavam de Roma na direção do Oriente para as grandes conquistas.  O transporte do Egito para Roma do grande obelisco (centenas de toneladas,hoje no centro da praça São Pedro, Vaticano) feito por ordem de Calígula, nos primeiros anos do sec.I dá uma ideia da importância da navegação romana no Mediterrâneo. Mais tarde, os grandes deslocamentos das Cruzadas (1096-1296), saindo da Europa também buscavam a Terra Santa no Oriente. Durante  a idade média o grande trafego marítimo saia de Genova e Veneza na direção do levante para o transporte e comércio das especiarias do Oriente.
         Todos os grandes deslocamentos, em terra ou no mar, desde a antiguidade, foram orientados pelos pontos cardeais ou pela Estrela Polar. Não é por acaso que o cristianismo começa com uma história de reis (magos) que vieram de “longe”, guiados por uma estrela: a Estrela Polar (Polaris). A crença popular tomou isso como sendo uma estrela pousada sobre o presépio. [x1] Na realidade a Estrela Polar sempre fora conhecida, desde muito antes do início de nossa era, como a única estrela imóvel do céu e, por isso, adequada e fácil de caracterizar uma direção constante, o Norte e, a partir dessa, as demais direções cardeais.
       Em todos os povos que cultivaram e criaram calendários, tanto no hemisfério Norte quanto no Sul, os diferentes pontos em que o sol nasce, nas diferentes épocas do ano, serviram a uma dupla finalidade. Tanto serviam para a orientação como para marcar as diferentes estações e dias do ano (a maioria de nossas escolas continua a “ensinar” que “o ponto em que nasce o sol é o ponto Leste, uma evidente inconsistência.). Só existem dois dias do ano em que o sol nasce exatamente no ponto Leste e se põe no Ponto Oeste. São os dois dias de  equinócio: o de outono e o de primavera. Para nós, do hemisfério Sul, o de outono acontece ao redor do dia 21 de março e o segundo, de primavera, ao redor do dia 23 de setembro. Entre os solstícios de verão e de inverno, o ponto em que o sol “sai” no horizonte varia, no mínimo, de um ângulo de quarenta e sete graus (mais do que meio ângulo reto). Na  latitude do Estado de São Paulo, essa  diferença atinge e ultrapassa os 50 graus e vai se tornando maior à medida que nos afastamos do Equador: aumentando a Latitude, para o Norte ou para o Sul.
Importante contribuição na utilização da Astronomia para a navegação foi dada pela Escola de Sagres a partir do primeiro quarto do sec. XV. A esfera armilar (feita de armilas, aros de metal), símbolo que sintetiza (na bandeira de Portugal) os conhecimentos reunidos em Sagres, é composta pelos elementos geométricos fundamentais da esfera celeste: equador, meridianos, paralelos (trópicos) e a eclíptica.
       As primeiras grandes navegações, feitas por portugueses para Ocidente e pelos navegadores árabes para o Sul da costa oriental da  África, utilizaram a altura da estrela polar como  meio para determinar a latitude em que estavam. Determinar o ângulo de altura da estrela Polar em relação ao Horizonte significava determinar a Latitude do lugar. É preciso lembrar que  a  medida desse ângulo implica que sejam visíveis simultaneamente a Estrela Polar e o horizonte. Por essa razão tal medida só pode ser feita durante os crepúsculos, matutino e vespertino. Tanto Vasco da Gama, em 1498, quanto os navegadores árabes que costeavam a África Oriental e que o ajudaram a chegar à Índia, usavam dispositivos diferentes mas equivalentes na medida  da altura da Estrela Polar.
        Vale voltar a lembrar que a Estrela Polar é a única estrela imóvel do céu pelo simples fato de que ela está na direção (bem próxima) da direção para onde aponta o eixo de rotação da Terra. A paisagem celeste que se nos apresenta como esfera em cuja superfície interna parecem estar incrustadas as estrelas, gira ao redor desse eixo. O eixo de rotação aparente da esfera celeste nada mais é que o eixo de rotação da Terra.  Tudo se passa como se estivéssemos no centro da abóbada celeste. Foi essa impressão, apenas aparente, que deu ao homem (e continua a dar) a falsa ideia de que estava no centro do Universo e que, por isso, deveria ser a coisa mais importante da criação. Uma impressão parecida  àquela  que  poderia  ter  um frango girando no espeto. Toda a festa, o Sol, a Lua e todo o céu estrelado, com todas as galáxias, dariam a um frango, girando no espeto, a impressão de que ele é o centro de todos os movimentos do Universo. Neste caso o Universo pareceria girar ao redor da direção do espeto. Ele, o frango, também poderia ser levado a se imaginar como a coisa mais importante da criação, por ter todo o Universo, mesmo as galáxias, a lhe girar ao redor.
          Para um observador situado no Polo Norte terrestre a Estrela Polar estará exatamente sobre sua cabeça, isto é no Zênite. Com o passar das horas todos os demais corpos celestes estarão dando voltas paralelas ao Horizonte. Nenhum deles tem ocaso ou nascimento. Na medida em que o navegador for saindo do Polo Norte, a Estrela Polar vai saindo do Zênite e se inclinando na direção do Horizonte.   Os demais corpos celestes começam a ter sua trajetória diurna aparente inclinada em relação ao Horizonte. Se o navegador for se  deslocando sempre mais na direção Sul, a Estrela Polar vai se aproximando do Horizonte. Esse ângulo entre a direção da estrela Polar e o Horizonte é que mede a Latitude do lugar. Nosso navegador saberá que está chegando no Equador terrestre, latitude zero, quando a Estrela Polar estiver chegando ao Horizonte: altura zero da Estrela Polar, latitude zero. Quando esse navegador ultrapassar o Equador terrestre, a Estrela Polar terá desaparecido para baixo do Horizonte Norte. Na direção do Sul vai “aparecendo” outro Polo Celeste: o Polo Celeste Sul. Este no entanto não tem uma estrela que o torne visível, como o Polo Celeste Norte com a Estrela Polar. Neste caso, a altura do Polo Celeste, ou seja, a Latitude terá que ser medida através de estrelas cuja distância angular ao Polo seja conhecida. Cristóvão Colombo fez seu projeto de viagem, para chegar às Índias pensando em manter seu rumo sempre no hemisfério Norte. Viajar sempre para Leste, mantendo a mesma latitude significava manter seu rumo perpendicular à direção em que ficava  a Estrela Polar.  Para saber em que Latitude estaria navegando, Colombo devia e sabia medir, embora rusticamente, a altura da Estrela Polar. Colombo, portanto podia e sabia medir sua latitude. O que ele não sabia nem podia fazer, em sua época, era medir sua Longitude. Por essa razão ele imaginou já estar chegando às Índias. Por isso  a gente nativa e morena que ele encontrou no Novo Mundo foi chamada de índia. Nossos povos nativos, os aborígenes, serem chamados de índios é puramente  consequência de um erro na avaliação da longitude, feito por Colombo, em 1492. Logo em seguida, o Tratado de Tordesilhas (1493) divide as terras do Novo Mundo por um meridiano situado a uma certa distância de um ponto conhecido e não em termos da Longitude.
            A medida  da longitude se tornaria um dos maiores problemas das grandes potências marítimas no tempo entre os grandes descobrimentos (1492) e meados do século XVIII. Os feitos e descobrimentos na Astronomia que culminaram com a Gravitação de Newton, tinham granjeado para essa Ciência um grande prestígio, em particular para os grandes protagonistas dessas descobertas, Galileo e Newton. Ambos estavam convencidos de que o problema da determinação da Longitude deveria ser resolvido pela Astronomia. As descobertas de Galileu (1609) sobre os primeiros quatro satélites de Júpiter sugeriam que eles poderiam fazer as vezes de um relógio universal, isto é, visível de quase todo o Mundo. Foi essa idéia de relógio universal com os satélites de Júpiter que resultou na primeira medida da velocidade da luz, feita por Roemer, em 1690. Galileo desenvolveu ainda um meio de se avaliar a Longitude baseado nas fases da Lua. Embora possível, essa solução era complicada e pouco prática.  As descobertas do Novo Mundo e o poderio marítimo da Inglaterra tornavam cada vez mais urgente a necessidade de se determinar com precisão o “onde” para definir a posse  das terras que iam sendo descobertas. Esse problema se tornara tão urgente que o parlamento britânico em 1714 instituiu um grande premio em dinheiro ( Libras 20.000 ) para estimular as tentativas de se criar um método para determinar as Longitudes. Esse desafio foi enfrentado por um hábil relojoeiro que, por isso, passaria para a história: John Harrison (1693-1776) que se propôs a resolver o problema com um relógio de precisão. A ideia era simples mas sua realização tomaria quase toda sua vida. Para começar, o relógio deveria marcar exatamente 24 horas entre duas passagens consecutivas do sol pelo meridiano de Londres (Greenwich). A precisão seria o primeiro requisito. Levado para outro lugar distante, o relógio, se confiável, levaria sempre a hora do meio dia de Londres. Se levado para outra Longitude, o atraso ou avanço do meio dia solar, daria diretamente, em horas, a diferença do meio dia local em relação  ao de Londres.  24 horas correspondem a uma volta ou 360o. Então 360o divididos por 24 horas dariam uma Longitude de 15o/hora de atraso ou avanço.   Então, se a passagem do sol pelo meridiano de um lugar ocorre à 1 hora da tarde, 1 hora depois da hora de Londres, é porque o sol levou uma hora entre o meridiano de Londres e o do lugar considerado: 15o “depois” ou 15o de Longitude Leste.  Muitos ensaios com diferentes modelos de relógios foram feitos por Harrison, em décadas de trabalho. O relógio, além de preciso deveria resistir às árduas condições, tanto pela agitação das embarcações no oceano quanto pelas diferentes temperaturas e climas por onde passaria. Muitos ensaios envolveram vários  modelos de relógios criados por Harrison, num trabalho de complexidade e precisão cada vez maiores. O primeiro grande teste, em escala ultramarina foi a determinação da longitude da Jamaica em 1762. Depois de muitas semanas da travessia do Atlântico, o relógio levava a  bordo a hora de Londres. Quando na Jamaica, a passagem meridiana do sol, o meio dia local, aconteceu às 5 horas do relógio. Na Jamaica o meio dia solar acontecia 5 horas depois do meio dia solar de Londres. Como a cada hora correspondem 15o,  a longitude da Jamaica seria 5 horas x 15o por hora  = 75o .  A Jamaica ficava  numa Longitude de 75o “depois” de Londres,para Oeste. De  volta a Londres o relógio voltou a assinalar meio dia quando o sol voltou a passar pelo meridiano de Londres. Depois de décadas de trabalho, já bem velho, John Harrison, recebeu parte de seu merecido prêmio. A partir daí  ocorreu um grande  surto de desenvolvimento do relógio de precisão, principalmente para determinação das Longitudes. O capitão James Cook (1728-1779) foi o primeiro a descobrir para a Inglaterra novas terras que já iam tendo suas longitudes determinadas. Mais ainda, o relógio a bordo do “HMS Endeavour Bark”, por ele comandado, levava a bordo, até o Taití, os primeiros relógios, lunetas e  observadores para registrar pela primeira vez um “transito” de Venus, para a determinação também da distância Terra-Sol. A hora passava a ser o elemento de precisão necessário para a determinação das Longitudes e outros eventos na Astronomia. O Observatório de Greenwich (Londres) passou a fornecer  a hora para que os relógios dos navios, naquele porto, fossem acertados. Para isso, do alto do Observatório, em Greenwich, em frente ao porto, uma grande esfera oca caia ao longo de um mastro vertical, no instante exato da passagem meridiana do Sol. Era o sinal da hora para que os navios acertassem seus relógios pelo de Greenwich. Logo essa prática se estendeu a outros portos em que observatórios fazendo da luneta Meridiana o ponteiro fixo diante do “mostrador” móvel do céu, tivessem como missão, além de estudar posições de estrelas, controlar o “andamento” dos relógios, especialmente para os navios. Para terminar, vale acrescentar uma informação curiosa que embora não tenha os “ares” de coisa científica, foi decisiva para o desenvolvimento das navegações, em particular para que a Inglaterra se tornasse uma potencia marítima. Um dos maiores “inimigos” das navegações de longa duração era o escorbuto, carência de vitamina C que dizimava os marinheiros. Alem do novíssimo relógio dos Harrison (John e seu filho Wiliam),  lunetas e astrônomos, o capitão James Cook  levava a bordo e fazia a Marinha Britânica adotar o “chucrute” como indispensável fonte de vitamina C na dieta do mar. Assim, em fins do séc. XVIII, ficou vencida também a velha “batalha” contra o escorbuto, além de resolvido o problema da Longitude

Rodolpho Caniato é  autor  de  vários  livros, entre  os  quais  “O que é Astronomia” “O céu”, “A Terra em que vivemos”,
“(Re)Descobrindo a Astronomia” é Capitão Amador, certificado pela Marinha do Brasil e durante  muitos anos tem ministrado cursos  de navegação em diferentes níveis.

                                                                          
                                                                    Referências bibliográficas


Barros, Geraldo Luiz Miranda de-  Astronomia sem Mistérios, Edições Marítimas,Rio de Janeiro,1992
Barros, Geraldo Luiz Miranda de  Navegando pelo Sol, Edições Marítimas, Rio de Janeiro,1992.
Barros, Geraldo Luiz Miranda de , Navegação Astronômica,Edições Marítimas,Rio de Janeiro,1998
Caminha, João Carlos Gonçalves, História Marítima,Bibl Ex Ed, Rio de Janeiro,
Caniato, Rodolpho, O céu, Editora Atomo, Campinas,SP,2010
Caniato, Rodolpho, (Re)Descobrindo a AstronomiaSobel,Dava, Longitude, Ediouro S.A.,1996,São Paulo Editora Atomo,Campinas,Sp,2011
Krause,Arthur, Astronomia para Todos, Ibéria,Barcelona,1944.
Miguens, Altineu Pires, Navegação: Ciência e Arte, Diretoris de Hidrografia e Navegação,Rio de Janeiro,1999
Rudaux, Lucien  ET alt. Astronomie,Librairie Larousse, Paris,
Sobel,Dava, Longitude, Ediouro S.A.,1996,São Paulo
Zagar,Francesco Astronomia Sferica e Teorica, Zanichelli Ed, Bologna, 1944



 [x1]A opção mais aceita para a “Estrela Guia” foi a conjunção entre Júpiter e Saturno, ao final de setembro e início de outubro de 7 a.C.

terça-feira, 19 de julho de 2011

FOTO ESTROBOSCÓPICAS







Rodolpho Caniato

Por razões ligadas à minha história pessoal, muito cedo pude perceber uma das grandes carências do ensino da Ciência em nosso sistema educacional, especialmente no nível fundamental: muitos de nossos cursos, não só no fundamental, se assemelham a cursos de natação por correspondência. Faltam a experimentação, a discussão.

Repetir exercícios numéricos não implica entendimento de conceitos; no mais das vezes apenas memorização Desde o início de minha carreira docente como professor de Física em 1956, fiz um grande esforço para primeiro restaurar e logo fazer funcionar aparelhos guardados como relíquias nas instituições em que ensinei.
Em 1955 eu havia montado e feito funcionar o telescópio que serviu a alunos de Física (Mecânica Celeste) e de Cosmografia, disciplina por mim criada na PUC de Campinas em 1955 e cuja docência exerci a partir de 1957. Os vários cursos em que atuei primeiro como e depois como docente, nos projetos americanos (“PSSC” em 1963 e Harvard Project Physics em 1970), me convenceram da necessidade de se produzir material de baixo custo, fácil obtenção e acessível ao professor brasileiro.

Minha tese de doutorado inscrita no Departamento de Física de FAFI da UNESP (Rio Claro) em 1970, tinha por nome “Um Projeto Brasileiro para o Ensino de Física”. Nesse mesmo ano, o primeiro volume que produzi (“O céu”) era submetido a um ensaio sobre o método, o conteúdo e o material. O ensaio foi levado a cabo no CECINE , na UFPe, em Recife. Faltava oferecer mais alternativas viáveis também para o estudo da Mecânica.
Numa discussão com meus alunos de Física (Licenciatura) na UNESP de Rio Claro, sugeri a um pequeno grupo a idéia de produzirmos algumas fotografas estroboscópicas. O pequeno grupo aceitou a idéia e logo se pos a trabalhar com minhas sugestões. Nossa idéia era usar material nacional.
Assim se montou uma fonte pulsante com uma lâmpada da marca “Frata” de fabricação nacional. Com isso foram produzidas as nossas primeiras fotografias estroboscópicas. Isso foi em 1972, no mesmo ano em que eu assumia a disciplina Instrumentação para o Ensino de Física na UNICAMP, mas ainda respondendo cumulativamente pelo curso em Rio Claro (Física, UNESP). Quando concluída a tese de doutorado (1973), aprovada com grau máximo, tendo como orientador o Prof.Dr. José Goldemberg, além do volume principal havia três volumes como anexos: “O Céu”, “Mecânica” e uma coleção de “Fotografias estroboscópicas”.

Na UNICAMP, dispondo de mais tempo, recursos e dois assistentes, pude completar a tese de Doutorado e produzir maior variedade de fotografias para a coleção. Ao mesmo tempo se multiplicaram os convites para ministrar cursos pelo Brasil e por muitos paises da América Latina, com mais ocasiões para trabalho de ensino utilizando também as fotografias estroboscópicas.

O grupo da UNICAMP funcionou até 1976. Aí, além dos dois professores-assistentes recém-formados (Sônia Krappas Teixeira e Antonio Amaral) eu dispunha de serviços de oficina. O relógio, por exemplo, para a fotografia de centésimos de segundo, foi possível graças à dedicada e competente ajuda do técnico Edeval Lujan do Instituto de Física.

Para construir o relógio foi usado um motor síncrono (de toca-disco), doado pelo Prof. Antonio Amaral, meu assistente. O período de rotação (1 volta/seg. ou 60 rpm) por simples relação dos raios das polias. Uma chave permitia a mudança para 120 RPM ou 2 voltas/seg). Em todos os casos a rotação do relógio foi mantida constante e está indicada.

Em distintos experimentos foram usadas diferentes freqüências da fonte de luz estroboscópica, mas sempre mantida constante em cada fotografia, a menos de alguma oscilação da rede elétrica. Em muitas fotografias a presença tanto de uma escala de distâncias quanto da medida dos tempos propõe exercícios simples de cinemática real, incluindo medidas de aceleração. Em duas delas há até um “acelerômetro” de pêndulo com escala em divisões de 1m/seg2.

Outro propósito presente em várias fotografias era oferecer variedade de oportunidades para melhor entendimento da lei das áreas, com forças de atração e também de repulsão.
De 1976 a 1978, como Professor Visitante no Instituto de Física da USP pude realizar outro grupo de fotografias, dispondo de um maior estúdio, de apoio de oficina (Sr. Voanerges E.S. Brites) e da ajuda de um professor assistente (mestrando Antonio A. Parada). São desse período algumas imagens mais complexas. A produção dessa coleção de fotografias se estendeu de 1972 a 1978 nas três instituições (UNESP, UNICAMP e USP). Uma parte da coleção foi entregue para UNESCO, outra para o Instituto de

Física da USP. As equipes que me auxiliaram nessa produção foram constituídas como segue:


Equipe I (UNESP)
(1972)
Durval A. Fiorelli
Clovis I. Biscegli
Luiz Mario Pizzanoia
Antonio J. Buccalon

Equipe II (UNICAMP)
(1972-1976)
Antonio Amaral
Sônia K. Teixeira
Antoni W. Gomes
Milton J.Mello
Carlos.A.Magnani
Antonio Barata
Olavo Divino Vieira
Edeval Lujan

Equipe III (USP)
(1976-1978)
Antonio A. Parada
Carlos A.Magnani
Voanerges Brites
Creso Nery
Ademir dos Santos
Geraldo Nunes

Esperamos, eu e todos os que me ajudaram, nos três grupos, ter feito uma modesta mas efetiva contribuição para um ensino de Física mais próximo da verdadeira compreensão dos fatos.

Rodolpho Caniato



Treinamento professores Teresópolis















Relógio Caniato















Espaços e tempos















Movimento uniforme(?)

















Tempos iguais










































Queda livre





















Bola na rampa
















Soltando a bola






















Queda medida






















Queda de corpo duplo






















Queda com rotação






















Pedrinha e pedrona






















Queda simultânea

















Carrinho em rampa



















Carrinho mais pesado


















Mudando a rampa



















Ângulo da rampa



















Caindo da mesa


















Parábola frontal






















Solta na rampa



















Mudando a rampa



















Inclinação da rampa(?)


















Pedrinha e pedrona(eliminar)






















Acelerômetro


















Variando a aceleração


















Montanha russa















Lançamento oblíquo

















Corpo oculto



















Movimento harmônico simples



















“sabonete” de Galileu

















Alturas iguais(?)

















Centro de massa fora do corpo



















Corpo múltiplo


















Centro(de massa) do martelo



















Órbita simples



















Áreas e repulsão



















Campo de repulsão



















Órbita simples



















Órbita elíptica



















“Órbita” retangular



















Lei das “áreas” (?)



















Corpo duplo



















“Caos”(?)



















O que é isso ?

terça-feira, 1 de junho de 2010

Currupira

Resumo da curiosa história do "transplante" de uma criança, de uma cultura urbana para a vida rural, longe de qualquer lâmpada ou mesmo escola, no sertão. Se você estiver interessado nesta leitura clique no link http://www.scribd.com/doc/32343347

Rodolpho Caniato








CURRUPIRA
(Trecho de autobiografia)



CAMPINAS
2009


  


  A
Antonio e Luiza, meus pais, de quem
aprendi muito cedo a responsabilidade
e também
  a visão do lado belo e iluminado
da VIDA.






                                  



                                    

                                      PARTE    I

                              “Atalaia”

                                
                               




                                    Primeiro endereço
Nasci na Maternidade da Rua da Passagem, em Botafogo, no Rio de Janeiro, no dia 13 de julho de 1929. Meu pai logo tratou de me registrar com o nome  do sonhador poeta, namorado da “Mimi”, personagem da ópera  “La Bohème” (Puccini), que logo no primeiro ato diz, cantando, que apesar de pobre, tem a alma milionária. Essa ópera era também  a preferida de minha mãe. Da maternidade, fomos para nossa modesta casa,  primeira moradia no Rio de Janeiro, na rua Santo Amaro, 29, casa 11, uma vila no bairro do Catete. Minha mãe sempre repetiu esse endereço com um misto de saudade e orgulho de quem acabava de fazer uma grande e significativa conquista: era o primeiro lar da nova família Caniato no Rio de Janeiro, cidade que ela sempre tanto amou como sua terra de adoção. Para ambos, Antonio e Luiza, pouco tempo antes chegados de São Paulo, além de ser o primeiro endereço no Rio de Janeiro, Capital do Brasil, agora havia um filho, o Rudy, a centralizar as atenções e preocupações numa terra nova e ainda por descobrir. Ele, um jovem  de 28 anos, paulista, autodidata estudioso e “boa pinta”; ela uma viçosa jovem suíça de 23 anos, chegada de sua terra, a Suiça em 1920.
Com o progresso de meu pai em sua atividade de “mètre” e logo depois como gerente no belíssimo restaurante colonial “Lido”, depois de um ano, mudamos para uma simpática vila de casinhas que ainda sobrevive na Avenida Princesa Izabel, próximo  ao Túnel Novo. São desse ambiente minhas memórias mais remotas. Do outro lado da avenida, quase em frente, havia um “rinque” de patinação cujos altofalantes tocavam os grandes sucessos da época: “La Paloma”, “El manicero” e a “Lenda do beijo”, melodias que  me ficaram gravadas na memória com um gosto de beleza, tranquilidade e nostalgia.
O “Lido”, lugar mais belo e famoso de toda a nova Copacabana, de frente para o mar, ficava a poucas quadras de nossa nova casinha.  Ao redor desse famoso restaurante colonial havia  um jardim encantador e mantido com grande esmero. Os grandes caramanchões eram cobertos por buganvílias ou primaveras e ornados por grandes vasos brancos de madeira, dotados de grandes argolas de bronze. Os gramados, muito tratados e aparados, eram ornados por hibiscos que, talvez por isso, tenham se tornado as flores que mais tenho apreciado e cultivado nos meus jardins ao longo de toda  vida. Muitas vezes em meus passeios com minha mãe por essa praça, fui chamado para dentro do restaurante  para ganhar um biscoito “champanhe” do gerente, meu pai.
                                   O “Atalaia Hotel”
Poucos anos depois, em 1932, meu pai foi convidado para ser o gerente do “Atalaia Hotel”, ali, bem próximo do Lido, na Rua (ainda não se chamava avenida) Copacabana, entre as ruas Duvivier e Rodolpho Dantas. Era para toda a família uma grande mudança para melhor. Passávamos a morar num completo apartamento no primeiro andar, com elevador, telefone e rádio, ao lado da sala do gerente. O hotel tinha um restaurante onde também a família do gerente era servida e com especial esmero. Isso representava, por um lado um conforto e por outro  uma mudança de costumes. Para freqüentar o restaurante era preciso estar vestido adequadamente e ter um cardápio mais formal,  nem sempre do agrado de nossos costumes mais caseiros. Eu agora já tinha três anos.
O “Atalaia” havia sido construído pouco depois do Copacabana Pálace, o “Copa”(1924). Tanto os terrenos do lado direito quanto na parte de trás de nosso prédio eram  baldios: capinzais. Mesmo a quadra da parte de trás do “Copa” era de terrenos   onde havia dois morros, desabitados, com mato, ligados por uma ponte cuja finalidade nunca entendi. Num desses morros, do lado da   rua Rodolpho Dantas havia uma grande brecha horizontal, a “toca” onde sempre se abrigavam os mendigos daquela região.
Grande parte do tempo eu passava andando pelas calçadas da frente de nosso prédio. Mesmo a quadra da rua Copacabana, bem em frente ao nosso prédio, só tinha um pequeno edifício, o “Itabira” e uma lojinha, a  “Casa do Ovo”. Na Avenida Atlântica, esquina da Duvivier, havia, creio que o único edifício de apartamentos na orla da praia e que foi dos últimos daquela geração a desaparecer. Tanto a Avenida Atlântica, quanto a própria praia eram muito estreitas mas ornadas de palacetes, belas casas e os característicos postes de iluminação.
Em edifícios próximos estavam sediadas muitas das embaixadas de países junto ao governo do Brasil. Afinal o Rio de Janeiro era a capital do Brasil.
O Atalaia Hotel não rivalizava com o “Copa”. Era um hotel de classe média. Era especialmente freqüentado por homens de negócios que vinham de muitas partes do Brasil e do exterior. Entre os hóspedes muitos se tornaram amigos de meu pai, graças às suas habilidades de poliglota autodidata. Entre os estrangeiros, um americano, dono de uma empresa nos EEUU, acabou por ficar residindo no hotel, tanto ele gostava do Rio de Janeiro. Ele era muito velho, muito rico e  fumava um perfumado “Havana”. Com o passar dos anos, ele se tornou muito doente e muitas vezes minha mãe teve que prestar cuidados de enfermagem e fazer papinhas para esse senhor, Mister Joseph. Vez por outra ele me dava de presente um pequeno chocolate ou uma “Fruna”, uns finos caramelos que eram objeto  de meus desejos e que eram vendidos numa fina “bombonière” na outra quadra, do outro lado da rua, lugar proibido para mim. Outros  freqüentadores do Atalaia que ficaram muito amigos de nossa família eram os Fosker, um casal dinamarquês. Ele vinha vender armas ao governo brasileiro. Ele se entendia em inglês com meu pai e ela em alemão com minha mãe. Deles recebi vários presentes: um deles me acompanhou até a adolescência. Era uma caixa com peças mecânicas e algumas ferramentas que permitiam diversos tipos de montagens. Esse brinquedo era um “Märklin”, alemão. Entre os hóspedes brasileiros, alguns eram grandes empresários que vinham de São Paulo tratar de negócios na capital. Entre esses, alguns eram habituais e também ficaram nossos amigos: os Bardella (industria mecânica), os Ghiraldini (órgãos Hamond), os Chama(fábrica de tecidos), os Baldan (indústria mecânica). Desses, alguns dos filhos brincaram comigo pelas calçadas na frente do Atalaia. Um deles, Milton, da familia Ghiraldini, me atropelou com sua bicicleta na calçada: um fundo corte na perna, feito pelo paralama de sua bicicleta. Fui  levado sangrando para o pronto socorro e tive que tomar uma dolorida injeção antitetânica na barriga. O pronto socorro ficava próximo, atrás do Lido. Esse jovem, Milton, que me atropelou se tornou mais tarde um grande arquiteto e professor da Faculdade de Arquitetura da USP. Seu pai Álvaro Ghiraldini foi uma das nossas amizades mais duradouras. Ele era violinista  e pessoa que me causou forte impressão pela gentileza e polidez. Ele vinha ao Rio para tocar em orquestras, entre elas a da Confeitaria Colombo.Vinte anos depois,  eu já casado, ainda fui encontrá-lo em São Paulo e de sua grande loja, no largo Paissandú,   comprei, em 1955, um piano Kastner, inglês, que o faz lembrado até hoje. Foi um dos grandes amigos de nossa família. 
                                   A  escola dos  bondes
Nos tempos de minha infância em Copacabana, quase só se andava de bonde. Havia poucos carros. Muitos deles  eram carros das embaixadas e representações diplomáticas próximas. Vê-los de perto, com suas marcas, insígnias ou bandeiras já despertava a ideia da existência de outros paises. Eu tinha paixão em vê-los de perto, saber-lhes a marca e a origem. Eu os conhecia até por suas buzinas.
Os bondes eram o grande meio de transporte de quase todo mundo, quase sempre dirigidos por bigodudos “motorneiros” portugueses, sempre uniformizados de azul marinho e quepe. Toda a cidade e bairros eram servidos por esse eficiente meio de transporte. Esses “elétricos” eram identificados por um número e pelo nome da linha. Uma das primeiras coisas a aprender era portanto reconhecer o seu bonde. “12 Ipanema/Túnel Novo”, “13 Ipanema/Túnel Velho”, “5 Leme”, “10 Gávea”, “7 Humaitá” e assim por diante. As viagens nesses coletivos se constituíram para mim e, creio, para muita outra gente, a primeira escola: um método de alfabetização direto e sem dor. O processo foi tão  lúdico e eficiente que eu e muitos de meus amigos das calçadas quando entramos para a escola já estávamos plenamente alfabetizados. Esses  bondes eram todos inteiramente revestidos  em sua parte interna, bem visível para os passageiros, por “reclames”, a propaganda da época. Esses reclames eram muito simples e ingênuos. Eram constituídos de uma figura do produto e ao lado seu nome e suas virtudes. Visualmente todos conheciam os principais e mais difundidos produtos pela sua imagem: Emulsão de Scott, Xarope São João, sabonete Eucalol, A saúde da Mulher, Mitigal e Regulador Xavier. Este com dois números: úmero “1”para “escassez” e número “2” para “excesso”. O “excesso” e “escassez” ficamos devendo, sem saber o que era isso. O antológico Rhum Creosotado, como  tantos outros muito conhecidos, trazia até aqueles famosos e conhecidos versinhos. A associação entre a imagem do objeto e seu nome sugeria que logo se “decifrasse” o nome com a identificação das letras e das sílabas. O passo seguinte era ler as propriedades ou virtudes do produto. Isso era possível e quase inevitável porque se passava muito tempo dentro dos bondes, no trajeto de ida e volta  entre a cidade e a casa,  tendo bem diante dos olhos aquelas sugestões ou desafios. Geralmente os adultos, principalmente as mães, acabavam conversando com outras mães, o “passageiro ao lado”. Essa experiência se repetia com a grande freqüência com que se tinha que viajar e de ter diante dos olhos  aqueles chamados à atenção. Essa aprendizagem fez com que eu entrasse para  o primeiro ano e não para o “Kindergarten” do Colégio Teuto Brasileiro da rua Siqueira Campos, a escola mais próxima.
             
                    Contas com bolinhas de Gude e tampinhas
A aprendizagem das contas também se deu de maneira espontânea antes de qualquer propósito didático. A rua Rodolpho Dantas que passa ao lado do “Copa” também ainda não era asfaltada. Lembro-me de quando chegou o primeiro rolo compressor, movido a vapor, com caldeira e fornalha a lenha, para o início das obras de asfaltamento. Até ai, essa rua, na segunda quadra a partir da praia, era nosso campo de “búlica” ou “biróca”. O jogo era constituído de   quatro buraquinhos eqüidistantes, sendo três alinhados e um desviado em ângulo reto. A unidade de distância era um pouco variável pois era o palmo de cada um. O jogo podia ser “à brinca” ou “à vera”. Quando era “à vera” quem perdia tinha  que “pagar”. O pagamento era feito em bolinhas de gude. Essas tinham valores diferentes pela sua “beleza” ou pelo seu tamanho. Havia ainda as “bilhas” que eram as bolinhas de aço e que quebravam as de vidro quando o “teco” era mais forte e frontal. Isso provocava um pequeno “comércio” com diferentes proporções na troca. Alem de contar o “capital” com que se entrava no jogo, as trocas eram feitas em diferentes proporções como dois para um ou três para um, dependendo do “valor” das diferentes bolinhas. Alem da contagem aprendia-se a idéia de proporção. As disputas de “gude” começavam com quem proponha o jogo e usava o privilégio de ser o desafiador e primeiro a jogar. Para isso bastava usar a expressão “marraio, feridor, sou rei” ou simplesmente “marraiofiridô sorrei”.
Esse tipo de aprendizagem se praticava também com as coleções de tampinhas das bebidas. Nesse caso as trocas em diferentes proporções tinham a ver com o “enriquecimento” de cada coleção.
Meus passeios pelas calçadas da quadra se ampliaram quando ganhei um velocípede todo de ferro e com o qual ia até o outro lado da quadra(rua......,hoje calçadão) onde muitas vezes visitava um amigo. Entrando pela porte de serviço do prédio, deixava meu velocípede atrás da porta, enquanto visitava o amigo. Numa das vezes, ao voltar para apanhar minha “condução” ela havia sido roubada. Isso me custou, além da grande e irreparável  perda, uma tremenda bronca de meu pai.
                              
                           O desastre do Circo Piolim
Os grandes espaços vazios ao lado do Atalaia Hotel, minha casa, eram o lugar em que  eu  e meu melhor e mais próximo amigo, o Mário, um menino pretinho  um pouco maior que eu, brincávamos. Esse espaço ocupado por um grande capinzal tinha dois grandes atrativos. Um deles era proximidade possível com cavalos. Aí vinham colocadas a pastar as éguas de um português que não por coincidência se chamava Manoel. Não por coincidência, o filho do seu Manoel, um molecão, se chamava Joaquim. Era o Joaquim das éguas que administrava a colocação e retirada daqueles animais. Outra grande brincadeira, sempre com meu amigo Mário, era organizar grandes “trens” constituídos por filas de grandes jacás de bambu que aí eram atirados vazios pelos fornecedores das verduras para o restaurante do hotel. Eu, meu amigo Mário e o Joaquim das éguas éramos, senão os únicos, os mais assíduos freqüentadores desse capinzal.  Num certo dia fomos surpreendidos pela presença de uma grande faixa que anunciava: “Aqui brevemente, CIRCO PIOLIM”. Foi notícia que alvoroçou toda gente do bairro. Piolim era já um famoso e original palhaço, chefe de uma grande família circense e que havia tomado parte na Semana de Arte Moderna. No dia seguinte ao aparecimento da faixa, em minhas andanças no capinzal entre as éguas do Joaquim,   encontrei um objeto circular, pesado, com capa de couro e uma pequena manivela no centro. O que seria e de quem seria aquilo?  Mostrando o objeto a meu pai descobri tratar-se de uma trena. Deveria ser da gente do circo.  Meu pai me aconselhou a guardar aquele objeto   para devolvê-lo aos prováveis donos, as pessoas do circo. Poucos dias depois quando por lá apareceu no capinzal um grupo de pessoas fui ver se era mesmo deles o tal objeto. No grupo havia um senhor bem mais velho que os demais. Dirigi-me a ele. Logo que viu a trena em minhas mãos sorriu e veio em minha direção. –Você achou a trena? Sem necessidade de qualquer outra pergunta, entreguei-lhe a trena. Depois de me fazer elogios pelo encontro e devolução daquele importante instrumento de trabalho da equipe, aquele senhor  disse: “Você vai ganhar uma permanente do  circo”. Tirou do bolso um cartão onde escreveu: “convidado permanente”. Assinou: Galdino Pinto. Era ele nada menos de que o patriarca da família do circo e  pai do famoso palhaço Piolim, Alberto Pinto. Os dias seguintes foram de grande movimentação com a chegada de todo equipamento e início da montagem do circo. No dia marcado para a inauguração a banda em uniforme de gala tocava dobrados na ilha que havia no meio da rua Copacabana, na esquina do “Copa”. Eu teria entrada garantida mas a inauguração era solene e à noite. Fui com meu pai para comprar as duas entradas adicionais. Logo seu Galdino me reconheceu  e conversou com meu pai sobre o episódio da trena. A essa altura eu já havia acompanhado toda a montagem do circo e aí me sentia “em casa”. Enquanto conversávamos com seu Galdino, ele olhou para o alto da nova lona  a ser inaugurada e comentou: “...esse vento está me preocupando”. Enquanto fazia esse comentário seu Galdino apontou para o alto da lona que começava a arfar com o vento. Já com as entradas nas mãos voltamos para casa para os preparativos da “soirée”. As janelas de nosso apartamento, do lado do prédio, tinham bem na frente  a visão total do circo no terreno vizinho. Em poucos instantes o vento “esquisito” se transformou num vendaval que destroçou todo o circo, rasgando em muitos pedaços a lona, fazendo voar tábuas que bateram de encontro ao nosso edifício. Em pouco tempo o circo ficou reduzido a escombros. Antes de fechar  nossas janelas pudemos acompanhar toda correria dos integrantes, familiares e empregados tentando salvar partes que esvoaçavam com a tempestade, deixando à mostra todo o interior e fundos do circo. Depois do vendaval desabou um imenso aguaceiro sobre o circo já destruído. Na manhã seguinte o espetáculo era de verdadeira desolação. Outro drama se acrescentava à destruição. O palhaço “Camarão” de quem eu me tornara amigo era sempre acompanhado de um macaquinho que lhe ficava sobre os ombros. Na noite do temporal, o bichinho assustado caiu do alto para dentro de um dos dois grandes postes tubulares de sustentação do circo. Levou dias para que conseguissem resgatar o macaquinho, usando cordas desde o alto para dentro do grande mastro de sustentação. Foram muitos dias de reparos até que tudo fosse remontado e uma nova lona fosse colocada  para a adiada estréia. Essa demora, para mim foi altamente interessante. Acompanhei todo o trabalho e já me tornara íntimo do circo, podendo circular durante o dia, por entre os artistas, o equipamento e o treinamento. Fiquei conhecendo por dentro a vida do circo, especialmente tendo como cicerone o palhaço “Camarão”, muito gentil e generoso comigo.
                          O Colégio Teuto Brasileiro.
Eu já havia completado sete anos quando fui para a escola. O Colégio Teuto Brasileiro ou Deutschebrasilianische Schule ficava na Rua Siqueira Campos, na primeira quadra da direita indo na direção do Túnel Velho. Havia o jardim de infância ou Kinder Garten para crianças menores ou que ainda tinham que ser alfabetizadas. Lembro-me ainda das palavras que a Diretora ditou  para verificar se eu estava mesmo alfabetizado e também sabia escrever palavras simples, também em alemão. Nos primeiros dias minha mãe me acompanhou. A partir daí passei a ir a pé sozinho, seguindo pela rua Barata Ribeiro. Todas crianças tinham que levar seu material numa bolsa de couro nas costas. Ninguém carregava nada nas mãos. A Diretora, alemã chamava-se Frau Glasenapp. O prédio do colégio não era grande: uma antiga casa de moradia. Tinha, no entanto um imenso quintal, o recreio, com muitas árvores como carambolas, sapotis, abius e cajamangas. A disciplina era germânica. Algumas aulas eram em alemão. Um dos professores, brasileiro, deixou em mim uma marca indelével pela sua figura. Era um homem grande, muito bem penteado e alinhado: um alvíssimo terno de linho. Tinha uma voz empostada, forte e grave que causava a impressão de que dele emanava toda sabedoria. Muitos anos mais tarde, já no científico, voltei a tê-lo como professor. Como me enganara. Quanto pouco havia além daquela  imagem que em mim ficara de conhecimento e sabedoria. A culpa não era dele mas de minha imaginação de criança. De um modo geral o ensino no colégio era muito sério. Havia aulas de educação física em que tínhamos que “plantar bananeira”, apoiando as pernas no muro do pátio. Numa das festas de Natal tive que declamar em alemão alguma coisa que falava de Sant Niklas, o papai Noel alemão. Por essa prosa ganhei um livro de historinhas em alemão que guardo até hoje. Numa dessas festinhas participei de um coralzinho de crianças que se apresentou no Teatro “Copa”. Alguns de nossos eventos escolares  se realizavam no Forte do Leme. Quando havia passado para o segundo ano é que a família Caniato sairia de Copacabana para um lugar em que, pelos próximos cinco anos, eu não veria mais nenhuma lâmpada, muito menos uma escola.

                                 
                             Ginástica pelo rádio
Todas as manhãs, muito cedo, meu pai fazia uma sessão de ginástica pelo rádio. Eram as aulas  da “Hora da Ginástica” do Professor Oswaldo Diniz Magalhães(1904-1998). Esse famoso professor dirigia ao vivo um programa de ginástica, iniciado em 1932 que era acompanhado ritmicamente por um pianista, também ao vivo, creio que na Radio Mairink Veiga e que mais tarde se propagou em rede de várias emissoras. O programa era também orientado por um grande mapa com as fotografias das posições básicas de cada módulo. Havia ginásticas feitas com um “bastão”: um cabo de vassoura. Meu pai fazia o programa com uma regularidade quase religiosa. Eu fui arrastado para o programa e o acompanhei durante todos os anos, a partir de 1935 até 1938 quando saímos do Rio de Janeiro. Além da ginástica, nos intervalos entre os módulos, o Professor Magalhães fazia  uma série de comentários e conselhos que  tinham a ver com uma vida saudável, cheia de otimismo e conselhos sobre saúde, comportamento e cidadania. Creio que também devo a esse professor uma parte importante em meus hábitos que sempre incluíram ginástica e uma visão positiva e saudável da vida. Esse professor, carioca do Meyer, prestou inestimável serviço à educação física e à cidadania no Brasil. Seu programa se manteve no ar por mais de cinqüenta anos e lhe valeu, além do reconhecimento nacional, uma estátua que está na praça Saenz Peña, na Tijuca, no Rio de Janeiro.

                         
                            As belezas do Rio de Janeiro
Desde muito cedo aprendi a apreciar as belezas do Rio de Janeiro. Acredito que muito poucas cidades no mundo reúnam tantas e tão originais belezas naturais. Desde recém nascido acompanhava meus pais aos  freqüentes “piqueniques” em Paquetá. O recanto que frequentávamos com amigos ou parentes era “A Moreninha”. Em minha memória aquele recanto tinha algo de paradisíaco: um encanto quase sobrenatural. A água calma, tépida, era de um verde transparente. As pedras do alto de um dos lados da praia eram cobertas de mata onde se fazia uma travessia pelo “túnel”. O topo daquela pedra  servia de mirante para a Ilha de Brocoió, em frente à Moreninha. A sombra das grandes jaqueiras, mangueiras e coqueiros do pátio do restaurante “A Moreninha”, junto ao mar, era o mais perfeito e suave cenário tropical. De um lado o acesso direto à praia. Do lado oposto ficava o grande portão onde chegavam os coches, puxados por parelhas de belos cavalos, bem arreiados e dirigidos por um cocheiro modesto mas consciente da beleza e dignidade de seu romântico transporte. Além da bela viagem pelas calmas e ainda limpas águas da baia da Guanabara, a chegada e a saída da barca era um acontecimento cheio de emoções: alegria na chegada e nostalgia na partida. Foi nesse, para mim paraíso, que aprendi a andar de bicicleta. Décadas mais tarde quando voltei a essa ilha da fantasia de meus sonhos de criança, encontrei quase tudo degradado: águas poluídas, tudo empobrecido. Os antigos coches rotos e remendados com trapos ou pedaços de arame. Seus condutores e os próprios cavalos eram a figura da desnutrição causadas pelo empobrecimento. A poluição havia levado quase todo encanto daquele sonho que se chamava “Paquetá”.
A Floresta da Tijuca era outro passeio habitual. A subida com o bonde “Alto da Boa Vista”, começava  na “Muda” e terminava na pequena estação e quiosque próximo à entrada do parque, num belo jardim: era a entrada para um dos pontos mais buscados pelos turistas: a “Cascatinha”. Aí havia, além do restaurante e bar, os obrigatórios fotógrafos “lambe-lambe”. Aí começava nossa caminhada pela floresta cuja primeira parada era a Capela Mairinque. Seguíamos pelos caminhos e veredas  até o “Açude da Solidão”, onde fazíamos a parada para o “almoço”. Aí minha mãe abria o nosso farnel: sanduíches de pão “Petrópolis” com “ovos mexidos” e frutas. Depois de um descanso andávamos por outras veredas. Várias vezes fomos até o “Pico do Papagaio”. Em todas as encruzilhadas havia “despachos´ ou “trabalhos” de macumba. Nossa frequência nos fizera conhecidos dos guardas da entrada do parque. Tanto que, com um deles, muitas vezes  meu pai trocava cumprimentos e breves conversas. Um desses guardas nos contou de seu enxoval de cozinha feito de recolher a grande quantidade  de pratos, tigelas e outros matérias dos “despachos”  e “trabalhos” das encruzilhadas.
A floresta tropical da Tijuca, tão próxima da cidade é até hoje uma atração especial e única no mundo. Ela já havia atraído o Rei Alberto I da Bélgica que a visitou e até escalou seus picos. Ela se deve à iniciativa e reconhecimento do problema  do desmatamento seguido da erosão, por Pedro II. O reflorestamento foi iniciado pelo major Archer em 1861  à frente de um grupo de escravos e completado pelo Barão D´Escregnolle que foi o responsável pelo embelezamento dos recantos e atrativos turísticos dessa extraordinária floresta urbana.
                          
                        Corcovado e Pão de Açúcar
Esses dois ícones do Rio de Janeiro sempre estiveram diante de meus olhos e na minha memória. Isso não só pela sua beleza e originalidade como pelo fato de serem pontos obrigatórios nos passeios, repetidos quando chegavam amigos ou parentes dos dois lados de nossa família. O trem ou bondinho do Corcovado foi inaugurado por Pedro II, embora o monumento(Cristo) só tenha sido erigido em 1932. Eu ainda era muito criança mas me lembro da expectativa e dos comentários que  se seguiram a um fato de grande importância histórica naqueles anos. Guglielmo Marconi, o inventor do rádio e premio Nobel de Física (“Physica”,1909), acionou desde a Itália, a bordo de um navio, um sinal de radio que fez acender a iluminação do Cristo. E´ fácil imaginar tanto a expectativa quanto a repercussão que isso teve. Era de fato um acontecimento mundial e que alvoroçava o Brasil, especialmente o Rio de Janeiro naqueles anos trinta.
O Pão de Açúcar, essa extravagante sentinela, bem na entrada da baia da Guanabara sempre foi muito presente especialmente para todos que moravam do centro para o  Sul  do Rio de Janeiro. Sempre foi, além de um verdadeiro ícone da cidade, o lugar onde se ia também para levar parentes e amigos que chegavam à Cidade Maravilhosa. Sempre imaginei o que deve ter sido a entrada da primeira caravela naquele cenário deslumbrante e virgem.  O deslumbramento que deve ter ocorrido a quem  via pela primeira vez esse panorama único. Deve ter sido extraordinário o momento e surpreendente   também a visão dos que estavam em terra, os índios, da entrada da primeira caravela e ver de dentro dela saírem seres tão diferentes.
                              
                                    A Quinta da Boa vista
Esse era outro dos meus passeios preferidos. Os grandes gramados e o obrigatório piquenique eram grandes atrações. Mas o mais sensacional era o passeio nos barcos a remo. Eram uns barcos muito mal cuidados e que sempre “faziam água”. A gente acabava se molhando mas isso só acrescentava emoção. O ponto culminante dessa emoção era a passagem de barco pelo túnel que ligava os dois  lagos em que se podia navegar. Era preciso ir tirando água com uma lata que já fazia parte do “equipamento” do bordo daqueles rústicos barquinhos.
                            O Carnaval nos anos trinta
E´ um grande exercício de memória a comparação do que se tornou o carnaval carioca com aquilo que também já era a maior festa popular, especialmente no Rio de Janeiro, mesmo nos anos trinta. Em Copacabana a grande atração era o desfile  dos carros abertos pela avenida Atlântica, em que muita gente, principalmente as moças, em belas fantasias, atiravam confetes e serpentinas. As mais freqüentes fantasias eram de pierrô, colombina, pirata, toureiro, odalisca.  Uma que me ficou gravada, pela sua originalidade e ocasião, era a de “soldado mata-mosquito”, com a maquininha de “Flit”, o inseticida usado no combate a aqueles insetos em campanha nacional. È desse período a eleição do primeiro Rei Momo. Pelas calçadas também desfilavam foliões com fantasias e  havia concentrações deles e “mascarados” nas “batalhas de confetes” e “lança perfumes”. O lança perfume ainda era, para a maioria, uma brincadeira ingênua. A coisa mais atrevida era esgichar lança perfume nas costas e nos decotes das moças, especialmente das mais bonitas e exuberantes. O lança perfume era importado, em frascos de vidro, outros em tubos metálicos. Os blocos ou “batucadas” vinham principalmente dos morros e eram constituídos em sua maioria  por gente negra e mais humilde. O desfile de carros alegóricos era organizado pelas  “grandes sociedades”: os “Fenianos”, os “Tenentes do Diabo”, “Democráticos” e eram feitos na Avenida Rio Branco, no centro da cidade, vindo na direção do obelisco. Os anos trinta marcaram também a consagração  das marchinhas de carnaval. Certamente uma das de maior sucesso e que por isso ficou gravada em minha memória foi “O teu cabelo não nega” de Lamartine Babo. Acompanhando meus pais para assistir ao desfile das grandes sociedades na Avenida Rio Branco, vi e ouvi  as  primeiras referências aos bailes do Municipal, embora nunca tivesse entrado nele naqueles anos. Getulio Vargas parece ter sido o primeiro político a entender o carnaval como meio de comunicação, especialmente com as classes mais pobres da sociedade.
                    Outras grandes “novidades” na capital
         As praias, mesmo a mais famosa do Brasil, a “princesinha do mar”, Copacabana, não tinham grande freqüência. Não era ainda tão difundido quanto seria mais tarde o  hábito de “ir à praia”. Tanto a avenida Atlântica quanto a própria praia, a areia, eram  muito mais estreitas que as de anos depois. Vez por outra, ondas na preamar, em dias de “ressaca”, atingiam a avenida Atlântica. Eu sempre   frequentara a praia, desde muito criança, entre o Lido e o Copa, em frente à rua Duvivier, com minha mãe que havia aprendido a nadar em sua infância na Suíça. Outras vezes com meu pai ou com um de meus tios, o “tio Nino”, que me levava  em seus ombros até às ondas. A orla era muito mais apreciada pela sua “vista para o mar” ou pelo “footing” na calçada. Para quem passeava pela orla à noite já eram familiares os lampejos  do velho farol da ilha Rasa, bem em frente de Copacabana a orientar os navios que chegavam ou partiam do porto do Rio. Todos os navios que demandavam o porto do Rio de Janeiro sempre tiveram que passar em frente a Copacabana. Faziam parte do cenário da avenida Atlântica os luxuosos ônibus da Light, prateados, com assentos de veludo e um motorista em rigoroso uniforme cinza e quepe. Não havia cobradores. Era preciso despejar as moedas dentro de um recipiente  de vidro junto ao motorista. Só depois de conferir a quantia através do vidro é que ele acionava uma alavanca que fazia as moedas caírem dentro do cofre. Os bondes, muito mais baratos e mais usados, de Copacabana, depois de passar pela “estação de bondes” ou “ponto de cem Reis”, onde hoje está o Centro Comercial, na confluência da Siqueira Campos com a avenida Copacabana, seguiam pela rua Barata Ribeiro e depois entravam na rua ministro Viveiros de Castro em direção ao “Túnel Novo”.
         Na véspera do dia em que nasci, um gigante dos ares decolava pela primeira vez no lago de Constança, na Suíça. Estava surgindo o grande avião de dois andares, feito de madeira e acionado por doze, isso mesmo doze, motores colocados sobre a asa. Como não havia aeroportos ele tinha que ser um hidroavião. Ele se chamava DOX Dornier e sobrevoou o Rio de Janeiro, e especialmente a enseada de Botafogo, creio que em 1936. Do casal dinamarquês que vinha ao Brasil e se hospedava no Atalaia, ganhei uma réplica de brinquedo desse grande avião projetado por Dornier e que seria por décadas o maior avião do mundo. A despeito do grande alvoroço mundial causado por esse projeto alemão, feito na Suíça  ele não teve êxito. Parece que apenas três deles foram construídos mas não chegaram a operar regularmente.
Outra das grandes novidades mundiais, foram as primeiras experiências com o “autogiro” que daria origem ao helicóptero. Era uma criação do piloto espanhol Juan de La Cierva. Embora eu não conseguisse ver com clareza, estive com meu pai, na avenida Atlântica olhando para uma máquina de voar, no céu e que todos diziam ser o novo invento, o autogiro. Seu inventor, que morreu pouco depois, tinha partido, em seu projeto, de um avião em que ele suprimiu as asas e colocou uma grande hélice (rotor) horizontal por cima. O autogiro era propelido horizontalmente pelo motor de avião convencional, na frente. A sustentação das asas era substituída pela  dá hélice horizontal e livre. Ele não caia mas também não podia pairar, parar no ar.
As grandes novidades que o mundo vivia nos anos de minha infância, ressoavam muito no Rio, capital do Brasil. No Rio, a grande vitrina dos acontecimentos era Copacabana. Aí estava a maioria das representações diplomáticas estrangeiras.
De todas as lembranças de coisas ou eventos que vi, nada entretanto podia ser comparado ao Zeppelin. Até hoje essa aparição seria o mais espetacular que se poderia ver. O leitor deve ter bem presente, por muitos meios de comunicação, o espetacular que foi o “Titanic”: um imenso e luxuoso navio de passageiros que naufragou em 1912, logo na viagem inaugural. Pois agora imagine uma coisa daquele tamanho voando baixinho e calmamente. Os “zepelins” tinham quase o comprimento do “Titanic”, apenas uns metros a menos. Dois fizeram várias e regulares viagens, passando pelo Rio entre 1930 e 1937. O primeiro deles, o “Graf Zeppelin”, fez cinco viagens. O mais  moderno e um pouco maior, o “Hindenburg”, fez quatro. Creio ter visto todas essas passagens que eram esperadas com ansiedade. Minha avó materna que criava um primo (Mausi), pouco mais novo que eu, relatava o espanto do moleque quando do portão de sua casa no Belenzinho, em São Paulo, correu para dentro  assustado e dizendo em suíço: “uma grande salsicha voando”. A passagem pelo Rio, deve ter sido também para aqueles passageiros de alto luxo, uma coisa espetacular. Imagine todo o belo panorama do Rio de Janeiro, visto  a uns quinhentos metros de altura, num vôo calmo e lento, podendo olhar por janelas abertas. A notícia de que ele iria passar se espalhava como um rastilho por toda a cidade. Com minha mãe e meu, pai, o gerente, subíamos para o terraço no Ataláia, por cima do décimo primeiro andar. Nosso prédio era dos mais altos de Copacabana. Daí víamos surgir por trás do Pão de Açúcar no morro do Leme aquele imenso charuto voador, todo prateado, voando placidamente sobre o mar por toda a praia de Copacabana, até desaparecer na direção do Leblon. Ouvia-se apenas um pequeno zumbido dos motores diesel dos lados da grande “barriga”. A linha era Frankfurt-Rio. Em Santa Cruz havia sido construído pelos próprios alemães um imenso hangar para receber, abrigar e fazer manutenção daquele “Gigante dos ares”. O governo brasileiro, Getúlio Vargas, havia dado o terreno e a permissão para que se construísse aquele que é ainda hoje, a única coisa do gênero no mundo. Um ramal de trem  também foi construído para servir de apoio operacional  aos zepelins, chegando até o grande Hangar . O maior dos zepelins, o “Hindenburg”, trazia na cauda a “suástica”, o emblema criado por Hitler que usou, especialmente o mais moderno e maior deles, para mostrar  a “superioridade” do progresso e da tecnologia da Alemanha ou -“Deutschland über alles”  (a “Alemanha acima de tudo”).
Antes de ser colocado em linha regular, o “Hindenburg” havia dado a volta ao mundo no ano em que nasci(1929). Sua última viagem terminou tragicamente em 1937, na base de Lakehurst, EEUU), quando se preparava para o pouso. Uma explosão e a combustão do Hidrogênio com que era inflado terminaram com um período de grande e efêmera glória. O mundo estava à beira da Segunda Guerra Mundial.

                        O que se ouvia pelas ruas do Rio
O Brasil já vivia uma grave “crise”. O recente “crack” da Bolsa de Nova York(1929), tão grande ou maior que a que estamos vivendo agora(2009). E` que o Brasil tinha sua economia apoiada sobre a exportação quase só do café. O grande importador desse nosso produto eram  a América. A política do “café com leite”,  pacto entre São Paulo e Minas, havia sido interrompida pela revolução encabeçada por Getúlio Vargas. O presidente Washington Luiz e o candidato que havia ganho as eleições, Júlio Prestes, haviam sido exilados. Para evitar o colapso da produção cafeeira, Getúlio comprava e queimava o café. Logo o descontentamento, especialmente dos paulistas, fez eclodir outra revolução: a revolução constitucionalista de 1932. O clima político do pais era de tensão e isso se refletia e agravava a atividade produtiva nascente mas ainda muito fraca. A radicalização das correntes políticas de esquerda e de direita aumentavam um clima de intranqüilidade. A chamada “intentona comunista” de 1935  tivera seu principal episódio na Praia Vermelha, a pouco mais de um quilômetro de casa. Eu não ouvi os tiros mas o clima de preocupação, comentários e o nervosismo das pessoas era visível, especialmente em meus pais. Diante de nossa porta vi o desfile provocador dos “camisas verdes”, os integralistas, com o sigma, seu símbolo nas braçadeiras e gritando “anauê”! Estes pregavam um fascismo tupiniquim idealizado  e pregado por seu líder Plínio Salgado.
                           O “cangaço” e Lampião.
Talvez  o assunto do cangaço e  as bárbaras proezas de “Lampião” tenha sido o mais insistente e freqüente durante minha infância no Rio. Era muito freqüente o comentário sobre as tentativas  das “volantes” em capturar o “bando” que atemorizava e muitas vezes barbarizava especialmente os fazendeiros do Nordeste. Virgulino Ferreira da Silva, o “Lampião”, com sua companheira Maria Bonita sempre escapavam e levavam “a melhor” no confronto com as patrulhas do exército. Isso trazia não só intranqüilidade como deixava visível a miséria do Nordeste. Lampião, para muitos era uma espécie de “Robin Hood” diante da pobreza e degradação  nordestina na época  dos grandes fazendeiros: os “coronéis”. Esses episódios trágicos contribuíram para por em evidência a pobreza e a miséria reinantes  numa grande região do Brasil.
Finalmente uma patrulha, graças a uma delação, conseguiu emboscar e derrotar o grupo de Lampião. Toda a liderança do grupo foi morta e decapitada. Lembro-me da fotografia de jornal em que apareceram todas as cabeças, cortadas e expostas numa tábua como “prateleira”,  de Lampião, Maria Bonita e de seus companheiros. Era um golpe fatal no cangaço que havia aterrorizado o Nordeste durante as primeiras décadas do século XX. Essa foi uma, sem dúvida a principal e mais chocante, das notícias que vi e de que me lembro, pouco antes que nossa mudança deixasse, por anos, o Rio de Janeiro, em 1938.

                             Outros grandes casos
O fato de estarmos num hotel frequentado por gente que vinha de outras regiões do Brasil e de outros paises da Europa, além dos EEUU, fazia de nossa casa uma caixa de ressonância de fatos e histórias que circulavam pelo mundo. Meu pai como gerente e interprete era quem recebia os principais clientes do hotel. Nosso principal hóspede, Mister Joseph, uma vez por ano passava alguns dias nos EEUU mas preferia morar no Rio de Janeiro, no “nosso” Atalaia. O casal Fosker também voltava  sempre da Europa, pelo menos cada dois anos. Isso fazia com que meu pai, alem de ler os jornais, estava sempre em contato com  pessoas que traziam novidades do mundo. Por sua vez era inevitável que meu pai conversasse em casa sobre aqueles assuntos tão palpitantes.
 Sacco e Vanzetti haviam sido executados na cadeira        elétrica em 1927, depois de um longo,  complicado e polêmico julgamento que ficaria na história dos grandes processos dos EEUU. Tratava-se de dois imigrantes italianos que eram, como muitos outros que vieram para o Brasil, anarquistas. Esse dois, além de tomados como subversivos foram acusados de um assalto com uma morte em que foi roubado todo o dinheiro do pagamento dos funcionários de uma fábrica de calçados em Massachusets. Depois de muitos anos de julgamento ambos foram executados na cadeira elétrica. Como não havia tido flagrante do assassinato, sempre permaneceu a dúvida sobre sua culpabilidade de morte ou se o processo não havia sido “contaminado” por um sentimento contra imigrantes “subversivos” que tomavam o lugar dos operários americanos e por uma espécie de “caça às bruxas” contra anarquistas. Durante vários anos, em muitos paises foram organizados “comitês” e movimentos populares apelando por clemência para os dois. Até hoje se discute a legitimidade desse processo e a execução dos dois imigrantes italianos.
Outro rumoroso caso discutido em todo  o mundo nos anos trinta  ressoava no Atalaia: o caso Lindbherg-Hauptman. Charles Lindbherg era um herói nacional nos EEUU. Ele havia feito sozinho a primeira travessia do Atlântico, dos EEUU para a Europa, num avião monomotor. Isso em 1927. Em 1932 um filho seu de menos de dois anos foi raptado e morto. Não houve testemunhas oculares nem provas cabais. Havia fortes indícios ou provas indiretas que recaíram sobre um carpinteiro  alemão imigrante: Bruno Richard Hauptman. Durante quatro anos o processo contra Hauptman foi discutido não só na justiça americana como no mundo todo. Por fim, o veredicto foi de pena capital na cadeira elétrica. Em abril de 1936 Hauptman foi executado, protestando inocência até o fim. A repercussão aqui se fez sentir pela difusão do medo e restrições das mães em deixar as crianças livres para brincar pelas ruas.

                                 

                                          O Caso Dreyfus
Em meados de 1935 faleceu Alfred Dreyfus, um ex oficial de artilharia do exército francês. Talvez nenhum outro caso na historia moderna do mundo tenha agitado tanto a opinião pública quanto esse. Foi esse o tema que celebrizou Emile Zola com seu “J´accuse”(Eu acuso) e a provável causa de sua morte trágica e misteriosa. Embora o caso tenha tido seu início nos últimos anos do século XIX, as questões que ele levantou com a marcha e contra  marchas de um processo complicado, provocaram movimentos apaixonados e consequências graves em várias partes do mundo. Um manuscrito encontrado numa cesta de papeis e levado às autoridades do exército francês indicava a existência de um oficial de alta patente e traidor. As suspeitas caíram sobre Dreyfus, único alto oficial de origem judia. Instalou-se uma corte marcial e Dreyfus foi condenado à prisão perpétua na Ilha do Diabo, na Guiana Francesa.  Mais ainda, Dreyfus foi submetido à cerimônia de degradação, sendo-lhe arrancadas as insígnias de oficial e quebrada sua espada. O fato de ser Dreyfus judeu e a inconsistência da acusação levantaram  as suspeitas de uma perseguição contra os judeus na França. A França e boa parte da Europa ainda viviam a tensão entre monarquistas e republicanos. A França estava dividida entre opositores e favoráveis a Dreyfus. Muitas empresas de judeus foram depredadas. E´ nesse clima  de grande polarização política que Emile Zola publica seu artigo “J´accuse” pondo em evidência que se tratava de uma farsa montada e destinada a, de qualquer maneira, incriminar Dreyfus, pelo fato de ser judeu. Zola, condenado à prisão e pagamento de multa, teve que se refugiar na Inglaterra. Outra vez a polarização levantou protestos e graves episódios em várias partes do mundo. Por fim se descobriu que um outro oficial francês havia escrito o papel incriminador visando eliminar da alta oficialidade francesa um  judeu. Quando faleceu, em 1935, Dreyfus havia sido reabilitado, sem que nunca tivesse reivindicado reparos pelos grandes danos que havia sofrido. Seu caso, no entanto, discutido durante décadas, ecoou por todo o mundo e havia contribuído para que se compreenda até onde podem ir a xenofobia e o racismo. Esse rumoroso caso foi uma das coisas que muito ouvi em minha infância, dentro de casa, e na recepção do Atalaia hotel dos anos trinta. Meu pai era especialmente interessado em questões envolvendo os grandes processos jurídicos.


                                O circuito da Gávea
Outro aspecto marcante dos anos trinta de minha infância no Rio foi a corrida de carros: as “baratinhas”, como eram conhecidos os carros de corrida.  Desde muito pequeno assisti a muitas dessas corridas nos ombros de meu pai. Algumas vezes empoleirados nos andaimes de uma construção próxima às margens da corrida. A corrida era feita nas ruas do jovem bairro da Gávea. Não havia nem autódromo nem lugares especiais para os espectadores. A partida era dada na rua Marquês de São Vicente. O trajeto seguia pelo Canal do Leblon, depois de passar pela porta do Hotel Leblon, entrava na avenida Niemeyer e depois subia por uma estrada de terra, o “trampolim do diabo”, onde está hoje a favela da Rocinha, descendo pela estrada da Gávea e   rua Marques de São Vicente. Também assisti  a corrida de onde era dada a partida, na Rua Marquês de São Vicente, próximo ao canal do Leblon. Pelo Brasil, corriam  Manoel de Tefé, chamado de Barão de Tefé em uma “baratinha amarela e Irineu Correa. Aquele, venceu em 1934. O segundo marcou o início do automobilismo brasileiro de competição. Muitas vezes, fora da corrida essas baratinhas amarelas dos brasileiros, eram vistas estacionadas na então rua Copacabana, entre o Lido e o “Copa”, em frente ao Atalaia. Em 1934 o vencedor foi Irineu Correa. No ano seguinte aconteceu o trágico acidente em que ele morreu. Sua baratinha capotou e foi cair dentro do canal do Leblon. Assisti à corrida e ao grande tumulto que isso provocou. A cada ano essa corrida se tornava mais popular e arrastava multidões. A partir de 1935 a corrida ganhou mais prestígio com a chegada de grandes nomes do automobilismo internacional. Em 1936 a Ferrari mandou um corredor  com um nome que se tornaria lendário e sinônimo da alta velocidade: o italiano Carlo Pintacuda com sua baratinha vermelha. A Alemanha mandou Hans Stcuck, o “Von Stuck”. Da França veio “madmoiselle” Helenice, com sua baratinha azul. Essa, foi a primeira participação, talvez a única, de uma mulher numa corrida desse gênero. Seu carro quebrou e ela não conseguiu chegar ao fim da prova mas marcou época e causou muito “frisson”.Sua aparição na praia de Copacabana, com maiô de duas peças também deu o que falar.  Creio que não havia escuderias como as hoje. Os carros representavam os paises por suas cores: amarelos os brasileiros, vermelho dos italianos, azul da França. A Alemanha mandou um carro espetacular, capaz de muito maior potência,  velocidade e com o aspecto de uma bala de fuzil: o “flecha de prata” da Auto Union. A esta altura a Alemanha nazista já estava empenhada numa forte campanha de propaganda internacional. Aquele carro mais potente,  mais reluzente e mais espetacular deveria mostrar a “superioridade” da Alemanha. Não adiantou. O italiano Pintacuda, da Ferrari, ganhou a corrida e se transformou num ídolo e num ícone da velocidade. Esse prestígio popular se manifestou nos anos seguintes numa das marchinhas de mais sucesso do Carnaval carioca: “sou um pintacuda pra beijar”.

          De Copacabana para  a Penha, em São Paulo
Uma vez por ano meu pai, tirava uns dias de férias para visitarmos os parentes em São Paulo. Para mim isso representava um ansioso alvoroço. Desde a véspera eu acompanhava o arrumar das malas por minha mãe. Às seis horas já tomávamos  o táxi que nos levaria à estação  Pedro II . Atravessar o Túnel Novo em táxi, ainda com escuro produzia em mim um efeito mágico:  o passar rápido das luzes do túnel refletidas no capô do táxi. Na estação, o burburinho das pessoas, dos carregadores de bagagens e o embarque eram um verdadeiro “agito”. Depois de colocar as malas à bordo, meu pai me levava para ver a grande locomotiva “Baldwin”, americana que resfolegava, esquentando as caldeiras e “bufando”, pronta para a partida. Depois de muitas despedidas, lágrimas e sorrisos,  grande número de lenços brancos  acenando iam ficando para trás. Resfolegando e apitando, o trem ia ganhando velocidade. Era tentador olhar para a paisagem, pondo a cabeça para fora da janela. Mas isso custava o preço das fagulhas e fumaça  que  voavam do chaminé da grande locomotiva. Muitas pessoas usavam um guardapó para proteger suas roupas das fagulhas e da fuligem. Era preciso manter os vidros fechados, apesar do calor. A primeira parada era em Vassouras. Dessa estação ficou para sempre em minha memória o creme de Vassouras, um delicioso requeijão em sua caixinha de papelão retangular, com o gosto daquelas viagens. Em cada parada meu pai descia e passeava até o último momento, subindo a bordo só quando o trem começava a se movimentar, deixando-nos ansiosos. Depois de doze horas de viagem, cansados e empoeirados, chegávamos à estação do “Norte”, em São Paulo. O “Paschoalim, taxista filho de italianos, velho conhecido da família, nos levava para a rua Guayauna, na Penha, onde moravam meus avós paternos: Beppi Caniato e Ana Tiepo Caniato. Ele rovigotto(de Rovigo), ela de Treviso, ambos  vênetos. Depois  da calorosa recepção, banho de bacia, com a água aquecida em grandes chaleiras de ferro, a sopa de feijão com macarrão. Para mim essa mudança radical tinha o gosto  tão especial como o de um sonho: era um mundo tão diferente pelo lugar e pelo afeto que recebíamos na grande sala, acima do piano, estava o relógio que até hoje evoca minha infância naquela casa.
Dos sete irmãos Caniato, três, ainda moravam na casa dos “velhos”: o mais novo, tio Mário, muito moço, ajudava na leiteria e sorveteria, onde meu avo fabricava, entre outros, o sorvete especial, o “esquimo”, picolé com casquinha de chocolate. Isso exigia vários estágios de fabricação no grande refrigerador que exalava um fortíssimo cheiro de amoníaco. Tio Mário, que também tocava violão, me levava passear pela rua  Guayauna no quadro de sua bicicleta. Íamos visitar uma tia-avó, tia Amália cujo marido(“Zio” Montesso), um velhote “brontolon” (resmungão), era o pai de uma grande família que fabricava pinceis de alta qualidade. Tio Américo, já adulto era muito  hábil em diversos trabalhos de madeira em sua carpintaria no grande quintal. Fazia rodas de muitos tipos e finalidades. Muito brincalhão e criativo, fazia também uns carrinhos para descer na ladeira próxima da casa. Era uma brincadeira que reunia adolescentes e adultos daquela vizinhança. Como era uma ladeira muito longa e íngreme, os carrinhos atingiam alta velocidade e tinham que ser dotados de um “breque”. Também fiz essa descida  com ele pilotando nosso “pintacuda”. Tio Luiz já era um homem feito. Mantinha-se solteiro mas era o “arroz de festa dos bailes” e disputadíssimo pelas moças da rua Guayauna e arredores. Pela manhã sua refeição era uma monumental gemada de ovos de gansa com chocolate, aveia e outros ingredientes. Era o “Gigi”, querido de minha avó e um tio da mais grata memória, sempre muito alegre e brincalhão.
A casa era simples mas muito grande e rodeada por enorme quintal com galinhas, patos, gansos  e muitas árvores frutíferas. Desse cenário da grande e importante rua Guayauna faziam parte  a repetida cantilena do italiano que vendia bata doce assada: “Bata..n..assad.. u.. furn” e o vendedor de leite de cabras. Este trazia alguns desses animais, de úberes cheios, atrelados uns aos outros e eram ordenhados na porta da casa de quem tivesse uma criança “fraca”, necessitada de um “reforço” alimentar. Para quem vinha, como eu, de  Copacabana, era um mundo muito diferente: uma aventura extraordinária.
Numa dessas viagens, tios e avós me fizeram uma inesquecível surpresa: me presentearam com um cabritinho. Para mim uma emoção embriagadora e inesquecível. Meu drama foi, na partida: eu queria levar o “meu” cabrito   para mostrá-lo aos meus amigos de  Copacabana. O dia em que conheci “meu” cabrito foi de tanta  euforia que não quis acompanhar meus pais  na obrigatória visita à casa de minha avó materna. Eu quis ficar com o cabrito. Só que, já noite, passadas as emoções com o cabrito, cansado e com sono, senti falta de minha mãe, chorei e fiz meus avós me levarem da Penha para o Belenzinho de bonde. Fazia muito frio e minha avó me envolveu em um grande xale para me entregar no Belenzinho, na casa de meus parentes suíços.

                 
                            A casa de minha avó materna.
Minha avó materna era suíça. Ela se havia separado de meu avô por discordar do projeto de vir de um belo chalé na Suiça para um casebre em Campo Limpo Paulista. Por isso vivia na casa da sua filha, minha tia Elza. Esta era casada com um português, o tio Domingos. Ambos trabalhavam no Hotel Esplanada, atrás do Teatro Municipal de São Paulo. Ela era encarregada das “arrumadeiras” de um dos andares e ele “ascensorista”, operador no elevador dos freqüentadores do hotel. Ambos saiam para o trabalho muito cedo e voltavam durante a tarde. Assim, a administração da casa era feita por minha avó. A casa tinha por isso um jeito todo suíço. A limpeza era impecável e as camas, com edredons de penas de ganso tinham um cheiro especial, um cheiro suíço. A sala tinha uma arrumação minuciosa, presidida por um relógio vindo da suíça com a família e que tocava suavemente a cada quarto de hora. O fogão a gás com bujões que eram importados, era usado  com econômica racionalidade. As panelas tinham dois “andares”, visando o aproveitamento  do calor. Nessa casa vivia meu primo Marcel, o “Mausi”, pouco mais novo que eu, criado por essa minha avó e uma tia. A família Schwyzer, de minha mãe, havia chegado da Suíça em 1920 com o navio “Contessa Mafalda”, logo que se restabeleceu a navegação de passageiros depois da Primeira Guerra Mundial. Um dos irmãos de minha mãe, o tio Fritz, com dezoito anos deixara na Suíça uma namorada, Maria, ainda menor. Quando ela completou a maioridade, foi feito o casamento por procuração.  Ela embarcou em Gênova para vir encontrar o jovem marido. Os Schwyzer foram recebê-la em Santos. Nove meses depois nasceu o meu primo mas a jovem Maria, morreu no parto. Tia Elza, irmã de minha mãe e minha avó assumiram a criação do menino Marcelo, meu primo. Esse meu primo, o “Mausi”, foi aquele que correu apavorado para dentro de casa chamando a avó por ter viso “uma grande salsicha voando” quando viu pela primeira vez em São Paulo o Graf Zeppelin. Meu tio Domingos  não era um homem culto ou que lesse muito, mas tinha modos e falar muito polidos pois que convivia o dia todo com hóspedes ilustres naquele que era o hotel mais sofisticado da época em São Paulo. Seu aspecto era de um senador: terno escuro de casimira inglesa, colete, chapéu de feltro, sapatos pretos reluzentes e uma ostensiva corrente de relógio a lhe pender do bolso do colete. No seu trabalho de “dirigir” o elevador dos hóspedes do Esplanada envergava um  impecável uniforme. Seu contato com a “nata” dos freqüentadores de São Paulo era outra fonte de informações das grandes coisas que iam pela paulicéia. Ele conhecia e cumprimentava em seu elevador as celebridades que        frequentavam o Esplanada, como os grandes cantores que se apresentavam no teatro Municipal de São Paulo.
Alem dos bolos suíços, essa casa de minha avó, meio suíça meio portuguesa, tinha  para mim um grande atrativo infantil: o cavalo de pau, de balanço de meu primo. Meu tio Fritz, com alma e habilidades de artista, esculpiu um belo cavalo de madeira no qual meu primo fazia verdadeiras proezas ao balançar. A rua onde eles moravam, Serra de Jairé, no Belenzinho, era uma ladeira  e ainda de terra. Para mim era um grande atrativo ver as manobras dos “caminhões” de lixo puxados por quatro mulas e burros bem tratados e  adestrados. Só em São Paulo eu via isso.

                            De volta ao Atalaia
Depois de uma semana dividida entre as casas de meus avós paternos na Penha e do lado materno,  de minha avó e tios  no Belenzinho, custava muito para mim a volta para casa. Saíamos da rua Guayauna para a estação do “Norte” levados pela “Buick” do Paschoalim.  Tive que me despedir de meu querido cabrito. Eu tinha esperança de voltar no próximo ano para revê-lo.Nunca mais nos vimos; ele deve ter dado um grande bode. O embarque no trem expresso da Central do Brasil para o Rio de Janeiro era às sete horas da manhã. Era preciso levantar muito cedo. Outra vez as dolorosas despedidas: pessoas queridas, aquele quintal e aquele afeto e cheiro de uma casa “italiana”onde se fazia o pão. Finalmente estávamos a bordo para a viagem de volta ao Rio, num trem puxado pelas grandes e fumegantes locomotivas a vapor. Logo a tristeza pela despedida do cabrito, o gosto das comidas e bolos das duas avós foram ficando para trás pela quantidade de coisas que aquela viagem de trem oferecia. A primeira parada do trem nessa viagem de volta ao Rio era em Jacareí. Ainda antes que o trem parasse os vendedores se empenhavam, aos berros na venda dos famosos biscoitos dessa cidade: os biscoitos de Jacareí. Nunca me cansei de, em todas as curvas, observar a grande locomotiva que ia soltando fumaça e fagulhas. Algumas vezes durante a viagem o trem parava parar para reabastecer de água a sedenta locomotiva. Numa das paradas, em Taubaté, havia entrado uma família cujo embarque nos havia chamado a atenção. Com seus pais, uma menina de 6 ou 7 anos chorava por  querer fazer embarcar seu cachorrinho que ela trazia ao colo. Os pais se acomodaram nas poltronas do vagão em que estávamos. A menina chorava convulsivamente enquanto o cachorrinho latia da plataforma na direção da janela do vagão. Quando o trem se pos em movimento, o cãozinho também  inconformado com a separação, passou a correr paralelamente ao vagão, enquanto latia. Na medida em que o trem ia ganhando mais velocidade, o cãozinho não desistia e continuava a correr paralelamente. Assim, durante muito tempo aquele fiel cãozinho da menina correu desesperadamente até que suas forças se exaurissem, ficando para trás e emocionando todos os passageiros que apinhados nas janelas  acompanhavam aquele singelo drama de uma separação.   Finalmente chegávamos de volta à estação Pedro II no Rio de Janeiro. Já o cansaço da viagem não me permitia ver  a chegada em casa. Exausto pelas doze horas da viagem e por tantas emoções adormecia no colo de minha mãe. O dia seguinte era destinado ao reencontro com meus amigos e aos relatos, especialmente ao meu mais chegado amigo Mario. Ele nunca havia andado de trem. Por isso tínhamos agora mais  assuntos e tanto que conversar.


                                 O Hotel Atalaia
Desde os primeiros anos do século XX Copacabana se tornaria uma das atrações do Rio de Janeiro. No entanto foi a inauguração do Copacabana Pálace, o “Copa”, em 1923 que deu ao bairro e à cidade um grande atrativo e maior notoriedade. Além da beleza natural de sua praia, da vista dos navios que demandavam o porto, Copacabana passava a receber  grandes personalidades de projeção mundial. Bastaria citar Albert Einstein em 1925 e Santos Dumont em 1928 e o Rei da Bélgica, Eduardo I. Quando inaugurado por seus proprietários da família Guinle esse, ainda hoje belo projeto arquitetônico francês, era rodeado de terrenos baldios. Foi num desses terrenos próximos que, logo depois do “Copa” foi construído o “Atalaia Hotel”.  Sua frente não era na praia mas na rua imediata, a rua, mais tarde avenida Copacabana.   Era uma prédio de 11 andares e se destinava principalmente a homens de negócios que tinham afazeres  na capital do Brasil. Acima do décimo primeiro andar ficava um amplo terraço de onde se podia ver a praia e todo o bairro. Foi desse terraço que vi as espetaculares passagens do “Zeppelin”.

                          Quem era o gerente do “Atalaia”.
Meu pai, Antônio Caniato, o “Toni” para os pais e irmãos, era o filho mais velho e o líder de uma irmandade de seis irmãos e uma irmã. Ele havia nascido na Fazenda “Macuco”, na região de Campinas,SP, no mesmo ano em que se inaugurava a grande Estação da Luz(1901). Seus pais, meus avós paternos, eram imigrantes italianos vindos do Vêneto: ele de Rovigo, ela de Treviso. Quando meu pai tinha pouco mais de uma ano, meu avô, José, o “Beppi” Caniato, consegui um pouquinho de dinheiro,  o suficiente para se livrar daquela quase escravidão nos cafezais, para tentar a vida em São Paulo. Logo conseguiu um emprego na fábrica de vassouras Fracalanza. Trabalho e dedicação o promoveram para fabricar vassouras de “luxo com acabamento em veludo” que eram destinadas às grandes residências e palacetes de São Paulo. Ainda muito criança, meu pai o acompanhava e ajudava no trabalho da fábrica. O ganho era por produção; por isso a necessidade da ajuda, mesmo de crianças. Era preciso fazer uma longa viagem de bonde, pelas frias madrugadas de São Paulo. Chegado à  idade da escola, o progresso do “Toni” foi notado pelo professor. Ainda guardo a carta do diretor da escola pedindo a meu avô que  deixasse o menino continuar o estudo. Mas o trabalho para ajudar na criação dos irmãos exigia o abandono da escola. Não sei se por isso ou apesar disso, meu pai se tornou desde cedo um autodidata. Sempre estudou e leu muito, sozinho. Ainda adolescente conseguiu um lugar de “cumim”, auxiliar de garçom, no restaurante da casa Mappin Store, no centro de São Paulo, freqüentado por ingleses, engenheiros, administradores da Light e de outras empresas estrangeiras. Sua natural facilidade para idiômas e sua aplicação aos estudos solitários, logo lhe valeram promoções. O contato com clientes lhe proporcionou mais experiência e oportunidade de exercitar seu inglês. Esses contatos valeram também como alargamento de seus horizontes em todos os sentidos. No meio dos anos vinte ele já era disputado como “mètre” e já dispunha de algumas economias para maior ajuda aos pais e irmãos.
Talvez sua origem rural,  como a dos pais, lhe tenha sugerido a compra de duas glebas de terra em um distante lugarejo no sertão, chamado Currupira, entre Campinas e Jundiaí. Essas terras ficariam muito ligadas à  história da família Caniato.
O desenvolvimento de são Paulo e a crescente necessidade de hotéis encontravam um problema: a falta de gente com qualificação para os serviços gerais, o funcionamento e atendimento de uma clientela cada vez maior e frequentemente estrangeira. Alguns hotéis e grandes restaurantes importavam “brigadas” de funcionários, especialmente italianos para esses serviços. Nesse ambiente de trabalho o Caniato progrediu e logo pensou em ir em frente: ir para o Rio de Janeiro, capital do Brasil. Ainda em São Paulo conheceu uma viçosa jovem suíça, Louise, que trabalhava com uma  irmã  como camareira no Esplanada Hotel. Ela chegara ao Brasil em 1920, aos quatorze anos vinda com toda sua família de Wettingen, na Suíça. No Esplanada Hotel se hospedavam os cantores das óperas que se apresentavam no Teatro Municipal. Esse hotel era  escolhido pelos artistas porque bastava atravessar a rua para entrar pelos fundos do teatro. Meu pai era um aficionado por ópera, como quase todos os “oriundi”. Tanto que ainda antes da maioridade tinha assistido o grande tenor Henrico Caruso no Municipal de São Paulo, em 1917, na única ocasião em que esse grande cantor esteve em São Paulo. Os já namorados, Antonio e Luiza(Louise) viram muitas óperas juntos. Casaram no “civil” e juntos começaram a viver juntos e a planejar a mudança para a então capital do Brasil. Depois de meses de planejamento e economias, meu pai foi ao Rio providenciar uma moradia e confirmar o novo emprego. Uma carta  dele confirmava o projeto Rio de Janeiro. De volta a São Paulo e feitas as malas, seguiram juntos para o Rio ainda desconhecido dela  e por conquistar. Ele levava uma experiência que logo lhe garantiria o  emprego no Rio: “mètre” no novo  e elegante ponto de Copacabana, o “Lido”. Pouco tempo depois ele passaria a gerente dessa casa no mais belo ponto de Copacabana. Em poucos anos sua experiência e dedicação lhe granjeou respeito e prestígio. Ele era convidado para ser o gerente do “Atalaia Hotel”, ali bem pertinho do “Lido”.
                                A Gerência do “Atalaia”
O Atalaia Hotel tinha onze andares e havia sido construído logo depois do “Copa”, por volta de 1926. O bairro passava por um surto de progresso e novidades. Depois de 1929 os  eternos problemas do Brasil passavam por mais um agravamento. A quebra da bolsa de Nova York havia quase eliminado a exportação do café, a principal fonte de riqueza no Brasil. Todo o comércio do país se ressentia disso. Meu pai assumiu a gerência em 1933. Além dos problemas do fraco desempenho da economia, a falta de gente com qualificação para desempenho de uma grande diversidade de funções, especialmente num hotel, era uma grande questão. O funcionamento do hotel exigia gente com algum preparo para o desempenho de cada função. Mas isso quase não existia. Não havia, ou eram raríssimas, as pessoas que tinham alguma experiência prévia em cada uma das áreas necessárias ao funcionamento de um hotel. A falta de pessoal para executar  mesmo as tarefas mais simples se constituía num grande problema.  A arrumação das camas, por exemplo, assunto dos mais óbvios em um hotel, se constituía num grande problema. Era muito difícil conseguir mulheres que tivessem alguma competência para aquela tarefa simples. A higiene de banheiros: outro problema. Essas limitações na obtenção de pessoas que, precisando e pleiteando emprego, soubessem executar  tarefas, tornavam a administração muito difícil. Durante anos  acompanhei minha mãe também empenhada em ensinar tais cuidados às “arrumadeiras” a quem cabiam aquelas tarefas. Ela possuía uma grande experiência prévia desse trabalho num hotel de luxo em São Paulo onde havia trabalhado: o Esplanada. Além disso, como qualquer jovem  suíça, conhecia obrigatoriamente todos os afazeres de uma casa. Se nos tempos atuais, a escolaridade e a mão de obra competente ainda são problemas, imagine-se naqueles anos em que o Brasil, nesse sentido, dava os primeiros passos da grande hotelaria. Lembro-me de minha mãe ajudando a administrar a rouparia para várias dezenas de apartamentos. Um dos grandes trabalhos dela foi ensinar gente a bordar  o emblema do hotel nas  fronhas dos travesseiros do hotel.
Os serviços de manutenção se constituíam em outro grande desafio, principalmente tratando-se de água e eletricidade. Para resolver esses problemas, lembro-me das lutas e aborrecimentos de meu pai. Um dos empregados que ficou muito gravado em minha memória pelo muito que esteve envolvido em situações “desesperadoras” para o gerente. Esse empregado era um português muito saudável e forte e se chamava Manoel. Lembro-me dos aborrecimentos que meu pai tinha pelas “soluções” que o Manoel “inventava”. Embora fosse trabalhador  e de boa vontade, era profundamente ignorante e ainda teimoso na defesa de suas “soluções”. Uma das dificuldades para o Manoel era admitir que parafusos na madeira deveriam ser aplicados com chave de fenda e não simplesmente com o martelo. Ele achava que a rosca dos parafusos era apenas para lhes conferir mais retenção na madeira e se recusava a admitir que eles deviam ser aparafusados. Ele insistia em “colocá-los a marteladas”. A mesa telefônica era outro problema. Era muito difícil encontrar quem desse conta do “recado” para todos os apartamentos, com discrição, polidez e clareza. Depois de muitas tentativas desastradas, meu pai mandou vir um de seus irmãos mais novos, de São Paulo para ensiná-lo a responder pela “mesa telefônica”. Gastou tempo em prepará-lo. Esse meu tio tinha dezoito anos, era forte, tinha bom aspecto, bonita voz e era capaz de ser muito gentil. Só que ele era especialmente gentil com as senhoras mais jovens e bonitas e o que lhe faltava em prontidão na “mesa” telefônica, sobrava-lhe em testosterona. Depois de muitos casos “delicados” e de ter arrumado um “afair” com uma jovem e linda governanta, chamada Florisa, de um palacete vizinho, meu pai, antes que a testosterona tivesse conseqüências, teve que exportar o irmãozinho de volta para a Penha, em São Paulo.
O restaurante era outra fonte de grandes aborrecimentos para o gerente. Quando meu pai assumiu a gerência do Atalaia já estava instalado um encarregado do restaurante. O “seu” Fernandes era um português que tinha mania de boxeador. Era uma pessoa de poucas letras, impulsiva grosseira e que achava que a comida deveria ser  portuguesa. Eram muito raros, se é que havia, clientes portugueses no hotel. Daí a orientação de meu pai para que a comida tivesse características mais internacionais. Quanto à apresentação e tipos de cardápios meu pai tinha  experiência, mas não sabia fazer nem podia impor os pratos a serem feitos sob a supervisão de “seu” Fernandes. O que evitava  que a tensão entre meu pai e “seu” Fernandes chegasse ao extremo era a delicadeza e habilidade pacificadora de sua esposa, Dona Alice.  Esse homem infernizou a vida de meu pai como gerente e foi uma das futuras causas para que meu pai, na segunda metade dos anos trinta desistisse da vida urbana por causa do “estresse da vida moderna”, em 1938. Curiosamente, esse mesmo “seu” Fernandes, muitas décadas depois, descobriu o endereço de meu pai, já aposentado, em Campinas e lhe viesse pedir desculpas pelos aborrecimentos daqueles anos. Fizeram as pazes e se tornaram muito amigos, até a morte, sempre por iniciativa daquela meiga esposa, Dona Alice, um exemplo de alma delicada e gentil.
                          Uma doencinha “incurável”.
        Durante os primeiros anos de Atalaia nossas refeições eram feitas no restaurante do hotel. Só o café da manhã, depois da ginástica pelo rádio, fazíamos no apartamento. Um certo dia fui acometido de uma leve dor de barriga. Isso se repetiu algumas vezes. Não era nenhuma dor  que assustasse mas a persistência dela fez com que minha mãe me levasse ao médico. Depois de muitos exames a constatação: “desinteria amebiana”. Hoje isso não representaria nenhum problema. Mas no começo dos anos trinta não havia disponíveis remédios eficazes para curar essa verminose. Só havia tratamentos paliativos. Eram necessários cuidados com a alimentação e esses seriam impraticáveis comendo-se em restaurante. Foi quando minha mãe passou a cozinhar em nosso apartamento. Começaram minhas restrições em relação a comidas e necessidades dos remédios paliativos. Eu precisava ir frequentemente ao médico para exames. Isso modificou bastante nossas vidas pelas restrições impostas pelo médico. Eu perdi  um pouco da minha liberdade nas brincadeiras e nas andanças pelos terrenos baldios e ruas das vizinhanças. Fiquei um pouco estigmatizado com essas limitações. Minha mãe redobrara os cuidados com minha alimentação e mais vezes era preciso ir ao médico que ficava na Avenida Princesa Izabel. Parece difícil  acreditar que naqueles anos trinta uma simples verminose, hoje tão corriqueira não tivesse um remédio específico mas apenas paliativos. Muitas vezes nos ocorre dizer que “antigamente” tudo era melhor. Hoje imagino que o médico possa ter dito  que embora não houvesse um remédio específico para minha “amebiana”, talvez ela desaparecesse espontaneamente com alguma mudança de clima ou simplesmente  de águas.
                      
                                O “clima” pré-guerra.
Além dos problemas de administração do Hotel “Atalaia”, tanto no Brasil quanto no resto do mundo, as “pedras” do xadrês internacional, se posicionavam numa configuração que resultaria na Segunda Guerra Mundial. Meu pai, paulista, ardoroso entusiasta de sua terra, tinha sérias restrições ao governo Getúlio Vargas. Já pela deposição e exílio do “paulista” de Macaé, Washington Luiz, como do candidato paulista vitorioso nas eleições presidenciais de 1930, também exilado pelo governo de Getúlio. A derrota da revolução constitucionalista de 1932 também deixara cicatrizes políticas nos paulistas. A Chamada “intentona comunista” que tivera um sangrento episódio em 1935, ali bem perto de Copacabana, na Praia Vermelha, e o surgimento do fascismo tupiniquim de Plínio Salgado, eram evidências de um acirramento do clima político, especialmente na capital do Brasil, Rio de Janeiro. Os “camisas verdes” de Plínio Salgado, marchavam em atitude ostensiva e provocadora por Copacabana, bem em frente ao nosso prédio, enquanto berravam “anauê!!!”. Isso tenho muito vivo na memória. Esse clima vinha afetando  também a frequência de hóspedes e agravando as dificuldades administrativas também dos hotéis. A decretação do Estado Novo em 1937 era um novo fator de preocupação e tensão política. O pretexto de Getúlio eram as duas “ameaças”, a “vermelha” dos comunistas de Luiz Carlos Prestes e a “verde” dos integralistas de Plínio Salgado. Esta última culminaria num assalto armado ao Palácio Guanabara, residência do presidente da república.
                   O “estresse da vida moderna” em 1938.
A soma dos problemas vividos na gerência do Atalaia com a diminuição da clientela, o sombrio   clima político nacional, somados ao clima internacional tenso fizeram meu pai chegar ao “estresse da vida moderna”. Obviamente não existia essa expressão.  Todo esse conjunto de fatores deve ter sido a principal razão para que meu pai tomasse uma decisão realmente radical: ir embora de Copacabana para o “mato”. Mas e a direção do Atalaia? A par da disposição de ir embora, meu pai era uma pessoa extremamente responsável. Além disso era pessoa de grande confiança dos donos do “Atalaia”. Um deles, o mais chegado a meu pai, Senhor Greve, pessoa a quem meu pai dedicava também uma grande admiração, veio apelar para seu Caniato que não tomasse decisão tão radical. No entanto, meu pai já havia decidido. Como auxiliar do gerente, havia um contador, Senhor Rezende, o guarda livros. Meu pai sugeriu que seu Rezende ficasse em seu lugar. O Senhor Greve concordou, com a condição de que meu pai indicasse outra pessoa de sua inteira confiança para integrar a nova gerencia, ainda que como “vice”. Meu pai então indicou seu irmão, Luiz, o “Gíggi”, o irmão “do meio” entre os irmãos Caniato e que exercia   o cargo de “mètre” no restaurante de um hotel de São Paulo. Meu tio Luiz aceitou e se dispôs a vir imediatamente para o Rio, onde passou quase toda sua vida. Logo depois  ele se casou com uma tecelã de Sorocaba, Izabel Ocaña e teve dois filhos: Wilson e Regina.
Nunca me foi dito por meus pais mas um motivo me perece pode ter tido também algum peso na radical decisão deles de irmos de Copacabana para Currupira, seu pedacinho de terra, comprado na mocidade. Talvez diante da ausência de remédios específicos para curar minha “desinteria amebiana”, o médico tivesse dito que era possível um cura espontânea com alguma “mudança de ares,  de águas e de clima”. Isso sempre ficou para mim como uma suspeita. Era o começo de 1938. A decisão de ir embora estava tomada.



                              Deixando Copacabana e o “Atalaia”
Em poucos dias minha mãe arrumou as malas para a mudança. Nós iríamos de trem e um caminhão levaria a mudança. Acompanhei com grande ansiedade aquela atividade que prenunciava mudanças radicais em nossas vidas. A última coisa que vi ser colocada sobre o caminhão foi uma velha bicicleta que meu comprou de última hora não sei de quem. E´ que recentemente eu havia aprendido a “andar de bicicleta” num de nossos passeios a Paquetá. No dia seguinte um táxi às 6 horas nos levou à estação Pedro II da Central do Brasil. Embarcamos em meio a aquele burburinho de um trem que se ia lotando, envolvido pelo “clima” das despedidas, lágrimas, bagagens, fumaça e ruídos. Enquanto a locomotiva a  vapor do expresso começava a se por em movimento a bufar e apitar ficava definitivamente para trás minha infância nas calçadas de Copacabana. Não pude me despedir de meu amiguinho Mario, tão amigo e que eu nunca mais voltaria a encontrar.
Como já acontecera outras vezes, depois de doze horas de trem chegamos a São Paulo. O táxi  do Paschoalim, o taxista conhecido dos Caniato nos levou à rua Guayauna, casa de meus avós. Essa era a escala necessária também para o caminhão cujo motorista nunca tinha ouvido falar em Currupira, destino final da mudança. Não havia nenhuma grande estrada asfaltada no Brasil, mesmo entre Rio e São Paulo. O caminhão com a pequena mudança só chegou depois de três dias de viagem, coberto da grossa poeira. Aí seria acrescentado à mudança um cachorrinho preto, ainda filhote, que viria a ser, por anos, meu fiel e inesquecível companheiro, O “Duque”.

                   




      












PARTE 2
CURRUPIRA
(DE COPACABANA PARA O MATO)








                                  Indo para o mato
A partir da Penha foi mais um dia inteiro para chegar ao “nosso” sítio, o Sítio dos Caniato, no bairro dos Fernandes, a cerca de dois quilômetros da estaçãozinha de Currupira. De São Paulo não havia trem que parasse em Currupira. Depois de chegar a Jundiaí pela São Paulo Railway, a “Inglesa”, fizemos “baldeação” para o “misto” da Companhia Paulista, um cata-caipira que, à tarde com apenas dois vagões, um de encomendas e outra para passageiros, só de segunda classe ia parar em Currupira. Apeando do trem na pequena plataforma descoberta tivemos que atravessar o pasto para chegar até a “venda” do Antonio Miguel, o “Toninho Turco”. Todos já conheciam, meus tios, os Caniato que  moravam no Sítio. Nós três, meus pais e eu, seguimos a pé da estaçãozinha de Currupira até a nossa nova morada no Bairro dos Fernandes. Aí já moravam meu tio Nino(Hilário Caniato), casado e o tio Joãozinho, solteiro. Ambos já haviam trabalhado no Rio: o tio Nino como garçon no Lido. O tio Joãozinho tinha ficado menos de um ano como telefonista do Atalaia. Meu pai havia acertado por cartas, com os irmãos, sua ida para o Sitio. Não era possível prever o dia naqueles tempos em que não existia naquela região qualquer vestígio de telefone, nem de luz elétrica. Depois de caminhada pelo estradão, chegamos ao alto da curva do estradão de terra que passava nas imediações, a rodovia São Paulo-Campinas(de terra). Do alto do morro,  aos berros e movimentos de braços, meu pai conseguiu se fazer visto pelos irmãos que nos esperavam naqueles dias, sem saber exatamente quando e como. No dia antes de nossa chegada havia chovido torrencialmente na região. O ribeirão da divisa de entrada de nosso sitio estava fora do seu leito e alagara toda a estradinha próxima à pequena ponte. A enchente nos deteve a 200 metros  da entrada de nosso destino final. Meu tio Joãozinho nos acenou para que esperássemos e foi correndo buscar a carroça. Atrelar um dos animais podia demorar e nos fazer esperar  a poucos metros de nosso destino, depois da longa viagem. Jovem e muito forte, tio Joãozinho, ele mesmo veio puxando a carroça e com ela atravessou  a baixada com a água acima dos joelhos. Do outro lado, depois dos abraços, nos fez subir na carroça e nos transportou salvos e secos até o outro lado. Estávamos na nossa nova morada.
                                 

                                

                                      A nossa nova  moradia.
A casa era a sede de uma das glebas contíguas que meu pai havia comprado na sua mocidade. Ele nunca havia morado aí, embora aí já tivessem morado seus familiares. Eu mesmo, ainda muito criança aí havia estado em visita aos tios que agora sairiam para que nós aí ficássemos morando.
 A casa era grande e antiga. Não havia na região nenhum sinal de luz elétrica a não ser a linha eletrificada da Companhia Paulista de Estradas de Ferro, para os trens que passavam num aterro a mais de um quilômetro. Também não havia água encanada. O piso da casa era de tijolo já bem gasto, apenas rejuntado de cimento. A privada, distante cerca de 25 metros da porta da casa, era apenas um cubículo de tijolo com portinha de madeira. No lugar de vaso sanitário havia apenas um buraco numa pequena laje de concreto que tampava a fossa. Ao lado da casa havia um poço com balde, corda e roldana para tirar a água de uso na cozinha. Próximo da casa, a uns dez metros da entrada, passava um córrego com uma bica  que, dia e noite, despejava água dentro de uma grande tina de madeira. Era o lugar a céu aberto, destinado e se lavar a roupa, mãos, rosto e dentes. Pouco abaixo da casa ficava um grande rancho coberto com sapé onde eram guardadas todas as ferramentas, a carroça e os arreios, tanto de montar  quanto outros apetrechos. Do lado de baixo do rancho, como um puxado, era o lugar em que se armazenava lenha cortada e  seca. O fogão rústico de lenha tinha ao lado o pequeno depósito da lenha de uso imediato e o borralho onde se acumulava a cinza retirada do fogão. As portas internas tinham trincos com grandes chaves e traves de ferro que entravam no batente em cima e no chão de tijolo. Havia forro de madeira apenas na sala e eram muito comuns as goteiras que faziam a gente correr para acudir com baldes, latas ou bacias em dias de muita chuva. A uns trinta metros, atrás do rancho ficava a horta que  junto com o galinheiro, desempenhava um papel fundamental no abastecimento da casa. No obrigatório chiqueiro que ficava mais longe da casa,  era engordado o porco, parte também importante para o suprimento de alimento e sabão feito em casa. Os poucos lampiões de querosene, com vidros bojudos eram destinados à sala e  ao quarto principal. Os demais aposentos eram iluminados por simples lamparinas portáteis de querosene com a chama exposta e bastante fuligem. As paredes eram rústicas e apenas caiadas.Os colchões das camas eram enchidos com palha de milho.

                     (inserir desenho feito por Tio Nino)
                                    Quem morava na casa.
Quando chegamos a casa era habitada por meu tio “Nino”, sua mulher, Roseta Carbonari e meu tio Joãozinho, solteiro. Eles já aí viviam havia alguns anos e tiravam seu mais que modesto sustento do cultivo de uvas.  O  casal estava deixando a casa em que chegávamos. As uvas cultivadas eram as variedades “Barbera”, “Izabel”, ambas pretas, e um pouco de “Niagara” branca. Ainda não havia acontecido a mutação espontânea que poucos anos depois daria origem à variedade Niagara rosada, uma mutação espontânea da branca, até então a única uva de mesa  no mercado. O tio Joãozinho que ficaria conosco era um homem de estatura média, muito forte, trabalhador,  bom cavaleiro e tinha uma bela voz de tenor que se acompanhava ao violão. Meu tio Nino era uma pessoa muito especial. Homem muito inteligente, sempre foi um autodidata muito estudioso e de honestidade linear. Durante muitos anos, à noite, à luz de lampiões ele deu aulas de português e cultura geral para os vizinhos que além de professor o consideravam um conselheiro. Para tanto ele se obrigava a estudar à noite, muito e sempre. Ele viria, décadas depois, do sitio, para se tornar vereador e presidente da Câmara Municipal de Jundiaí. Antes de nossa chegada ele havia sido convidado por seu cunhado, Luiz Carbonari, este, viticultor já estabelecido no bairro do Traviú e bem sucedido, para um empreendimento novo em viticultura.  Esse empreendimento constituiu-se na compra do “Varjão”, parte de uma grande e abandonada sesmaria da família Mesquita, então, os donos do “Estadão”. O projeto que meu tio e seu cunhado desenvolveram transformou-se nos “Vinhedos Extravitis”, de sucesso e que conquistariam muitos prêmios nas exposições da “Festa da Uva” em Jundiaí,SP, anos depois.



                           Vida radicalmente diferente.
As mudanças em nossas vidas eram radicais em todos os sentidos. Das luzes de Copacabana para a escuridão do sertão. Passados os primeiros dias em que os poucos móveis foram distribuídos nos grandes e rústicos espaços da casa grande, começávamos a nos habituar à imposição de hábitos muito diferentes. Meu pai logo se pos em roupas rústicas e foi capaz de assumir imediatamente o trabalho na uva que começava pela enxada. Minha mãe tinha que se desdobrar em todos os serviços de uma casa grande, rústica sem água encanada, sem luz e sem banheiro e com uma privada mais que rústica. Eu estava vivendo uma verdadeira embriaguez de espaços e liberdade de movimentos. Com apenas nove anos, minhas primeiras atividades foram na pequena ajuda à minha mãe. Logo o que mais me atraiu foi lida com as éguas, de montaria e de tiro, na carroça. Logo me habituei a montá-las em pelo: uma se chamava “Roleta” e a outra era a “Boneca”. A primeira muito mansa e dócil, a segunda ágil e arisca como um lambarí. Ainda vivia em nosso pasto como “aposentada” uma velha égua branca chamada “Paulista”. Ela havia sido um lindo animal, muito estimada pela sua beleza, mansidão e serviços prestados à família, tanto para serviços gerais como para montaria. Ela figurava garbosa em muitas fotografias da família, no passado. Já velha, eu a montava e me divertia com suas “impertinências” ao fazê-la dar coices à toa. Quando nas proximidades de casa, eu tirava água do poço para minha mãe. Apesar da rudeza da nova vida, apreendendo a andar de tamancos, ela a assumiu com entusiasmo e valentia um mundo de novas obrigações. Era preciso tratar da casa, da roupa, e alimentar a família que agorincluía meu tio Joãozinho.
Nos primeiros dias, tive que ir comprar leite num vizinho, na família Bôrtolo. Logo trataríamos de ter nosso próprio suprimento desse indispensável produto .
                                Alegria e primeiro revés.
Como o leite era de importância para toda a família. Meu pai logo tratou da compra de nossa primeira vaca. Ainda de madrugada ele saiu com o tio Joãozinho para ir fazer a compra da vaca nuns antigos conhecidos: a família Biasi. Eles moravam longe, na Abadia, estaçãozinha de uma pequena estrada de ferro chamada “Itatibense”. Entre Louveira e Itatiba. Como carroças não podiam trafegar na estrada de rodagem estadual, mesmo sendo estas só de terra, era preciso fazer voltas e o caminho ficava mais longo. Já o sol se havia posto quando com grande ansiedade ouvimos o latido dos cachorros da vizinhança. Eu e minha mãe saímos pela nossa porteira e fomos ao encontro de meu pai com a preciosa novidade. Ele havia comprado uma linda vaca, a “Pombinha” que vinha acompanhando a carroça onde estava sua recente cria, uma linda bezerra marrom de longas orelhas. A “Pombinha” era uma vaca de meio sangue holandês, branca com manchas marrom quase vermelho e de chifres curtos e curvados para frente: parecia uma vaquinha de reclame  de chocolate suíço. Eu e minha mãe havíamos gasto grande parte do dia no preparo para a recepção dos novos integrantes de nossa família. A cocheira de sapé estava toda limpa e arrumada para receber as novas moradoras, mãe e filha. Foi uma grande recepção e muito nos alegramos em ver a bezerrinha mamar sofregamente e depois deitar em seu pequeno “quartinho” limpo e macio, com cerquinha de bambu e cobertura de sapé. Antes que o sol raiasse era preciso fazer a ordenha e pôr a bezerra a mamar. Eu e meu pai fomos como ajudantes,  amarrando o rabo da vaca e  fazendo outros serviços periféricos. Embora minha mãe nunca tivesse lidado com uma vaca.  sua disposição e empenho compensaram sua falta dessa experiência. Em poucos dias ela já o fazia, senão com perfeição mas com destemor, total segurança e eficiência. Todos os dias tínhamos dez litros de leite além do que a bezerra mamava.  Em nossa inexperiência, logo nos afeiçoamos a esses animais quase como se fossem pessoas da família. Ainda mais que o precioso leite, naqueles rincões, longe de tudo, era de importância vital. Foram se passando os dias, as semanas. A bezerrinha, batizada de “Mocinha”, crescia a olhos vistos e prometia ser uma bela novilha para aumentar nosso plantel. Já se passavam alguns meses quando na ordenha matinal, minha mãe notou que a bezerra teve dificuldade para mamar e apresentava uma espuma na boca. Não sabíamos o que era aquilo. Consultados os vizinhos mais próximos veio o “diagnóstico”: aftosa. Não se dispunha de veterinários, nem se tinha acesso a esse tipo de informação. Havia um único remédio que em toda vizinhança se usava para todos os “males” dos animais. Chamava-se Benzocreol. Era aplicado tanto para uso interno quanto para bicheiras, feridas e outros males. Só  variava a dose. A bezerra estava triste e já não queria mamar.  O jeito era aplicar o tal de Benzocreol, única coisa que se podia fazer. Feita a mistura, o problema era fazer a bezerra engolir aquilo. Segundo os vizinhos “entendidos” aconselhavam devia ser uma dose de mais ou menos meio litro. Quando tentamos fazer ir goela abaixo, a bezerra esperneou e foi com muito custo que conseguimos fazê-la engolir parte do “remédio”.
Pouco depois, deitada, a bezerra virou os olhos, estrebuchou e morreu. Sua morte abrupta deve ter sido provocada pelo efeito do remédio ou por sufocamento, se o líquido invadiu os pulmões. Foi um desespero para nós todos; quase como se tivesse morrido alguém da família. Meus pais chegaram a falar em ir embora. Minha mãe chorou de tristeza com a perda daquele animal que, além de querido, representava nossas esperanças de progresso. Vizinhos nos aconselharam a tirar o couro da bezerra para “enganar” e “consolar” a vaca. Nós não tivemos coragem. Nossa “mocinha” foi enterrada com nosso profundo sentimento de perda e quase com nossas esperanças na nova vida de sítio. Era nosso primeiro revés na vida rural. Mas o pior ainda estava por vir. A vaca mugiu sem parar, dia e noite, durante muitos dias na cocheira que ficava ao lado de casa. Além da perda, o triste  lamento repetido sem cessar da “Pombinha” não nos deixava dormir, além de nos manter viva a idéia da perda. Sem a bezerra a mamar, provavelmente a vaca “secaria” o leite. O zelo e os cuidados especiais de minha mãe para com a sofrida vaquinha de estimação  devem ter ajudado. Fui mobilizado a ajudar num super tratamento tanto de capim fresco quanto de escovação e bom trato para a “Pombinha”. Embora tenha diminuído muito sua produção, ela continuou a nos dar seu precioso leite. Com o passar das semanas, embora abalados fomos em frente.

                                Meu novo mundo.
Não sei explicar como nem por que as coisas aconteceram assim. Inexplicavelmente ocorreu em mim uma grande transformação. Em poucos meses eu estava completamente  adaptado à nova vida. Talvez a tal mudança de “clima e de águas” tenha feito o “milagre”. Nunca mais se falou qualquer coisa que lembrasse a “diarréia amebiana” que me limitava a vida em Copacabana. Na verdade tínhamos mudado de águas, de clima, de tudo. Meus pais não me puseram qualquer limitação e eu fui assumindo novas funções, especialmente as relacionadas com os animais. Frequentemente, aos sábados, meu tio Nino vinha nos visitar. Ele vinha de longe, de um novo bairro chamado Poste, mais ou menos uma hora a cavalo. Ele vinha montado em sua “Odalisca”, uma grande e garbosa égua baia e marchadeira. Quando chegava, ele me entregava o belo animal, bem arreiado para que eu tomasse conta, com a autorização para “dar uma volta”. Eu montava e saia na “Odalisca” em bela marcha até um trecho visível da estrada. Já longe da vigilância eu fazia a égua dar toda sua potência em um grande galope. Depois voltava à sua marcha, na chegada. E´ que eu logo me tornara muito habituado a cavalgar “em pelo”, sem arreios.
Com uma segunda vaca, uma holandesa grande e boa leiteira, a “Medalha”, comprada com sua bezerra na fazenda Barreiro, perto de Louveira, aumentaram muito minhas obrigações de manejo. Essas duas vacas de leite nos forneceram juntas ou alternadamente, leite durante os cinco anos de nossa vida em Currupira. Logo aprendi  e assumi todo o manejo das vacas e bezerros, deixando para minha mãe apenas a ordenha. Essa prática me conferiu, sem que então me desse conta disso, uma enorme auto confiança e independência. Logo aos onze anos eu assumiria muitas outras  funções de trabalho de um adulto.
                           (não) “descobrindo” a  manteiga
Em nossa vida de Copacabana, a manteiga era obrigatória no pão do café da manhã.  Toda semana eu acompanhava minha mãe nas compras por Copacabana. Um dos lugares em que íamos era a Leiteria LECA onde minha mãe comprava creme de leite e manteiga. Essa leiteria ficava na Av. Copacabana, do lado direito de quem ia na direção de Ipanema, creio que na terceira quadra depois da rua Siqueira Campos.Quando nos mudamos para Currupira meu pai, ainda no Rio, comprou uma máquina de fazer manteiga. A idéia era de que no sítio também viéssemos a contar com nossa manteiguinha. Essa máquina muito simples era constituída por um vidro de quatro ou cinco litros, dotado de uma boca larga onde se adaptava a tampa. Esta munida de um sistema de manivela e uma engrenagem que acionava a batedeira de madeira dentro vidro. Das primeiras iniciativas de meu pai, já em nosso sitio de Currupira, foi a de comprar a nossa vaca Pombinha. Sempre tivemos pelo menos, cinco litros de leite por dia. Nosso dia todo, desde a ordenha muito cedo, era tomado por inúmeras tarefas principalmente no cultivo de nossas videiras. Fazer manteiga, seria uma das tarefas extras, quase um luxo, só possível à noite. Em volta do lampião de querosene nos postamos os três  e, na grande expectativa de ver produzida na máquina a “nossa” manteiga. Eu estava ainda mais ansioso por fazer funcionar nossa máquina que transformaria leite em manteiga. Carregada a máquina com os quatro ou cinco litros de leite, logo comecei a manivelar:  RRRRRR..........RRRRRR,.....................RRRRRRR............. Depois de alguns minutos manivelando, me cansei e passai a máquina para meu pai. Ele também: RRRRRRR.......RRRRRRR.........RRRRRRR  ...RRRRR, até que ele também se cansasse e a passasse para minha mãe. Ela também manivelou  por muito tempo............ e a manteiga não aparecia. Depois de várias rodadas dos três novos “manteigueiros”, a manteiga não aparecia. Depois de nos cansarmos os três, resolvemos desistir e descarregar a máquina. Quando minha mãe tirou o leite da máquina havia apenas vestígios de manteiga ao redor da agitador de madeira: nada mais  que uma colher de manteiga. Que decepção! Nos dia seguintes fizemos mais algumas tentativas e sempre o mesmo resultado: nada além de traços de manteiga. Desistimos de “fabricar” manteiga. Não tínhamos a quem perguntar. Na região, os vizinhos não usavam manteiga. Também não se tinha acesso a fontes de informação. A única publicação que circulava na região era um folheto do “reclame” de um fortificante, com a história do Jeca Tatú,  sua indolência  e preguiça  causadas pelo “amarelão”(ancilostomíase). Assim depois de muito suar manivelando nossa máquina de manteiga, por não saber e por não termos conseguido algo ou alguém que nos ensinasse , desistimos do projeto. Só anos depois, não me lembro como, ficamos sabendo que manteiga não se faze batendo leite mas simplesmente batendo a nata onde  está concentrada a gordura do leite. Para a retirada da nata é preciso deixar o leite em repouso, colher a nata na superfície e depois batê-la ou retirá-la por uma máquina centrífuga ou desnatadeira. Essas eram operações impossíveis ou muito difíceis naquelas rústicas condições de nossa vida rural. Afinal, a manteiga seria tirada de nosso próprio leite. Diante dessas dificuldades continuamos a tomar a manteiga dentro do nosso leite. Nosso pão é  que  continuou sem a manteiga.
                        
                             
                                  Tirando leite da égua.
Era um fim de tarde. Eu e meu pai estávamos sentados na grama, perto da porteira, depois de realizadas todas as tarefas do dia. Nossa casa ficava à beira de uma estrada interna por onde passava gente a pé, com charretes, carroças ou a cavalo. Durante o dia grandes carroções de carga de lenha, puxadas por três parelhas de mulas passavam em frente de nossa casa. Vinham carregadas de lenha para alimentar os fornos das olarias da região, especialmente as do Finamore e do Pasti em Louveira. A região ainda tinha grandes manchas de mata Atlântica que ia sendo derrubada para alguma nova lavoura, embora num ritmo nada parecido ao de hoje. Ainda por lá ninguém usava nem conhecia motoserra: era tudo no machado. Enquanto olhávamos o raro movimento em frente de casa, passou o Dito “Capuxo”, filho do velho Capuxo (Capuccio ?). Ele vinha trotando montado em pelo numa égua branca. Diante de nós ele, já nosso conhecido, parou e ofereceu a égua por 120 Cruzeiros. Entre tantas virtudes da Branquinha, a mansidão era a maior. Mas segundo e vendedor, a égua “tava mojano”, isto é, aumentando o úbere em vésperas de ter cria. A barriga era realmente maior que o habitual.  Além da barriga grande, era visível o úbere entumecido. A idéia de que pudesse nascer um cavalinho em casa era muito simpática a meu pai e para mim era um verdadeiro sonho. Depois de muito negociar o Dito deixou a égua por 100 Cruzeiros e foi embora a pé. A Branquinha ficou imediatamente a meus cuidados. Durante todos os anos que ficamos no sítio, essa égua foi um animal querido pela utilidade, tanto na montaria quanto na carroça e sobre tudo pela mansidão. Eu montava sempre em pelo para o trabalho com nosso pequeno rebanho. Numa viagem que tive que fazer para mais longe, mais de uma hora a cavalo, para levar algo para meu tio Nino, meu pai me aconselhou que usasse um arreio. No meio dessa viagem, uma senhora me chamou a atenção para a barrigueira que estava frouxa. O arreio e eu podíamos cair. Eu logo respondi que não podia apertar  a barrigueira porque a Branquinha estava “esperando cavalinho”. Varias décadas depois essa senhora lembrava a admiração que lhe causou aquele encontro. Naqueles tempos, naqueles lugares, esses eram assuntos só “de gente grande”. Era muito estranho que um moleque se preocupasse com uma barriga “prenha”. Afinal a Branquinha nunca deu cavalinho nenhum. A barriga grande era só de capim. Mas eu, fazia demonstrações de ordenha, fazendo esguichar leite das tetas da Branquinha. As pessoas não acreditavam e me pediam que mostrasse Durante anos ela manteve o leite sem ter cria. Tanto esse animal nos foi útil e querido que, numa viagem a São Paulo, meu pai procurou e encomendou uma consulta de um veterinário do Instituto Biológico de São Paulo. O veterinário veio  de trem, fomos buscá-lo na estação e levá-lo de volta. Depois de examinar a Branquinha, ele receitou um vermífugo. A dose foi tão forte que a égua passou vários dias imóvel, com febre, em pé dentro da água  do nosso açude. Passada a febre e o efeito do remédio, felizmente para todos nós, a Branquinha voltou à sua normalidade, mas com a mesma barriga de antes.
                              Uma grande surpresa
Fazia alguns meses que havíamos mudado para Currupira, quando recebemos uma visita que  quase não podíamos  acreditar. Num fim de tarde de sexta feira aparece em nossa casa meu  tio Domingos, com seu terno preto de casimira, colete e chapéu, alinhado como sempre ia e voltava de seu emprego de ascensorista do Esplanada Hotel de São Paulo. Agora ele chegava  com seu chapéu, terno de casimira e sapatos pretos, de verniz, empoeirados por mais de uma hora de caminhada pelo estradão de terra, desde Louveira até nossa casa. Ele vinha de São Paulo e trazia pela mão meu primo Marcelo, o “Mausi”, de uns seis anos. Esse primo era aquele cuja mãe, menor, casada por procuração com meu tio Fritz, vinda da Suíça,  havia morrido no parto do menino. Ele era pouco mais novo que eu. Nosso tio Domingos, sua mulher, tia Elza e minha avó materna o criavam, com muito zelo e carinho, desde seu nascimento e morte da mãe. O pai do menino, irmão de minha mãe, tio Fritz, havia se casado novamente mas agora com uma alemã que também trazia um filho de outro casamento. Todos os familiares dessa sua nova mulher viviam na Alemanha e contavam eufóricos, por cartas,  o progresso de seu  país naqueles anos. Tanto insistiram que acabaram convencendo meu tio a também ir para a “terra do progresso”, a Alemanha de Hitler. Ele levaria também seu filho, meu primo Marcel, o “Mausi”, apesar da contrariedade daqueles que o criavam. Meu tio Domingos,  chefe da família, trazia o menino para uma despedida que parecia ser definitiva: o menino brasileiro, iria com o pai suíço, para Colônia na Alemanha, acompanhando uma nova madrasta, alemã que levava um filho  brasileiro adolescente.  Meu tio por afinidade, português e o menino passaram o fim de semana conosco para depois enfrentar a longa caminhada a pé até a estação de Louveira e de lá, de trem, para São Paulo. Depois das despedidas e choro da minha mãe e tristeza de todos, acompanhei os dois  por nossa estradinha interna até a desembocadura no estradão estadual. Daí os acompanhei olhando e acenando até que desaparecessem no alto morro, na curva da empoeirada estrada. Pouco tempo depois, o Mausi, com sua nova família, seguia de navio para a Alemanha. Menos de um ano depois dessa despedida, irrompia a Segunda Guerra Mundial. Colônia, a cidade em que viviam foi, mais adiante, arrasada pelos bombardeios americanos. Eles viveram entre escombros, passaram fome e só foram resgatados depois do fim da guerra, por um comboio de socorro suíço à procura de seus cidadãos. Foram levados sãos e salvos para Suíça por ser meu tio Fritz cidadão daquela terra(Suíça) que  nunca abandona seus cidadãos. Só depois de meu primo já adulto, alguns anos depois do fim da guerra, essa família voltou ao Brasil mas com um a menos. O adolescente brasileiro também fora convocado na Alemanha parta ser soldado “SS” e desapareceu numa das batalhas no interior da Rússia. Sua mãe, minha tia “torta”, nunca deixou de chorar a perda daquele filho do qual só recebeu a “cruz de ferro”. Depois do fim da II Guerra, já adulto fui vê-los em sua escala de navio, no Rio de Janeiro, quando chegavam da Europa para viver em São Paulo. Meu primo já não falava mais português. Haviam se passado cerca de dez anos.
             
                            
                          Um  desastre de “cabriolé”.
No fim de semana que meu primo passou conosco para as despedidas, meus pais queriam proporcionar a ele pelo menos um passeio de “cabriolé” até a estaçãozinha e a igrejinha de Currupira. E se aproveitaria para fazer algumas compras na venda do Antonio Miguel, principal atração no “centro” de Currupira. Na época eram muito raras as charretes com rodas de pneus; só gente rica tinha esse “luxo”. Nosso “cabriolé” era uma charrete com grandes rodas de madeira e aros de ferro. O cavalo que ia atrelado aos varais era um cavalo baio chamado “Pinhão”. Esse cavalo não era nosso mas estava já algum tempo prestando serviços, emprestado por seu dono que temia deixá-lo abandonado no pasto e sem trabalho. No banco do “cabriolé”, meu pai conduzia às rédeas, sentado do lado do “cocheiro”, à esquerda. Do lado direito sentava o tio Nino que nos visitava. Entre ambos ficamos eu e meu primo Mausi. Nosso “cabriolé” ia lotado. Atrás, a cavalo, iam o tio Joãozinho e o tio Américo em suas éguas “Roleta” e “Boneca”. Saindo da estradinha interna por todo o bairro dos Fernandes, entramos no “estradão” oficial de terra (ainda não existiam estradas asfaltadas nem em São Paulo). Estávamos no alto de Currupira. Começávamos a descer uma grande ladeira que terminava numa forte curva para a esquerda, já perto venda. Com a forte ladeira, o cavalo segurava nossa viatura na retranca. Com isso as correntes de tração ficaram frouxas e uma delas se soltou. A corrente solta se enroscou nas pernas do cavalo. O cavalo, assustado, disparou ladeira abaixo. Por mais que meu pai tentasse deter o cavalo puxando as rédeas, não conseguia. Disparávamos ladeira a baixo sem controle. Era também evidente que naquela velocidade, ainda que quisesse, o cavalo não conseguiria fazer a curva. Sem fazer a curva iríamos diretos para um precipício do lado direito da curva. Foram momentos de aflição. Tio Nino jogou meu primo para fora e pulou, apesar da velocidade. Ambos rolaram na estrada e só se fizeram arranhões. Ficamos eu e meu pai sobre o cabriolé que aumentava a velocidade ladeira abaixo, com o cavalo em disparada. Meu pai apoiou os pés na frente do assento para puxar com toda sua força as rédeas e tentar deter o cavalo que mais assustado mais galopava ladeira abaixo. Enquanto fazia esses esforço, meu pai resvalou no apoio dos pés e também caiu do cabriolé na frente da roda de ferro que lhe passou em diagonal sobre o peito. Fiquei só sobre o cabriolé que ia em desabalada corrida já agora saindo da estrada para a marginal em forte declive e no limite do aterro da estrada, rumo ao precipício. Ao resvalar para fora da estrada em alta velocidade o cabriolé bateu contra um poste de telefonia onde ficou preso com cavalo e tudo. Com o poste entre a roda e os varais todo o conjunto ficou preso abeira do precipício. No baque contra o poste eu caí entre uma das rodas e as patas traseiras do animal. Cada vez mais assustado e agora também ferido pelo impacto e  preso entre arreios, varais, o poste e a cerca que margeava a estrada, o cavalo assustado coiceava sem parar. Eu estava desfalecido ou atônito entre os pés do cavalo aos coices e a roda do veículo. Nesse momento, meu tio Nino fez um rápido e decidido ato de verdadeira bravura para me retirar da iminência de levar um coice na cabaça. Dando as costas para o cavalo que não parava a saraivada de coices, meu tio me puxou para fora. Para me proteger ele levou um daqueles furiosos coices do cavalo numa omoplata. Eu não tinha nenhum ferimento visível. Eu e meu primo ficamos próximos ao barranco oposto, lívidos de susto enquanto meu pai e meus tios tentavam deter o cavalo que continuava a se debater preso aos restos do desastre. Quando meu pai se aproximou de mim ainda ficaríamos mais assustados. Ele olhou apavorado para um filete de sangue que me escorria do ouvido. Aquele filete de sangue poderia ser resultante de um ferimento dentro de minha cabeça. Afinal eu ficara embaixo, na traseira do cavalo que não parava de se debater  e dar coices. Percebi o pavor que a idéia causou a meu pai. Mesmo sem palavras, o semblante assustado de meu pai me apavorou, ao olhar o filete de sangue que me escorria de uma orelha.Felizmente era só o sangue de um ferimento numa dobra da orelha. Como vinham logo atrás de nós, meus tios, Joãozinho e Américo, apearam e trataram de dominar e livrar o animal que enlouquecido se debatia, também todo ferido pelo impacto no poste.
Voltamos para casa quase como um cortejo fúnebre. Além de assustados, trazíamos dois “troféus” do acidente. A camisa de meu pai com uma faixa diagonal, a marca da roda que lhe atravessara por cima do peito. Meu tio Nino exibia nas costas um ferimento com a marca completa da ferradura, deixada por um dos coices do cavalo. Meu primo Mausi levaria para a Alemanha muito que contar de um passeio e uma aventura em Currupira.

                        
                      

                                  
                                 O convívio dos Caniato
Quando chegamos ao sítio dos Caniato, ai moravam, meu tio Nino com  sua mulher Roseta (Carbonari) e o tio Joãozinho, solteiro. Todos já haviam morado algum tempo no Rio e de lá haviam trazido dois vira-latas de estimação: Tody e Mossoró.Com a nossa chegada, tio Nino se mudaria para sua nova casinha no bairro Poste, a pouco mais de uma hora a cavalo. Era um bairro de viticultores a ser desbravado e que resultava do desmembramento de uma velha sesmaria da família Mesquita. Joãozinho, ficara conosco. Alguns meses depois de nossa chegada, meus avós paternos vieram de São Paulo  para o sítio para viver conosco. Com o casal  já idoso vinham os dois mais novos dos irmãos Caniato:  tio Américo e tio Mário. Ambos tinham pouco mais de vinte anos, temperamentos e talentos muito diferentes. Tio Américo, além do trabalhar no sítio dirigia seu pequeno caminhão Ford “bigode” 29, com o qual, além do trabalho do sítio fazia pequenos carretos para vizinhança. Era um “chofer” muito craque e fazia toda manutenção de sua preciosa máquina. Era um homem de muitos talentos, muito inteligente e criativo. Suas habilidades iam desde produzir belos cabos de canivetes feitos de chifre de boi como em trabalhos de marcenaria e mecânica. Foi ele o principal “bolador” e montador de uma mini hidrelétrica para produzir a energia necessária a fazer  funcionar um velho rádio de grandes válvulas. Toda a pequena hidrelétrica era montada com peças compradas por meu avô nos “ferrovelhos” de Jundiaí e até São Paulo. Tio Américo, décadas depois, montaria uma das maiores oficinas de consertos de motos de Jundiaí, na rua Torres Neves. Chegou mesmo a fabricar com as próprias mãos um pequenina moto para seu filho Bruno. Este herdaria muitas de suas habilidades. Mário, o caçula dos irmãos Caniato foi o único a ter alguma escolaridade mais regular, nos tempos em que moraram na Penha, em São Paulo. Era muito tímido, introspectivo mas muito inteligente. Tinha grande pendor para a música. Além da sanfona de botões que tocava nos bailes, tocava bem violão  sobre o qual montou um dispositivo que lhe permitia tocar simultaneamente uma gaita de boca. Algumas das músicas que ele tocava nos bailes da vizinhança eram de sua autoria. Talvez por ser o mais jovem, foi também o mais próximo de mim. Foi tio Mário quem me ensinou a fazer os muitos consertos que se impunham  para nossas velhas bicicletas, longe que estávamos de qualquer outro recurso, como oficinas. Joãozinho, o do meio era o mais forte dos irmãos. Era muito trabalhador, bom cavaleiro, dono de bela voz de tenor, vaidoso e namorador. Era muito impetuoso e às vezes emburrava. Também, cantando se acompanhava ao violão. Meu tio Luiz, com a saída de meu pai da gerencia do “Atalaia”, foi  da Penha(São Paulo) para ocupar a vice-gerência do Atalaia, no Rio de Janeiro. Quando conseguia uns dias de férias, vinha passá-los conosco no sítio em Currupira. Sempre foi o mais alegre e brincalhão dos irmãos. Era muito querido por todos. Eu esperava com grande ansiedade sua chegada pela alegria que vinha com ele além de ser o querido “Giggi” de minha avó. De vez em quando vinha da Penha, de São Paulo, minha tia Maria, única mulher entre os irmãos Caniato. Ela trazia suas três filhas: Rute, Norma e Anininha. Norma, a do meio, não queria mais tomar leite quando descobriu de onde saia o leite: nunca antes havia visto uma vaca.
Minha mãe e minha vó conseguiram conviver num clima de cordialidade e divisão de terefas e nas horas de folga, enquanto minha mãe fazia crochê ou tricô minha vó Ana dava altas gargalhadas das piadas que minha mãe inventava. O trabalho principal de minha avó era o preparo da sopa de feijão e a obrigatória polenta do jantar. Essa era o resultado de uma operação curiosa e de que dependia a qualidade de polenta continuamente remechida no “parollo” , a grande panela de ferro,com uma grande colher de pau, enquanto as bolhas quentes espoucavam na superfície escaldante. A finalização dessa operação era uma “apoteose” culminava com a “derrama” da polenta na tábua redonda, já sobre a mesa, onde  todos aguardavam. A polenta vinha logo depois da sopa de feijão com macarrão.A polenta era acompanhada com fritada de “codeguim”, um lingüiça feita com couro de porco. No período da quaresma minha avó fazia no forno de barro, fora da casa, uma espécie de pão doce que se chemava “bussolá”, com aroma de “sambuca”, uma espécie de essência de erva doce. Para mim ela fazia um desses pães em forma de uma pomba. Só na minha velhice vi aparecer no comércio a “colomba pascal”.  Coisa curiosa era o teste de que o forno estava quente o suficiente para assar o pão: lascas de massa do pão eram colocadas no forno. Quando o forno atingia a temperatura certa, os pedaços de massa  de amostra se contorciam em “stregas”(bruxas), ficando logo assados. Esse subproduto do ritual de assar o pão era disputado e eu sempre ganhava o meu quinhão. Hoje, algumas padarias de italianos ou “oriundi” produzem regularmente essas aparas, as “stregas”, muito apreciadas especialmente para aqueles que, além do sabor, as têm na memória;.

                         Uma porca sem porcaria
                Um dos amigos da família era o seu Américo Montovani que de vez em quando nos fazia uma visita e nos divertia com os causos que relatava  e muitos que certamente criava. Numa dessas visitas ele trouxe de presente uma pequena leitoa, de presente para Dona Luiza, minha mãe. Era uma porquinha apenas desmamada, Nós na nossa nova casa não tínhamos nem porcos nem chiqueiro. Agora tínhamos que fazer com toda urgência uma moradia para a nova porquinha que minha mãe logo “batizou” de Chica. Logo eu e meu pai construímos um puxado em nosso rancho que abrigava carroça, arreios e madeira para confecção das caixas para embalagem da uva. Nossa cultura urbana não admitia um chiqueiro como
os que habitualmente eram usados na redondeza. Era muito simples, de madeira cortada em nosso mato ou de “costaneiras”, restos de aparas das toras vendidas pelas serrarias. O piso previa que todos os excrementos caíssem por aberturas, deixando sempre fácil a limpeza. Nossa “Chica” também não seria alimentada com restos de comida. Seu alimento principal era  mandioca que minha mãe  picava, depois de lavada no córrego que passava próximo à nosso rancho.Enquanto carpíamos o vinhal colhíamos “berdoega”(beldroega), caruru e “piocão doce”. Da horta, as sobnras de couve e outras verduras eram também parte da dieta de nossa “Chica”. Cada dois ou três dias ela ganhava um pouco de milho. Além de viver num lugar decente a “chica” acompanhava minha mãe em suas tarefas pelo galinheiro, comoi um simpático animal de estimação. Jamais por nossas cabeças passaria a idéia de matar a “chica”. Mas a chica se tornou adulta, roliça e muito bonita, sem as “porcarias “ geralmente associadas a esses animais. Logo ficou evidente que se teria que fazer alguma coisa com a porquinha de estimação. A idéia foi obter dela um cria de leitões. Logo nosso vizinho, amigo e que havia presenteado minha mãe com a chica, sugeriu e se ofereceu para trazer um “cachasso”  para  fazer a cobertura da chica. Era o casamento da chica. Seu Mantovani com a carroça trouxe, embrulhado em um saco o “noivo” para fazer a cobertura da chica. Todos queríamos ver a chegada do “noivo” da chica. Logo que se desvensilhou do saco em que era transportado nos causou uma  decepção A cachaço era horrível de feio: muito magro, um focinho muito comprido, orelhas grandes e caídas, um corpo liso e sem pelos e uma exuberante, enorme  bolsa escrotal: um verdadeiro saco. Era tudo menos o galã que se esperava, à altura da chica. A chica o repudiou violentamente a mordidas. Para nós parecia evidente que o “galã”, ainda muito menor que a porquinha bem nutrida, não estava mesmo à altura daquela nossa “beldade”. Depois de alguns dias de ferozes “desentendimentos” de convívio no chiqueiro, as coisas se acalmaram e a nossa chica sucumbiu aos assédios amorosos do “namorado”. Feita a cobertura, o feio  cachasso foi levado de volta para sua casa. A chica estava prenha. Principalmente por parte de minha mãe, nossa porquinha foi objeto de cuidados ainda maiores: mais cuidados com sua “casinha” e sobretudo mais milho na ração. Muito mais barriguda ela ainda segui minha mãe pelo quintal antes de ser recolhida aos s eus “aposentos”. Finalmente chegou o dia em que a chica teve sua ninhada. Um mais fraquinho, incapaz na disputa pela vida, morreu.. Sete ou oito filhotes disputavam as  generosas tetas da chica. Ela deitada pacientemente, era assaltada pela frenética disputa dos seus leitões. Quando cresceram os porquinhos foram dados ou vendidos na vizinhança. A chica ainda teve várias outras crias, sempre mansa a acompanhar minha mãe nas andanças pelos arredores da casa e do galinheiro. Quando meu pai vendeu o sítio, de “porteira fechada”, lá ficou também a chica, mais uma razão a alimentar nossas saudades daqueles tempos de vide rude mas feliz.
                        
                         

                        
                 
                          “El comandante lo matê Yo”.
Nossas quadras de videiras, como em quase toda a região, eram das variedades “barbera” e “izabel” que produziam uvas de menor valor no mercado. A quadra  de uvas “Niagara” branca, a mais valorizada era de videiras muito velhas e pouco produtivas. Era preciso renovar e ampliar nossa produção. Os “cavalos” ou porta enxertos já haviam sido plantados. Agora, um ano depois, era preciso fazer a enxertia de todo o talhão. O “cavalo” ou porta enxerto é de uma videira selvagem que não produz frutos mas que tem um sistema radicular mais forte e eficiente como também é mais resistente a pragas. Depois de um ano, quando atinge aproximadamente a espessura de um dedo adulto, essa videira “brava” é cortada dez centímetros acima do solo e se lhe aplica duas cunhas feitas com galhos, ou “bacelos”, da uva que se deseja produzir. Embora a idéia seja simples, há alguns aspectos que são delicados e podem comprometer o êxito do enxerto. As duas cunhas devem ter uma perfeita concordância ou ajuste no tronco cortado e rachado. Nessa época,  fim da década de trinta estava ocorrendo uma mutação genética da uva “niagara” branca. Apareceram espontaneamente em alguns lugares, galhos que produziam uma uva semelhante em todas as propriedade mas diferente na cor: aparecia a uva “niagara” rosada. Isso havia ocorrido em duas chácaras de grande produção, na região de Traviú, em dois ramos da família Carbonari. Uma, nos vinhedos em que meu tio Nino era sócio. Já no ano seguinte se dispunha de muitos “bacelos” (fragmentos de ramos maduros) para serem enxertados da nova variedade. Eu e meu  pai fizemos uma longa viagem de carroça para trazer galhos da nova variedade. Agora era preciso enxertá-los sem perda de tempo. Era preciso enxertar milhares de videiras em poucos dias. Meu pai contratou vários enxertadores  entre os vizinhos e mais um espanhol que andava pela região a procura desse serviço. Esse senhor que todos chamavam de “Paco”, havia fugido da Espanha ao final da guerra civil daquele país e que tinha culminado com a vitória de Francisco Franco e a derrota de todas as forças da esquerda republicana. Seu “Paco” não morava na região e por isso ele teve que ficar por uns dias hospedado em nossa casa. Durante todo o dia, enquanto enxertava videiras, ia contando episódios em que tomara parte naquele sangrento conflito da guerra civil espanhola.  Eu o acompanhava em cada enxerto. Cada videira logo depois de feita a enxertia tinha que  ter um pequeno acabamento especial. O primeiro era amarrar firmemente o enxerto com uma fibra natural, a “imbira” que colhíamos em nosso mato. Isto ainda era feito pelo enxertador profissional. Depois era preciso isolar o  enxerto com barro, uma argila bem  amassada,  macia e úmida, bem lisa para se tornar impermeável. Isso se fazia para evitar a exposição e desidratação no corte da videira. Depois disto, a fase final era a cobertura completa com terra: um cone de uns trinta centímetros de altura. Essas duas últimas fases estavam por minha conta junto ao seu “Paco”. As histórias que ele contava eram do horror da guerra civil espanhola. A matança entre as facções civis, o refúgio, às vezes inútil nas igrejas que eram saqueadas. Esse conflito acabou por  se tornar internacional, com republicanos vindos de outros paises e  a primeira grande aplicação da aviação de guerra de Hitler a favor de Franco: o bombardeio e a destruição do povoado de Guernica. Mas nosso “Paco” contava especialmente os detalhes em que seu grupo de guerrilheiros conseguiu vencer uma  batalha de rua. Todo um grupo de franquistas foi cercado e morto a tiros. Mesmo estando do lado derrotado na guerra, em vários dos relatos que nos fez sobre o episódio em que seu grupo esteve envolvido, arrematava com orgulho:“el comandante lo mate Yo”.

                                 Assumindo uma mudança radical
Dona Luiza, minha mãe, havia chegado da Suíça para São Paulo com 15 anos, em 1920. Seu pai, meu avô materno era chefe de trem na Suíça. Não  eram ricos mas tinham um bangalô próprio de dois andares e até maquina de lavar roupas. Ela era a penúltima em idade entre cinco irmãos. Todos haviam feito boa escola primaria em Wettingen, no cantão de Aargau, próximo a Zurique. A chegada ao Brasil acabou por  separar a família e todos tiveram que assumir suas vidas. Depois de trabalhar em casa de várias famílias alemãs e suíças ela e a irmã mais velha foram trabalhar no Esplanada, como camareiras. Nessa fase ambas já haviam feito alguma economia juntas e haviam comprado suas máquinas de costura. Ambas trabalhavam na arrumação e organização dos apartamentos freqüentados  na época principalmente por artistas das companhias líricas que se apresentavam no Municipal de São Paulo. Isso lhes valeu a  experiência de um convívio num ambiente de gente polida. Antes da vinda para o “mato”, minha mãe tivera que se adaptar a uma vida mais formal de esposa do gerente de um ambiente  freqüentado por gente muito polida ou “chik”, nem sempre muito educada. Como meu pai e também pelo convívio com ele, ela se habituara a muita leitura e convívio com gente mais refinada. Quando havia hóspedes que só falavam alemão sua intervenção era quase obrigatória. No sítio,  da noite para o dia ela teve que aprender a ordenhar, cozinhar em fogão de lenha, lavar roupa  no córrego, a céu aberto, tratar da horta, cuidar das galinhas e do indispensável porco. A mais pesada das tarefas era tirar água do poço.Todas essas tarefas dobraram de tamanho quando meu avô paterno, com minha avó e mais dois filhos, meus tios Mario e Américo, decidiram vir para perto do irmão mais velho e líder, meu pai. Minha avó paterna, já idosa e com velhos hábitos de “grande família” fizeram pesar toda responsabilidade da casa sobre minha mãe. Talvez, sabendo ou adivinhando essa sobrecarga, minha avó materna nos veio visitar e ficou horrorizada de ver a quase insuportável carga de trabalho que caíra sobre sua filha, minha mãe, a querida Louise de minha avó. Ela, muito discreta e docemente, fez meu pai prometer que  aliviaria tão grande peso sobre os ombros da sua delicada “Louise”. Ela não se conformava em ver tão grande carga de trabalho e a transformação sobre a  menina de quem ela fizera as tranças antes de seguir para a escola, na Suíça.
Meu pai logo tratou de iniciar a construção de nossa nova casa dentro de sua antiga gleba vizinha. Tomei parte ativa na nova construção, especialmente em pregar as ripas do telhado. A nova casa, no alto da colina, tinha banheiro interno, sanitário e encanamento para água, sem água porque durante os anos que lá estivemos ainda não chegara por lá a luz elétrica.

                                 Um  poliglota na enxada.
Meu pai também assumira seu projeto com determinação. Afinal embora tivesse sempre ouvido minha mãe, a decisão para a mudança radical havia sido dele. Aquele homem polido que tratava com pessoas das mais diferentes procedências e falava vários idiomas,  tinha uma invejável redação e caligrafia, agora puxava enxada, juntava esterco e abria covas para plantar suas novas videiras. Logo o rosto escanhoado todas as manhãs ficou barbudo,  crestado pelo sol e pela poeira. O terno e gravata alinhados e diários cederam lugar a um “culote” caqui feito por minha mãe e perneiras de couro. Sua coragem e determinação foram notáveis e exemplares. Logo no entanto ele se defrontou com uma característica e limitação sua: a impaciência. Nos primeiros tempos do nosso “mato”, meu pai ajudava minha mãe na ordenha. Logo sua impaciência e irritabilidade se tornaram percebidos no trato com nossa querida vaca de leite, a “Pombinha”.  Muitas vezes a  vaca não fazia ou não ficava na posição que meu pai entendia como necessária ou melhor. Ele ficava impaciente, tentando forçá-la a fazer como ele achava. Da impaciência ele ia rapidamente à irritação e à raiva. Logo a relação dele com a Pombinha ficou tensa. Essa relação piorou muito quando, já fora da hora de ordenha, meu pai, inconformado com alguma “teimosia” da vaca, deu-lhe uma paulada. Ela passou a ter medo dele. Uma vaca com medo ou “nervosa” “suspende” o leite. Nós, os três, percebemos que era melhor que meu pai se afastasse dessa tarefa; a Pombinha “escondia” o leite se ele estivesse por perto. Essa foi uma circunstância que naturalmente me “promoveu” definitivamente a ajudante de minha mãe na ordenha. Com isso eu evolui rapidamente para ser o responsável pelo nosso pequeno rebanho. Em pouco tempo me tornei hábil na montaria em pelo e adquiri autonomia  em todas atividades de manejo com os animais, menos na ordenha que continuou sempre a cargo de Dona Luiza, minha mãe. Mesmo um touro nosso que amedrontava todo mundo, não constituía problema para mim por conviver próximo e  conhecer bem seus hábitos. Eu me divertia provocando e fazendo-o   chifrar o chão e levantar poeira com as patas dianteiras.

                           
                                 Descobrindo coisas sobre sexo.
Todo mundo sabe que a lactação tem a ver com a cria. As vacas começam a produzir leite quando nascem seus bezerros, depois de alguns dias de colostro.  Bezerros nascem  nove meses depois de serem as vacas cobertas pelo touro. Portanto é muito importante saber para quando a  vaca deverá ter sua cria. Por essa razão eu tinha também a incumbência de observar o comportamento da vaca e do touro. Muitas vezes o touro tentava cobrir uma vaca sem que ela permitisse o final do intento. Só quando ela está mesmo no cio é que ela se deixa cobrir sem sair de baixo do touro. Essas minhas observações eu relatava à minha mãe para que ela anotasse na “folhinha”, como se chamava o calendário. Se a vaca se deixou cobrir, nove meses depois ela deve parir e, portanto, produzir leite. Essa minha observação passou a ser de importância “estratégica” para o leite de família. Daí para frente acompanhei o cio das vacas, as coberturas do touro os partos de nossas vacas e os problemas que às vezes acompanham esse evento. Num dos relatos que fiz à minha mãe sobre uma de nossas vacas de leite, descobri algo novo para mim. Eu tinha já idéia clara e acompanhava  aqueles fatos ligados ao cio das vacas, cobertura do touro, prenhez, nascimento dos bezerros e sua amamentação e a produção do leite. Isso era parte das minhas tarefas de todo dia.  Num desses “relatórios” correu-me perguntar à minha mãe se isso era parecido ao que acontece com a gente. Ela calmamente respondeu-me que “era quase igual”. No momento pareceu-me chocante, especialmente tendo presente meu testemunho da  cobertura do touro. Eu não havia pensado nisso, principalmente naquele “era quase igual”. Eu começava a ver o mundo e as pessoas de um modo um pouco “diferente”. Durante dias fiquei “ruminando” aquela idéia, até digerí-la: então “....entre   as pessoas..... era... quase.... igual..................?”.


                                  
                                       Meus novos amigos.
Meus novos amigos eram garotos das famílias vizinhas, quase todos sitiantes de origem  italiana. Isso era outro aspecto curioso de minha nova vida. Dos cariocas de Copacabana para os moleques que nunca haviam estado em uma cidade. Os mais chegados eram os irmãos mais novos da família Antonio Ceolim: Orlando e Mário. Orlando era o mais próximo pela idade e pelo temperamento mais gentil e interessado em ouvir. De Copacabana eu levara para o sítio um baú com os brinquedos acumulados em vários natais. Isso era um forte atrativo para meus amigos que nunca haviam visto nada igual: ficavam encantados. Esses dois frequentemente vinham à nossa casa, sempre descalços e de calças curtas de suspensórios. Aos domingos, um dos programas era bater longos papos, sentados no pomar dos Ceolim. Primeiro colhíamos um monte de laranja lima e laranja cravo. Depois chupávamos laranja até não agüentar mais. Essa era a hora de grandes conversas. Hoje eu diria que foi um grato e útil encontro de diferentes culturas. Eu ainda não sabia nada das coisas familiares para eles: fazer e usar estilingues, arapucas, alçapões, bolas de meia e tantas outras coisas. Eu nunca havia descascado uma laranja. Aqui todos tinham seu canivete marca “Corneta” para isso. Fazer as necessidades, era sempre no “exterior”. Só havia uma privada em casa e ninguém voltava para casa para isso. Era só buscar um lugar um pouco mais discreto e “soltar o barro”. No lugar de papel higiênico sempre se usava algumas folhas. Quase todos, menos eu, tinham fezes secas e duras e nem folhas usavam. No começo eu ainda levava do Rio a minha “amebiana” que sem qualquer medicação também desapareceu. Por outro lado eu tinha muito que contar e eles estavam ávidos por saber. Eu vinha da capital do Brasil: conhecia o mar, vira navios, aviões, auto giro, o futuro helicóptero e sobretudo vira várias vezes o “Zeppelin”. Era muito assunto. Eles queriam que eu contasse e eu gostei de contar. Todos aprendemos algo de novo. Logo comecei a por em prática as novas coisas aprendidas. Fiz muito estilingue, arapuca, alçapões. Foi de grande utilidade futura o aprendizado que tive em fazer as coisas com as próprias mãos. Logo tive que aprender também a usar uma modesta espingarda “picapau” de carregar pela boca. Era preciso aprender a carregar cada vez, com chumbo, “pórva” e espoleta. Caçar passarinhos tinha duas finalidades. A primeira era matar ou afugentar aqueles que atacam as uvas, causando prejuízos ao nosso meio de sustento: sanhaços, tico-ticos, cagacebos, etc. A segunda era fornecer para a cozinheira o material, especialmente rolinhas, para uma panelada de passarinhos para se comer com polenta: “poenta e oséi” (polenta com passarinhos) dos vênetos.  E´ daí que vem o “frango a passarinho”, cortado em pequenos pedaços pequenos como passarinhos. Na falta do frango este era substituído por uma panelada de passarinhos, principalmente rolinhas por serem mais gordinhas.

                      
                                    Escola nunca mais
No Colégio Teuto Brasileiro em Copacabana, na rua Siqueira Campos, eu havia apenas começado o segundo ano primário quando abandonamos o Rio de Janeiro. Nos primeiros tempos da nova vida no “mato”, minha mãe fez várias vezes a tentativa de manter em mim acesa a chama do estudo. Durante algum tempo ela insistia em fazer ditados para que eu não perdesse de todo o contato, pelo menos, com ler e escrever. Mas isso durou muito pouco tempo. A quantidade de afazeres urgentes e indispensáveis pesou logo e fortemente sobre os ombros dela. Era para ela uma carga estafante e que não lhe dava trégua o dia todo. Ao fim do dia e depois de servir o jantar à luz de lamparinas ainda sobrava muito que fazer. Essa pressão dos afazeres foi tirando dela o tempo e a energia que  poderia dedicar para meu estudo ou, pelo menos, para que eu não deixasse de ler e escrever. À noite todos estávamos exaustos e à luz de lamparinas. De minha parte, de início a embriaguez pela amplidão dos espaços e a liberdade de movimentos me atraiam mais que qualquer possível “dever” escolar. Com o passar dos meses, minha vida foi se enchendo de novas responsabilidades a tomar todo meu tempo, toda minha atenção e todo um dia de trabalho. Assim todos os vestígios do que seria um estudo regular foram desaparecendo e dando lugar a outro tipo de experiência. Meu pai embora fosse um homem de muito ler, também  ia sendo absorvido por uma enorme carga de trabalho principalmente braçal. Em pouco tempo a aprendizagem da nova vida e a pletora de obrigações e muito trabalho físico foi absorvendo todo tempo e toda a energia da família. Minha escolaridade ficou totalmente abandonada. A escola ficara mesmo para trás. Havia agora uma aprendizagem de outro tipo: tarefas concretas que precisavam ser aprendidas e executadas, sem possibilidade de serem adiadas.

                                   
                               
                                O trabalho com a uva.
O trabalho com a produção de uvas é muito grande, variado e de ciclo anual. Depois do plantio do “cavalo”, da uva selvagem, em covas grandes e bem adubadas é preciso esperar o ano seguinte para fazer a enxertia. Se o enxerto “pega”, em cerca de trinta dias começam a sair os primeiros brotos esperados com ansiedade. Quando se percebe o entumecimento das gemas do galho enxertado, retira-se a terra que o esteve cobrindo; é o sinal de que o enxerto “pegou”. Os novos brotos quando de boa cepa, já nascem deixando visível os botões que se transformarão em flor e em cachos de uva. Esses brotos, muito frágeis devem ser conduzidos através de uma estaca e amarrados para que alcancem o primeiro dos três arames horizontais que constituem a parreira. Os primeiros poucos cachos são produzidos próximos ao chão, sujeitos aos respingos de barro da chuva e, por isso de menor valor comercial. Só no fim do segundo ano a videira  se torna adulta e capaz de produzir quase plenamente. Nesse segundo ano os brotos muito frágeis devem ser conduzidos verticalmente para o segundo arame. Aí começa o grande trabalho de amarração, desbrota e o tratamento contra pragas que, é feito principalmente com calda “bordaleza”\; solução de sulfato de cobre neutralizada com cal. Este é um trabalho dos mais penosos por ser feito com maquina  costal, de cobre de 20 litros. Além de carregar o grande peso às costas é preciso bombear com o braço esquerdo e espargir o líquido sobre as folhas, com o braço direito. As caixas de madeira, para embalagem da uva, são montadas pelo viticultor com a madeira já cortada, comprada em fardos. Semanas antes do início da colheita se começa a montar as caixas: muito prego e martelo e, no começo, muitas marteladas nos dedos. Colhida e “encaixotada” era preciso levar a carga de carroça para a estaçãozinha de Currupira. Como não havia desvio para vagões de carga era preciso fazer o transbordo rápido para livrar a passagem para trem rápido que devia encontrar a linha livre. Essas caixas iam para o mercado com um rótulo de consignação para a estação de Pari, em São Paulo. O “barraqueiro” do Mercado Municipal de São Paulo, geralmente era um “carcamano”, italiano do Sul. Este retirava e vendia nossa produção. Como não havia telefone, só depois de terminada a safra, vinha ele prestar contas sobre quanto havia sobrado, retiradas as despesas e a comissão. Depois de tanto trabalho. Ficava-se à mercê do “barraqueiro”. Todos produtores, os “sitiantes”, se lamentavam dessa condição. Foi quando meu pai “inventou” a Cooperativa dos Fruticultores de Louveira. Era preciso ir a Louveira porque Currupira, embora próxima, não dispunha de qualquer serviço de correio. Louveira tinha uma estação maior, desvio para carga, o telégrafo da estação e aí paravam alguns trens de passageiros. Era um centro um pouco maior, ponto final de correio, mas bem mais longe. Em Louveira, na grande estação  paravam alguns grandes trens de passageiros vindos de São Paulo e do interior. O chefe da estação andava em rigoroso e alinhado uniforme de casimira, com quepe: parecia um, general. O chefe da estação de Louveira de meu tempo tinha uma filha muito bonita e que era alvo das investidas românticas de um de meus tios: bom cavaleiro, muito forte, de bonita voz de tenor e a quem sobrava a testosterona.

                                     
                              A luta pela cooperativa.
Era evidente que todos os pequenos produtores ficavam inteiramente à mercê dos “barraqueiros”. Embora não houvesse nenhum caso conhecido de não pagamento da uva enviada, todos os pequenos produtores se queixavam do pouco que recebiam, da demora  e dos muitos descontos:sobrava muito pouco. Via-se algum dinheiro depois de meses de enviar a produção. Mas ninguém daquela região sabia  o que era uma cooperativa. Meu pai também não era grande conhecedor do assunto mas tinha idéias, afinal ele havia sido gerente de um grande hotel no Rio de Janeiro. A tarefa maior seria convencer os pequenos produtores a se reunirem em torno de uma iniciativa da qual não sabiam nada. Além de tudo, todos eram pessoas muito simples que trabalhavam na enxada e de poucas ou pouquíssimas letras. Mas a idéia de meu pai logo se espalhou. Os vizinhos passaram a vir à noite, depois do trabalho, em nossa casa. Esse foi outro aprendizado para todos, inclusive para mim. Passei a ouvir os diálogos entre meu pai e cada vizinho. Era uma verdadeira “catequese” em que meu pai se empenhava par que os pequenos  produtores entendessem da importância da união de todos em  uma cooperativa. A muito custo ele conseguiu reunir pouco mais que uma dezena de sitiantes dispostos a aderir à nova idéia. A fundação da cooperativa exigia no entanto  muitas formalidades e autorização de órgãos públicos. Foi então pedida a presença do agrônomo responsável de Jundiaí. Este também passou a freqüentar nossa casa. Finalmente foi fundada a Cooperativa dos Fruticultores de Louveira. Meu pai ficou sendo seu primeiro Diretor-gerente. Só que não havia qualquer recurso. Os pequenos produtores não estavam dispostos, nem tinham como  pagar nada. O que eles buscavam era defender seus parcos ganhos, ao fim de cada safra, com a uva. Além do trabalho de graça de meu pai, para fazer funcionar algo que pretendia ser a Cooperativa meu pai se dispôs a um trabalho sem qualquer remuneração. O armazém do “seu” Bento Cruz, ao lado da estação, ponto de correio, cedeu um pequeno espaço com uma mesinha e uma cadeira. Isso e meu pai constituíam a cooperativa. Não bastava a idéia. Era preciso por a cooperativa de pé e sem dinheiro algum. Todos os dias antes de amanhecer eu ia buscar no pasto uma das nossas éguas,  a Estrela, uma bela égua tordilha e marchadeira. Eu a trazia do pasto montado em pelo e a encilhava para meu pai. Depois do café, às seis horas da manhã, ele saia para a viagem de muitos quilômetros para o trabalho na cooperativa em Louveira Lá ele passava  a manhã. A bela égua marchadeira ficava durante toda a manhã amarrada ao moirão da porteira da estação.Quando chegavam em casa, cavaleiro e montaria estavam sedentos, cansados e empoeirados pelos muitos quilômetros pelo estradão. Eu tinha um serviço adicional: livrar a égua dos arreios e tratá-la. Ela logo se espojava em reviravoltas pela grama. Era preciso dar-lhe também um “almoço” com milho.Toda nossa pequena família acabava sendo onerada com o projeto da cooperativa. Meu pai deixando nosso trabalho na uva. Minha mãe com o prolongamento das tarefas ligadas à cozinha. Eu fiquei sozinho no meio do nosso talhão de uva. Com isso fui ficando muitas horas sozinho em meio ao trabalho do nosso parreiral. Um dos muitos trabalhos mais pesados em quase todas as culturas é o da carpa. E´ preciso carpir o mato que invade e compete com a plantação. Eu, mesmo com o dia todo de trabalho solitário já não estava dando conta. Eu era ainda um adolescente mas já assumia o trabalho de roça em igualdade de condições com meu pai. A falta dele durante metade do dia fez atrasar nosso trabalho de carpa. Durante metade do dia eu trabalhava sozinho em meio ao parreiral. Muitas vezes, além do cansaço físico, a perspectiva e a quantidade de trabalho pela frente me faziam quase desanimar. Muitas vezes, cansado, me apoiava no cabo da enxada para um pequeno descanso.  Do alto da colina, minha mãe acenava para me animar e me induzir ao trabalho que eu tinha diante de mim. Com o passar das semanas nosso trabalho ficou muito atrasado e eu não estava conseguindo vencer a empreitada. O mato estava crescendo e naquele ritmo quando eu chegasse ao fim já deveria começar de novo na outra extremidade da quadra. Numa dessas manhãs em que me sentia  quase desanimar, impotente diante de tanto mato que crescia, tive uma surpresa que ficaria na minha memória para sempre. Os vizinhos desde longe estavam vendo que eu estava sendo vencido pela tamanho do trabalho. Apesar de todas as dificuldades em entender sobre cooperativa e seus mecanismos, espontaneamente se juntaram e vieram todos com suas enxadas. Ninguém disse nada. Todos se puseram a carpir à minha volta. Eram nossos queridos vizinhos das duas famílias Ceolim, mais dois de meus tios. Ao fim da tarde, quando passava o trenzinho misto que era nossa “senha” para o fim da enxada, toda minha uva estava carpida. Além do alívio para mim e para meus pais foi uma grande experiência sobre amizade e solidariedade. Eles podiam não entender muito da cooperativa que meu pai imaginava para todos, mas mostraram entender muito de cooperação.

                              
                                   Trovões e relâmpagos
O calor durante o dia havia sido abrasador, mais que de costume. Além do calor e do ar abafado, parecia que os dias anteriores, naquelas vésperas de verão, haviam feito acumular no horizonte nuvens escuras, muito baixas, carregadas e ameaçadoras. Eu e meu pai havíamos trabalhado o dia todo na enxada, debaixo daquele sol inclemente,  carpindo   nosso parreiral, nossa fonte de renda e sustento. Embora  fosse época das chuvas, já havia muitos dias sem elas. As nuvens  pareciam cada dia mais ameaçadoras. Uma “chuva de pedra(granizo) era nosso grande temor. Nossos horários eram todos regulados pela passagem dos trens da “Paulista”. Duas vezes por dia, às 11:00 às 16:45 passava um trenzinho chamado de “misto”. Era um trem constituído  apenas pela locomotiva e por dois vagões: um para pequenas cargas e um de passageiros só de “segunda”. Era uma espécie de “cata caipira” que parava nas pequenas estações, como Currupira, para as pessoas que  dele se serviam para ir fazer alguma compra ou ir ao médico “na cidade”, em Jundiaí. A passagem desse trenzinho, o “misto” das 16:45, era a “senha” para que eu deixasse o trabalho que estivesse fazendo e sair para uma série de outras tarefas obrigatórias do fim do dia. Essas tarefas começavam por “engatar”(atrelar) a carroça, ir cortar e trazer para o piquete a carroçada de capim, distribuí-lo no piquete e depois ir recolher nosso pequeno rebanho que ficava num pasto mais distante, onde ainda havia uns alqueires de mata Atlântica. Nosso pequeno rebanho era constituído por duas vacas leiteiras (Pombinha e Medalha), seus bezerros, algumas vacas “solteiras”, algumas novilhas e o touro. Preparado o piquete com o capim, era preciso ir buscar o gado. Desengatada (desatrelada) a égua,“Branquinha” da  carroça, nela eu galopava “em pelo”(sem arreios) na direção do pasto para trazer o gado. Meu cachorro, Duque, amigo inseparável, corria na frente.  Antes que eu chegasse ao pasto  distante desabou o temporal. Já era o fim da tarde. A noite parecia se antecipar pela escuridão do temporal. Ao chegar próximo do pasto onde esperava encontrar o gado, já chovia forte em meio a trovões e relâmpagos. Não havia nenhum sinal do gado. Com  o barulho assustador do temporal o gado se havia refugiado no meio do mato. Eu não conseguia achar meu rebanho. Agora já estava escuro. Eu cavalgava apressado pelas barrocas à procura do gado. Durante uma meia hora eu e minha montaria corremos pra cima e pra baixo, no meio do mato,  em meio ao temporal e à chuva. Minhas pernas, de calças curtas, já estavam arranhadas pelo mato, além de molhadas pela chuva e pelo suor de minha montaria. Aflito de tanto procurar, na escuridão e na chuva, sem encontrar meu gado, voltei para casa  abatido e frustrado.  Quando cheguei de volta à cocheira encontrei meu pai de semblante contraído. Antes que eu esboçasse qualquer explicação ele me ordenou: “Não me volte sem o gado!” Aquela ordem, naquele tom não deixava dúvida. Era imperioso voltar para o mato e trazer o rebanho. Nossas duas vacas de leite tinham que alimentar seus bezerros presos na cocheira e delas era nosso indispensável leite da manhã seguinte.  Desconsolado e aflito, fiz meia volta e de novo  galopei  na direção do pasto.  Agora já estava escuro e chovia a cântaros, em meio a trovoadas a relâmpagos. Agora tudo era mais penoso. A escuridão só era rompida pelos repetidos relâmpagos. Agora eu e minha montaria, a Branquinha, estávamos mais cansados, molhados e arranhados pela busca no meio do mato. Além da aflição, meus fundilhos ardiam pela cavalgada no lombo molhado e sem arreios da égua. Outra vez, fiz muitas tentativas de encontrar minhas vacas. E meu gado não aparecia, com certeza, assustado e abrigado nalguma grota mais escondida. Aflito, cheio de desconforto, na noite tempestuosa, numa curva da picada parei   e apeei exausto. Sentei sobre os calcanhares para descansar os fundilhos e pensar no que fazer, enquanto segurava as rédeas de minha mansa égua Branquinha, ofegante, bem a meu lado. Nesse momento senti, além do desconforto do corpo molhado e arranhado, uma grande solidão e abatimento. Era um sentimento como jamais eu havia experimentado. Meu cachorro, o Duque,  que sempre corria na dianteira, também ofegante, deitou-se a meu lado, depois de me lamber a cara molhada de lágrimas e da chuva que caia. A solidão e a desventura que  eu nunca havia experimentado vieram acompanhadas da confortadora presença de dois seres que estavam comigo, no mesmo cansaço e desconforto. Essas presenças foram tão confortadoras naquele inesquecível momento de aflição. Mesmo sendo animais, eles estavam junto a mim e de alguma maneira solidários naquela situação. Eles não me abandonaram. Essa noite me reservaria uma experiência importante e inesquecível: solidão e solidariedade. Abracei com gratidão, tanto minha égua, a Branquinha, como meu inseparável amigo, o cachorro Duque, pela confortadora companhia  que me proporcionavam.De repente, um estalo na mata. Mais um susto. Pulei no lombo da Branquinha, enquanto o Duque se pôs a rosnar. Mais um relâmpago e pude identificar a cabaça de nosso touro apenas saída numa clareira do mato.  Aí estava meu rebanho. Logo tangi o touro que, erguendo a cauda, se pos em desabalada corrida pela encosta, na direção de casa. Logo foram saindo do mato, atrás dele, os demais integrantes de meu pequeno rebanho. Em meio à noite escura, debaixo de chuva, os relâmpagos me deixavam ver, vez por outra, o rebanho correndo para casa. Na frente ia o touro. Logo a seguir vinham as novilhas, muito ágeis. Atrás, muito pesadas, com úberes cheios, iam nossas vacas Pombinha e Medalha, esperadas pelos seus bezerros fechados e famintos na cocheira, em casa. Agora minha aflição era substituída pelo júbilo de haver conseguido encontrar o gado e cumprir  minha tarefa, mesmo em meio ao temporal que desabava. Fechando nosso “cortejo” vinha eu,  cansado e esfolado pela procura no mato mas  aliviado e orgulhoso por haver passado por uma “prova”. Junto à cocheira estavam, meu pai preocupado com minha “prova” e minha mãe aflita pelos riscos e minhas aflições que ela adivinhava. Ainda foi preciso concluir a tarefa, soltando os bezerros para  que mamassem.  Chovia, mas agora estava todo mundo em casa e garantido nosso leite da manhã seguinte. Os cuidados de minha mãe, a sopa quente e logo depois a cama, nunca me haviam parecido de tanto conforto e aconchego. Adormeci com o barulho da chuva em nosso telhado destituído de qualquer forro. Encerradas todas as tarefas, havíamos subido para nossa casa que ficava no alto da colina. Com os relâmpagos se podia ver algumas casas da vizinhança, situadas ao longo do vale dos Fernandes, próximo à estaçãozinha de Currupira. Ao entrar em casa, uma ultima olhada pelo vale revelou que ainda havia algum sinal de luz na casa de meu avô paterno que ficava a uns quinhentos  metros da nossa. Ele fustigava e sacudia um velho rádio de grandes válvulas que  havia trocado por uma égua e que era alimentado pela eletricidade gerada  numa mini-hidrelétrica cuja  construção caseira eu acompanhara. Aquele rádio produzia muito mais silvos, chiados e “estática” em “ondas curtas” que qualquer coisa entendível. Era uma tentativa de conseguir algum fragmento de notícia da guerra que se desenrolava na Europa. No dia seguinte ficamos sabendo do ataque japonês a Pearl Harbour. Com isso os Estados Unidos entravam na segunda “II Grande Guerra” que passava a ser mundial, estendendo-se  à  Ásia e ao Pacífico. De um lado agora estavam os “Aliados”, com os Estados Unidos e do outro o “Eixo”, também chamado de RoBerTo, de Roma Berlim e Tóquio. Estávamos em dezembro de 1941 e eu completara 12 anos.
Muitos anos mais tarde, eu já adulto, essa mesma experiência seria por mim evocada e me ajudaria a compreender a angustia da solidão e a importância confortante da solidariedade. Quando comecei a estudar Astronomia, fui me dando conta da  esmagadora solidão em que nos encontramos, vagando pelo espaço em nossa minúscula “nave”, o nosso planetinha Terra.  Na medida em  que  nos conscientizamos de nossa pequenez, de nossa insignificância, fragilidade e isolamento, somos invadidos por uma forte sensação de solidão e impotência. Isso é inevitável, na medida em que compreendemos as distâncias Astronômicas a pequenez e a fragilidade da Vida em sua história sobre nosso planeta. Acredito ser essa assustadora vertigem do caráter efêmero e insignificante da vida que faz as pessoas buscarem  refúgio nas religiões. E´ assustador aceitar a simples mortalidade do homem, como nos demais seres vivos. A solidariedade, as amizades e o amor podem mitigar nosso medo de findar para sempre, de voltar para o mesmo nada de onde viemos.  Daí nossa “necessidade” de criar “outras” vidas no “outro mundo”. A consciência de nossa real pequenez sobre a Terra pode nos ajudar a perceber a importância da solidariedade  para  diminuir nossa solidão.
                                
                                  Os banhos no “tanque”.
A uns 500 metros de nossa casa, dentro de nosso sítio, havia um açude. Devia ter aproximadamente uns 100 metros de comprimento por uns 20 de largura e de 3 a 4 metros nos lugares mais fundos. Era um lugar com várias finalidades. Servia de bebedouro para os animais, por ficar em um pasto, de banho dos sábados e de nosso “balneário” para natação e brincadeiras aquáticas. No verão aos sábados à tarde, depois de completadas as obrigações era ora de um grande banho, o banho de sábado. Aí vinham do sítio vizinho meus três tios ainda rapazes, Américo, Mario e Joãozinho. Uma grande prancha de peroba fazia as vezes de trampolim para os saltos e piruetas em que cada um exibia suas destrezas, alem do banho com muito sabonete. Um desses meus tios, o tio Joãozinho, além de boa voz de tenor e bom cavaleiro era extremamente vaidoso e namorador. Como não havia desodorantes ou qualquer outro aromatizante masculino, tio Joãozinho depois do banho ainda dava mais uma demão de sabonete sem o retirar do corpo: era para ficar “perfumado”. Além do banho, o “tanque” era um espaço para uma de minhas diversões aquáticas prediletas ao domingos de calor. Eu descobrira que as bananeiras são ótimos flutuadores. Nosso bananal fazia fronteira com o açude. Várias bananeiras amarradas juntas com cipó de “São João” faziam uma perfeita jangada. Uma vara de bambu era um varejão para empurrar a jangada. Nosso bananal era constituído de banana “nanica”, de caules curtos. Longe do açude tínhamos também alguma touceiras de banana “São Tomé”. Essas tinham caules muito altos e compridos. Uma só dessas seria suficiente para navegar. Foi preciso transportá-la com carroça: era muito pesada para eu carregar. Valeu o sacrifício. Montado a cavalo nessa grande bananeira, naveguei por todo o açude, usando como remo duplo um pau com duas pequenas tábuas de caixa de uva pregadas nas extremidades. Esse era um dos grandes divertimentos dos domingos de verão. Vez por outra também meu pai e minha mãe também se divertiam em nosso “balneário”. Minha mãe, desde criança na Suíça aprendera a nadar e o fizera muito em Copacabana, antes de nossa internação em Currupira. Nosso açude também tinha algumas variedades de peixes expedição noturna. De vez em quando fazíamos uma pescaria. Com meus amigos da vizinhança em manhãs de domingo pescávamos lambaris para fritá-los inteiros. Às vezes fazíamos expedições  noturnas pára pescar bagres e enguias e, às vezes cascudos.

                                          
                                       A vida do brejo
Para mim as luzes da  jovem e vaidosa Copacabana tinham sido s pela escuridão e também pelo luar do sertão, coisas que eu nunca imaginara. O céu da cidade, cuja presença eu nem notara, agora se apresentava num  esplendor que me deixou deslumbrado e cativo para o resto da vida. Agora era preciso aprender a andar na escuridão, pelos caminhos rústicos trafegados apenas a pé, por carroças ou animais. O luar desconhecido da cidade, agora, além da poesia, tornava os caminhos bem visíveis; mudava muito a vida  da gente. Das noites no sertão ficaram em mim impressões e lembranças que nunca se apagariam. Além do luar e do céu estrelado, a familiaridade com todo um mundo de ruídos da noite: os latidos distantes dos cães que guardavam seus terreiros, as corujas e os curiangos piando seus solos e  como grande coral, o coaxar da saparia pelos brejos. Se todo o mato tem uma grande variedade de ruídos noturnos, os brejos têm algo de especial. Aí vivem numa imensa variedade e proximidade, sapos, sapinhos, sapões,  rãs  e pererecas, além  de aves, cobras e uma  multidão de insetos aéreos e terrestres. No verão, essa variedade se enriquece com vagalumes e pirilampos que riscam com sua suave luz a escuridão da noite. E´ interessante que essa espantosa variedade de seres vivos “dá expediente”  principalmente à noite. Toda essa imensa diversidade de vida “funciona” plenamente na mais completa escuridão. Algumas dessas “descobertas” pude fazer  muito cedo, ainda criança. Com um precário lampião a querosene ou com a mais  “avançada tecnologia” da época:  um lampião a carbureto. Com ele fazia “expedições” para pescar em pequenos riachos ou para caçar rãs, logo depois das chuvas. A simples presença de uma pequena luz, não só mostra como alvoroça toda a vida do brejo a seu redor.  A forte impressão da grande variedade e a presença perturbadora da luz sobre a  vida do brejo  ganhariam no futuro, para mim, um significado muito maior. E´ que meu avô paterno, como muitos outros vizinhos, era italiano e andava muito ansioso por notícias da guerra. A guerra agora alvoroçava toda a vida da Europa e, em particular da “nostra” Itália. Naquele lugar ermo, sem luz, a única maneira de obter alguma notícia seria um rádio. Não só, não se tinha rádio. Não havia vestígio de iluminação elétrica na região. A única lâmpada  da região ficava na distante estaçãozinha de Currupira, a alguns quilômetros de casa e era só da Estrada de Ferro. Seria preciso arranjar um rádio e algo muito mais difícil: produzir a necessária energia elétrica. Não só me lembro como acompanhei cada passo e ajudei a montar uma mini-hidrelétrica para fazer funcionar o velho e grande rádio que mais parecia um armário, tendo seu interior preenchido por  grandes lâmpadas: as “válvulas”. Obviamente, se esperava que além de fazer funcionar o rádio, a mini-hidrelétrica deveria  acender também algumas lâmpadas para diminuir e escuridão em que  todos vivíamos imersos à noite. Foi um grande aprendizado assistir e ajudar aquela montagem a partir de peças compradas no ferro velho. Depois de semanas de trabalho, finalmente o pequeno “dínamo” de carro começou a rodar, acionado por uma polia acoplada à roda d´água de uns três metros de diâmetro. Esta por sua vez era tocada pela água num pequeno desnível  no regato que passava  próximo ao brejo. Com grande expectativa e ansiedade, o velho rádio foi ligado na presença de vários vizinhos que haviam acompanhado e esperado aquela a montagem. As ondas curtas só podiam ser sintonizadas à noite, mesmo porque de dia todos trabalhávamos na enxada. Mais que alguma notícia fragmentada, o que mais se ouvia daquele rádio eram ruídos: silvos, “pipocas”, assobios, estalos e “descargas de estática”. Mesmo assim,  nossos vizinhos mais próximos, vinham para saber  se tinha conseguido algum fragmento de notícia da guerra. Juntamente com a “linha” constituída de dois arames que trazia e energia elétrica do dínamo, instalado lá  no rio, próximo ao brejo, meus tios haviam instalado uma lâmpada para iluminar o caminho para algum conserto à noite. Aquela lâmpada, muito fraquinha não iluminava muito mais que nossos lampiões a querosene. Ela ficava sobre um pequeno poste à beira do cominho que, pelo brejo, ia da casa até a pequenina “usina”. Apesar de fraca, aquela lâmpada instalada na beira do brejo alvoroçou toda  vida que até então ali se desenrolava normalmente em plena escuridão. Uma imensa variedade de insetos alados passou a esvoaçar freneticamente ao redor daquela luz. Alguns esvoaçavam até próximo da lâmpada e logo voltavam para sua  escuridão. Outros voavam em grandes voltas  sem parar.  Outros, aparentemente deslumbrados e seduzidos pela luz,  voavam em voltas cada vez mais próximas e mais frenéticas. Estes já não conseguiam sair de seu deslumbramento, já não viam mais nada senão a luz e acabavam por  “orbitar” tão próximos à lâmpada  que queimavam suas asas. De asas queimadas caiam indefesos e moribundos. Até muitos vaga-lumes que antes enfeitavam a noite com suas delicadas luzes, se deixaram ofuscar, perderam a luz própria e caíram em agonia, encontrando a morte. Aos poucos o chão ia se enchendo desses ex-voadores moribundos que, na busca da luz,  haviam perdido  as asas, a visão que tinham do seu mundo e a própria vida. Enquanto o terreno ia se enchendo de insetos mortos e moribundos, outras coisas começavam a acontecer naquela relva iluminada. E´ que os sapos, atraídos pelos “petiscos” acumulados no chão, se aproximavam para um verdadeiro “banquete”: uma comilança farta e fácil como nunca tinham tido. Eles, os sapos, já não tinham que correr os riscos da caça na escuridão. Nem sequer corriam os riscos de, por engano, abocanhar um “freguês” meio amargo ou indigesto. Agora era só escolher e empanturrar-se sem “fazer força”.  Assim, os sapos se locupletavam na claridade que agora parecia em seu proveito. Tão felizes e despreocupados estavam os sapos com a nova “conjuntura” que não se deram conta de que outro desdobramento estava em marcha. E´ que, esguias e sorrateiras, algumas cobras espreitavam os sapos, desde a escuridão. Deslizando pela penumbra, as cobras podiam ver os sapos no campo iluminado, sem serem vistas e seguir-lhes os movimentos. Assim os sapos se tornaram alvo fácil para as cobras. Elas agora podiam escolher seus sapos mais apetitosos sem correr o risco e o trabalho de emboscar sapos menos adequados a seu paladar.Enfim, toda aquela vida que antes seguia seu caminho natural, agora andava  alvoroçada e “fora dos trilhos”. E´ bem verdade que também sem a lâmpada, todos aqueles insetos voadores, sapos e cobras também estariam sujeitos aos riscos, a imprevistos e à morte. Suas vidas também seriam efêmeras na escuridão. Também muitos sapos seriam abocanhados pelas cobras. Também estas poderiam acabar no bico de alguma seriema ou engolidas por outra cobra. Todos aqueles seres viventes eram também morrentes, como todas as formas de vida que povoam a Terra. O que a lâmpada provocou foi um grande alvoroço e a precipitação da morte daqueles que poderiam ter vivido mais na modéstia de sua escuridão. Talvez muitos se tenham beneficiado pela presença da luz. Alguns, mesmo tendo visto alguma luz, não se deixaram ofuscar por ela. Eles puderam ver pelo menos o tipo de tragédia que se abateu sobre aqueles que se deslumbraram pela luz e terminaram por não ver mais nada do pouco que viam antes. Alguns não chegaram a ter as asas queimadas mas já não conseguiam ver mais nada alem daquela luz: ficaram “convertidos” para a luz e já não conseguiam ver nem participar da vida na escuridão em que todos estão mergulhados. E´ preciso aprender e conseguir viver com as desvantagens mas também com as vantagens e satisfações  possíveis naquela forma de vida a que já estavam adaptados. Esse aprendizado é que havia determinado a sobrevivência de todas as espécies nas condições daquele seu habitat. O lugar em que vivi essa experiência da luz acesa no brejo, ficava no sítio de meu avõ paterno, ao lado do nosso sítio. Por mera casualidade, esse sítio foi, muitos anos mais tarde, adquirido por um grande filósofo e escritor: Huberto Rhoden. Fui conhecê-lo. Era realmente uma figura humana que causava forte impressão. Além de sua cultura vastíssima e do invejável domínio da palavra, sua imagem era imponente:  seu porte ereto e grande, sua basta cabeleira já toda branca. Seus olhos azuis, pareciam estar sempre focados no infinito. Seu  tom de voz era sempre profético. Tudo fazia desse homem excepcional um verdadeiro luzeiro.
Aprendi muito com esse homem de grande cultura e sabedoria. A mim fascinava  especialmente seu domínio sobre a etimologia: o conhecimento sobre a origem das palavras e suas raízes mais fundas. Sua área era a Filosofia Universal. Seu currículo de professor nos EEUU, seus muitos livros, sua fala calma e segura, sem qualquer tropeço e sua convivência com Albert Einstein em Princeton, faziam dele um grande mestre. Para muitos, mais que isso: um verdadeiro “guru”. Para muitos  ele se tornou uma grande lâmpada no brejo de suas vidas. Para muitos, esse homem se tornou uma “luz” tão forte que lhes ofuscou e tolheu a visão das outras coisas de suas vidas. Até mesmo as limitações e as fraquezas, próprias de qualquer ser humano, se tornavam virtudes excelsas para muitos  dos deslumbrados. Não por culpa dele, mas por culpa daqueles que se deixaram ofuscar pelo fato de só olharem para aquela “luz”. Estes passaram a “orbitar”  cativos, tão próximos que já não conseguiam ver  outra coisa a não ser olhar para o mestre e repetir suas palavras. Vários outros casos conheci, como do grande Pietro Ubaldi, autor de “A grande Síntese”. Vi coisas semelhantes a seu redor. Homens que pela brilho do que diziam podiam ser considerados grandes “luzeiros”. Menos por culpa deles e mais daqueles que os fitam tão fixa e unicamente, muitos destes se “queimaram as asas” e passavam a enxergar menos do que viam no apagado de suas vidas mais simples. Se por um lado devemos buscar as “luzes” de quem sabe mais para jogar alguma claridade sobre nossos caminhos, não nos devemos deixar ofuscar ao ponto de só olharmos para a “luz”. Não podemos perder de vista nosso querido “brejo”. Nem as mais brilhantes lâmpadas valem nossa renuncia de conduzirmos nossas próprias vidas, mesmo que modestas ou sem grande brilho.Todos os fanatismos que nos fazem olhar para uma única” luz” acabam por nos cegar para as limitações e possibilidades da vida. A escuridão com que temos que conviver é às vezes desconfortável e sempre cheia de riscos. No entanto a certeza de uma única “luz” para onde devemos olhar parece ridícula, diante de tantos diferentes pontos de luz para onde podemos olhar ainda melhor de nossa escuridão. O olhar fixo para uma única luz nos faz perder a possibilidade de aprender e desfrutar coisas que  vemos na  penumbra e até na escuridão do Mundo em que vivemos. E´ desde a mais completa escuridão que melhor podemos ver o esplendor do céu,  cheio de uma infinidade de estrelas, mesmo estando no “brejo” de nossas modestas vidas.
                              Estudando catecismo
Tanto do lado de meus de meus avós paternos quanto dos maternos ninguém era muito religioso. Meus avós paternos fizeram uma longa viagem de carroça, da fazenda Macuco até a estaçãozinha de Rocinha, hoje Vinhedo, para tomar o trem e se casarem na catedral de Campinas em 1900. Embora nunca tenham vivido em Campinas, cinqüenta anos depois voltaram a essa cidade com todos os familiares para celebrar as bodas de ouro na mesma catedral e fazer a fotografia de toda a família. Todos os filhos foram batizados na igreja católica mas nada muito mais que isso. Meu avô materno não só não freqüentava igreja como tinha certa antipatia pelos hábitos muito conservadores dos tradicionais suíços. Todos os seus cinco filhos, entre eles minha mãe, estudaram numa escola em que os professores eram noviços do Wettingen Kloster, um convento católico próximo de casa da família em Wettingen, na região de(Aargau) Zurique. Foi sua busca e sonho por uma terra mais aberta que o inspiraram a trazer a família para o Brasil. A chegada ao Brasil dispersou a família e ninguém seguiu hábitos ou freqüência a qualquer religião. Em minha primeira infância, até entrar para a escola meus pais não me haviam dito nada sobre religião. Quando no primeiro ano da escola me perguntaram qual era minha religião, se católico ou protestante, fiquei sem saber o que responder e fui perguntar em casa. Não havia qualquer definição segura. Como só havia duas opções, fiquei do lado católico, apenas para não ficar para fora. Quando fomos para Currupira eu tinha nove anos. Nossos vizinhos eram todos muito católicos. Não havia protestantes senão muito distantes de nosso bairro. Além,  disso, nossos vizinhos das duas grandes famílias Ceolim eram gente boníssima com quem mantínhamos fortes laços de amizade. Meus amigos de infância eram todos católicos. Mais pela companhia deles, eu os acompanhava à missa que se realizava uma vez por mês na igrejinha de Currupira. Durante a missa eu ficava bem atrás e me ocultava por trás da gente grande, com receio de que o padre me visse ou me dirigisse a palavra. Aos domingos havia à tarde aulas de catecismo onde eram preparadas as crianças que iriam fazer a primeira comunhão. As catequistas eram as moças das famílias vizinhas, especialmente as da família Santo Ceolim, Maria e Regina e as da família Bianchim, Arminda e Ítala. Mesmo sem sermos definidamente católicos, minha mãe me sugeriu que seria bom que eu fizesse a primeira comunhão e frequentasse o catecismo “para não ficar diferente” dos meus amigos e da comunidade. Passei a freqüentar o catecismo. Logo me enamorei platonicamente por uma das catequistas da família Bianchim. Talvez ela nunca nem tenha sequer sabido disso, por mais que lhe dirigisse o olhar “apaixonado”. Além das aulas na igrejinha, as catequistas me passaram lições que eu devia estudar. Estudar à noite era inviável pela cansaço do trabalho diário e pela precariedade da luz de querosene. Durante os meses de inverno era preciso complementar a alimentação de nosso pequeno rebanho, especialmente nossas duas vacas leiteiras. Eu tinha então que conduzir e pastorear nosso rebanho onde houvesse capim fresco e recém brotado. Isso acontecia pelos morros, nos lugares em que havia sido cortado o capim gordura para forrar nossas videiras. Depois de conduzir o gado eu me sentava sobre um cupinzeiro, para ter melhor visibilidade do rebanho e aí dividia minhas atenções entre  as vacas e o estudo do catecismo, num livrinho emprestado por minhas catequistas. Essa situação me teria passado despercebida ou esquecida não fosse  a observação feita por uma das catequistas à minha mãe. Essa catequista, Maria Ceolim, muitos anos mais tarde se casaria com um de meus tios, o  tio Joãozinho. Depois de algumas semanas de catequese eu estava “pronto” para a cerimônia de primeira comunhão com meus amigos mais próximos, Mario e Orlando Ceolim. Por não estar habituado às coisas de igreja e também por levar muito a sério minha  “iniciação”, eu vivia uma ansiedade muito grande. Chegou o dia. Quem nos deu a primeira comunhão foi o Padre Domingos Casarim. Logo depois tivemos um café da manhã com chocolate, “pão da cidade” e um pãozinho de mel na casa sede do sitio do seu Egidio, próxima à igreja mas do outro lado do estradão. Essa proximidade com as catequistas me fez um pouco mais “enturmado” com as pessoas que freqüentavam a igrejinha e serviu de contato com o coralzinho que cantava nas missas. Cantar no coralzinho, além de um certo “status” me conferia o direito de ir à noite aos ensaios na casa de um maestro (João Rissetto) que morava muito distante, no bairro do Traviú. Era uma oportunidade de passeio pela escuridão da noite ou ao luar. Era também outra oportunidade de ver minha catequista “amada”. Foi também nesses  ensaios que se iniciou o namoro de uma das catequistas (Maria) com meu tio (Joãozinho)que tinha uma bela voz de tenor. A “proteção” desse meu tio era meu “passe” para poder sair à noite e caminhar por estradinhas pelo mato e pelos vinhais da região, junto com a turma da igreja. As missas que só aconteciam uma vez por mês eram celebradas pelo Padre Casarim que vinha de longe em seu modesto cabriolé. Ele vinha desde a igrejinha de Capivari onde era pároco e residia. Seus sermões eram rústicos e simples e quase se resumiam a exortar aos fiéis a que doassem mais “prendas”, frangos e leitões para os leilões das quermesses, afim de que se pudesse arrecadar mais “fundos” para a igrejinha. Era um homem muito simples de vocação e formação tardias, sem muitas letras mas um homem bom e honesto. Muitos anos mais tarde encontrei-o numa fila de ônibus em Campinas, já bem velho e com uma batina muito pobre e surrada. Recordei-me daqueles distantes anos. Dirigí-me a ele e depois de cumprimentá-lo ocorreu-me perguntar: - O senhor mora em Campinas?. –“Não, vim só trazer o dinheiro para o chefe”, foi sua resposta, referindo-se ao bispo.
                 
                      
                             A santa ira de Dona Luiza.
Se para todos nós  adaptação à nova vida rural, longe de recursos e meios da cidade foi um desafio, para minha mãe coube um esforço muito maior.Todas as tarefas de uma casa onde não luz elétrica nem água encanada, bastariam  como grande carga de trabalho. A ordenha das nossas duas vacas  de leite, as galinhas, a horta também estavam no “ministério” de minha mãe.Nossa nova casa no meio da colina, ficava muito acima do nível em que estavam nossas principais atividades, tanto na uva, quanto na horta e na cocheira. Só os pastos e o  pedaço de mata ou capoeira  ficavam em cotas maiores. Meu pai escolhera o lugar que nos proporcionava uma vista mais ampla e arejada da redondeza. Essa visão mais ampla e arejada nos custava o preço da constante subida  e descida por uma rampa.  Nesse “belo panorama” o poço, obrigatoriamente tinha que ser muito fundo, mais de vinte metros. Não havia qualquer energia elétrica na região e por isso toda a instalação de água encanada  com caixa d´água,  pia da cozinha e banheiro envelheceram virgens “a espera da energia elétrica. Tirar toda a água para uma casa, em latas de 20 litros de dentro de um poço tão fundo era um trabalho muito duro e estafante. Sempre que podíamos, estando em casa, eu ou meu pai “puxávamos” água para minha mãe. Mas nosso trabalho era principalmente fora e às vezes longe de casa. Tivemos que montar um grande sarilho, uma espécie de “carretel” com duas velhas rodas de carroça para “tirar” água de maneira menos sofrida que uma simples roldana. Ainda era preciso levar as latas cheias para dentro de casa. Apesar de nossa ajuda sobrava muito também desse trabalho para minha mãe. Nessas condições todo o trabalho da  dona de casa era realmente estafante. Colher qualquer coisa na horta “lá em baixo” a fazia descer e subir nossa rampa. A ordenha das vacas, na cocheira também ficava lá embaixo; o galinheiro também.  A responsabilidade de alimentar a família era muito grane e difícil quando, além do dinheiro muito limitado se está muito longe de qualquer fonte de abastecimento. Por essa razão minha mãe tinha um zelo muito grande com suas galinhas. Elas tinham nomes e eram conhecidas de minha mãe por seus diferentes “comportamentos” e “temperamentos”. Uma dessas galinhas prediletas de minha mãe, chamava-se “minerona”. Enquanto muitas galinhas são agitadas e nervosas, ciscando os ovos para fora do ninho e pouco “competentes” para criar suas ninhadas, a “minerona”,  muito calma e mansa, chocava seus ovos  com segurança e “tirava”  belas ninhadas de pintinhos. Isso era fundamental para futuras poedeiras e futuros frangos para o macarrão do domingo. Nossa produção de milho era pequena e anual. Quando se guarda o milho no paiol ele é muito atacado pelo cupim e boa parte se perde. Por essas dificuldades em alimentar as galinhas no confinamento do galinheiro, essas aves eram mantidas soltas, alimentando-se pelo pasto e tendo apenas um pequeno complemento de milho no fim da tarde. Só à noite todas ficavam fechadas e protegidas no galinheiro  à prova de predadores.Logo pela manhã, antes de tratar das duas vacas leiteiras, eu abria o galinheiro. Algumas galinhas botavam ovos  em moitas pelo pasto. Era preciso vigiar para que não ficassem fora do galinheiro à noite, sujeitas aos predadores silvestres como também a ataques de cachorros da vizinhança que vagavam pela noite. Em tempos de boa postura, de vez em quando, minha mãe chegava a vender umas poucas dúzias de ovos por semana, ajudando o orçamento da família. Quem os comprava era um português chamado Jesus  que fazia uma coleta por todo o bairro para depois revendê-los. Várias vezes ocorreu que alguma galinhas sumissem e vinte e um dias depois aparecessem com uma nova ninhada de pintinhos. Muitas vezes porem galinhas,  patos e até nossos gansos ,eram atacados por cachorros do mato, uma espécie de raposa que habita nossos matos e capoeiras. Algumas vezes também cachorros da vizinhança atacavam as galinhas. Isso era uma das preocupações de minha mãe. Frangos e ovos eram parte importante de nosso suprimento. As galinhas soltas garantiam parte de sua alimentação que era apenas complementava com o chamado para uns punhados de milho, no fim da tarde, antes de se fechar o galinheiro. De repente, minha mãe começou a se dar conta de que mais galinhas desapareciam. Só se encontrava restos de penas que evidenciavam a presença de um predador. Isso ocorreu várias vezes seguidas. Num certo dia, minha mãe surpreendeu o grande cachorro policial dos meus tios, devorando uma ninhada de ovos. Ela ficou furiosa, pois isso abalava o nosso suprimento no momento e no futuro pela falta dos pintos que se tornariam galinhas e frangos.
Isso aconteceu uma segunda vez e, além do estrago, criava um problema com meus tios, donos do grande cachorro. Meu pai então pediu aos irmãos, também nossos vizinhos, que tratassem de deixar o cachorro preso com corrente para que isso não voltasse a acontecer.  Haviam se passado alguns dias quando minha mãe surpreendeu “Leão”,o cachorrão que, arrastando a corrente, se havia soltado e estava devorando os ovos de uma ninhada justamente da sua galinha  de estimação, a “minerona”. Isso era demais. Minha mãe tomada de um acesso de fúria, conseguiu pegar o cachorro pela corrente que ele arrastava, prendeu-a  a um moirão da cerca e, munida de uma lasca de madeira, partiu de cacetadas para cima do grande cachorro. Eu e meu pai vínhamos chegando e nos deparamos com aquela cena. Minha mãe transtornada  e tomada de uma verdadeira fúria, batia violentamente no cachorrão que gania  e se debatia preso. Só a muito custo, meu pai conseguiu detê-la do intento de matar o grande  cachorro. Eu nunca tinha visto, nem imaginado, minha mãe, pessoa tão delicada e afável, tão transtornada. Misturavam-se em seu rosto, a raiva, agitação e o cansaço de tanto bater no grande cachorro policial. Ele, acuado poderia tê-la atacado com graves conseqüências mas Dona Luiza não parava de golpear o “leão”. Ela estava tomada de uma “santa ira” na defesa de coisas importantes para sua família.

               
                   Testemunhas de minha infância-adolescência

Nossos vizinhos mais próximos, em sua grande maioria eram brasileiros de origem italiana. Eram filhos  de imigrantes italianos. Já iam rareando os imigrantes originais. Nossos vizinhos mais próximos eram as duas grandes famílias Ceolim: Santo Ceolim e Antonio Ceolim. Eram dois grandes patriarcas, chefes de grandes famílias. Meu contato mais próximo era com a família do Antônio Ceolim porque  daí eram meus amigos mais chegados, de minha idade, companheiros das aventuras e brincadeiras dos domingos: Orlando e o Mário. Orlando o meu mais próximo era um menino gentil e generoso, mais “ajuizado” e introspectivo. O Mário era mais novo e mais estourado: facilmente “emburrava” ou fazia uma briga por causa de qualquer coisa. Quase sempre as brigas não iam além de resmungos, olhares ferozes e xingamentos. Ambos trajavam sempre calças curtas com suspensórios e  sempre descalços, mesmo no tempo mais frio. Todos os demais irmãos eram mais velhos: Aurélio, Américo (Meriquim) e Guilherme (Jermo) e uma irmã, a Regina. A mãe da família,  Dona Corona  de voz muito estridente e esganiçada, fazia benzimentos, rezas e “tirava bicho de dente”. Eu assisti a um desses rituais e vi os “bichos de dente”, pequenos vermes que saiam de umas frutinhas usadas no ritual. “Seu” Antonio Ceolim, de voz grave, forte e estridente o patriarca da família, promovia freqüentes mutirões noturnos ora  para debulhar milho, ora para “destalar”(tirar o talo central das folhas) fumo. Eram ótimos pretextos para grandes conversas, convívio e cafezinho com bolinhos ou mesmo “pinga” para os homens adultos. O grande pomar dessa família era o lugar preferido em que nós moleques passávamos horas de domingo batendo papo enquanto chupávamos montes de laranja lima e laranja cravo.
A outra  grande família vizinha  tinha como chefe o Sr. Santo Ceolim. Este era um verdadeiro patriarca, homem muito magro e alto,  com aspecto frágil, de voz fraca e mansa. Esse aspecto frágil e quase doentio escondia um pai de uma imensa prole, de grande valor pelo trabalho,  honestidade, liderança da grande família e respeito por parte de toda comunidade. Dessa família eram as principais catequistas, nossas amigas e que convenceram minha mãe a que me deixasse acompanhar o catecismo e fazer a primeira comunhão. Uma delas, Maria, muito mais tarde casou-se com um de meus tios, o Joãozinho. Os irmãos mais velhos, Henrique, o “Rico” e Amélio já começavam a desbravar uma nova terra que a família havia adquirido próximo de onde hoje passa a estrada Anhangüera.  De lá eles traziam carroçadas de forragem de “capim gordura” ou “catingueiro” para forrar suas videiras. As casas dessas duas grandes famílias Ceolim, Antonio e Santo, eram unidas por uma estradinha de meio quilômetro, cercada por uma alameda de ameixeiras que se uniam pelas copas formando um verdadeiro túnel, às vezes verde, às vezes todo florido ou carregado de tentadoras ameixas. Vez por outra meu pai, minha mãe e eu fazíamos, depois do jantar, uma visita a essa grande família por quem nutríamos grande amizade e admiração. Meu pai e todos os Caniato desfrutavam de grande prestígio junto a essas  e outras famílias vizinhas. Em meio a animada conversa, “seu” Santo fazia  servir um vinho feito por ele de sua uva Kurbina (Seibel). Independentemente da qualidade ou sabor, para mim intragável  daquele vinho, ele representava uma verdadeira celebração de  amizade. Notável também era a animada e alegre participação na conversa  de Dona Ida, a matriarca da família que mesmo depois de tantos filhos mantinha grande vigor e disposição para o trabalho. Era uma pessoa simples, de pés descalços mas cheia de vigor, bondade e sabedoria da vida. Era ela quem cuidava e administrava o trabalho ao redor da casa, como a horta,  galinhas, porcos, ordenha e cuidados com as vacas leiteiras. A administração do trabalho executado pelo velho  e plangente monjolo que ouvíamos desde minha casa, era do chefe da família, o patriarca Santo Ceolim. Embora seu Santo já não trabalhasse na enxada devido à sua saúde mais frágil, era ainda ele quem planejava e dirigia o trabalho daquela grande família no trato de seu vinhal. Era ele também o fiel depositário do dinheiro da igrejinha de Currupira. Quando o Brasil declarou guerra ao “eixo”(Alemanha, Itália e Japão), em 1942, Santo Ceolim teve que renunciar por determinação do governo do Brasil, ao cargo de depositário e administrador do dinheiro da igreja de Currupira. Todos os italianos e seus descendentes eram considerados “suspeitos” se ocupassem algum cargo com poder em dinheiro. Embora soasse  muito injusto no caso, meu pai ajudou seu Santo a entender que nada havia de pessoal contra ele. Era uma questão do “governo”. Esse também era visto com desconfiança por parte de quase todos os paulistas, especialmente depois da revolução constitucionalista de 1932 e do Estado novo de 1937.

                                   
                              

                                         
                                  Outros vizinhos
Seguindo pela estradinha que ia do bairro dos Fernandes até o alto de Currupira, o primeiro sítio a fazer divisa com o as terras de meu avô era o dos Bôrtolo. O mais novo dos irmãos dessa família era o Mário, também um dos meus amigos. Ele também participava de nossa “pelada” no pátio da casa dos nossos amigos Orlando e Mário Ceolim. Nossas posições no time podiam ser de “gortipa”, “beque”, “centrefor” o “centerarfo”. As faltas podiam ser “penarti”, “corne” ou “fau”. A bolinha “moderna” eu trouxera de Copacabana entre alguns dos meus brinquedos. Era uma bola  de “capotão”, muito melhor que as que existiam no sítio que eram feitas de meias velhas cheias de palha de milho. Mesmo essa “moderna” bola, vinda de Copacabana, tinha que ser cheia na pressão da bochecha, amarrado o umbigo com barbante e empurrado para dentro da “abotoadura”, uma espécie de “braguilha” que ficava saliente , comprometendo a esfericidade da “bola” e proporcionando alguma cabeçada de “mau jeito”.
Um dos rapazes da família Bôrtolo, o Paschoal, muito amigo  nosso e especialmente de meus tios, em 1939, foi convocado para “servir e exército”. O pior é que sua convocação tinha sido para servir no interior de Mato Grosso. Sua partida se deu com emocionadas despedidas e com o choro inconsolável de sua mãe. Durante mais de um ano essa senhora  vinha a nossa casa conversar com minha mãe e mina avó para se lamentar do querido filho ausente e do qual não tinha notícias. Além de filho, o Paschoal era a principal força de trabalho e o líder daquela família. Poucas notícias ele deu. Só depois de ano e meio de sua partida, chega uma carta dizendo que estaria próxima  sua “baixa” e a conseqüente volta para casa. A saudosa mãe nos trouxe a carta para que meu pai esclarecesse bem seu conteúdo:... “ma quaaando sará que ele vorta?”.  A carta apenas vagamente informava estar “próxima” a “baixa”, sem no entanto precisar quando isso aconteceria. A partir daí, a velha e saudosa mãe passou ficar várias horas por dia  junto á porteira, de  onde se podia ver a passagens dos trens pelo grande aterro dos Fernandes. Ela esperava que seu filho Paschoal  certamente acenasse com um lenço branco, como se costumava, quando passasse de trem pelo grande aterro visível desde nosso bairro. Passaram se muitas semanas com a saudosa mãe num incansável plantão a  olhar, esperançosa, para todos os trens que passavam no distante  aterro. No fim de um desses  demorados e cansativos plantões, ao sol, no alto da porteira, ela veio mais uma vez, chorosa e abatida, consolar-se e desabafar com minha mãe e minha avó: “num güento mai.... meus óio tom muito cansado de tanto oiá.”
Ficaram registradas na história de nossa família, as freqüentes vindas,  o sofrimento, sua expressão em um português meio caipira, meio italianado e  nossa compaixão pela longa e penosa espera daquela mãe. Naqueles tempos Mato Grosso nos perecia estar a uma distância quase lendária.
Só depois de mais alguns meses o Paschoal chegou de Mato Grosso, sem que sua mãe já “caaans a a a  da ...de tanto... oiá”, tivesse visto seu aceno de lenço ao passar de trem. Logo ele nos veio contar suas aventuras e desventuras de “servir” naqueles confins do Brasil, próximo da Bolívia.

                                  
                                 

                                     

                                   O velho “Capucho”
Passando a porteira dos Bortolo havia um pequeno sítio do velho “Capucho”(Cappuccio?). Era um senhor bem velho, gordo,  siciliano, difícil de se entender pela  fala muito misturada ao seu dialeto original. Ele estava sempre às voltas com uma carroça puxada por uma velha mula de estimação que se chamava “Baroneza”. “Capucho” com sua carroça era uma figura digna da ópera “cavalleria rusticana”. Uma coisa que era “famosa” dessa figura era sua  mula baia, muito velha mas ainda muito boa de carroça e que tinha a “barda”(mania) de morder quem se distraísse perto dela. Numa parada do seu Capucho em frente à nossa casa, meu pai se deteve a conversar com ele. Sem se dar conta, meu pai se aproximou muito da mula e levou uma tremenda mordida da “Baronesa” no braço: um ferimento que focou visível por muitas semanas.

                                        Os Barbosa.
Na primeira bifurcação da estradinha que ia dos Fernandes a Currupira, logo depois da pequena ponte ficava  a casa dos Barbosa. Era um casal  autenticamente caboclo naquela comunidade em que eram maioria os “oriundi”, descendentes de italianos. Eles tinham um filho já adulto: o Dito Barbosa. A casa era de alvenaria mas muito simples, com muito poucos moveis tendo logo à entrada   uma mesinha que era um oratório cercado de muitas imagens,  estatuetas de santos e velas acesas. O pátio diante da casa era cercado de velhos “chorões”, espécie de pinus que por ter as folhas como finos fios, produzia um constante zumbido, quase um choro, com a passagem mesmo de uma leve brisa. O quintal era povoado de velhas e grandes mangueiras. Nos fundos desse quintal, próximo ao brejo, passava um pequeno regato  que fazia funcionar o velho mas ativo monjolo. O pouco que essa velha “maquina” produzia ainda era o pobre sustento daquele casal tão simpático e amigo.  Seu Barbosa devia ter uns setenta anos. Era moreno de basta cabeleira quase toda branca e um largo sorriso, sempre disposto a uma boa prosa e a contar causos, sempre pitando seu “picadão”. Sua mulher, Dona Tudinha,  embora não fosse tão idosa, já trazia os sinais da velhice precoce pela vida rústica e pobre que viviam, sem qualquer evidente aspiração por conquistar melhoria. Pareciam muito felizes na sua mais que simplicidade. Dona Tudinha era muito conhecida  por ser a maior rezadeira e benzedeira do bairro. A casa dos Barbosa era lugar de freqüentes noites de rezas, novenas, terços e trezenas, sempre orientados e “puxados” por Dona Tudinha. Muitas vezes me detive a conversar com seu Barbosa e sempre lhe fiquei grato por ser capaz de dar atenção a mim, um “moleque”, o que não era habitual. Os mais velhos não costumavam dar muita conversa aos jovens.
No outro lado da estradinha, bem defronte aos Barbosa viviam dois  irmãos, autênticos  caboclos, Adão e Lazinho. Ambos viviam num ranchinho de “pauapique”: estrutura de bambu e revestimento de barro aplicado à mão, com cobertura de sapé. O ranchinho se resumia a dois cômodos de chão de terra batida: uma pequenina “sala” onde havia dois banquinhos, um  mais  que rústico e improvisado fogão, amontoado de alguns tijolos. O “quarto” era “mobiliado” por dois catres munidos de apenas um cobertor. Era o mais típico ranchinho de caboclo. O pequeno quintal não tinha mais que uns pés de mandioca e uma touceira de bananas. Adão, o mais velho tinha uma cara muito redonda e um grande  e freqüente sorriso que deixava visível a falha de um dente. Era um tipo bonachão, muito tímido, respeitador e destituído de qualquer vaidade. A maneira de falar era aquilo que de mais típico se poderia imaginar do caipira paulista. Já o mais novo, Lazinho, era um tipo diferente: embora partilhando a mesma pobreza que o irmão, era vaidoso e notório galanteador para com as moças. Ambos viviam de pequenas empreitadas em serviços eventuais de enxada. O quintal da casa, como seu interior, era de terra batida e não dispunha de qualquer horta ou qualquer outra coisa além de uns pés de mandioca e a touceira de banana.
Logo atrás da casa dos Barbosa, no desvio da estradinha que ia na direção  de onde hoje está hoje a Via Anhangüera,  morava o Bastião Galo, caboclo de pouca prosa, mal encarado que quase sempre passava a pé por  nossa casa, já meio “tomado”, vindo da venda do Finamore. Não sei se Galo era mesmo seu sobrenome ou se se devia a alguma outra “virtude” desse caboclo. Sua casa, típica de caboclo, ficava num pequeno terreno em que havia apenas uns pés de mandioca, umas touceiras de banana e  de cana.
Pouco adiante dessa mesma estradinha variante, do lado oposto, ficava a casa de Orlando Montovani, jovem pai de uma grande família e irmão mais velho entre os filhos do “seu” Montovani. Orlando era o “piloto” de uma parelha de mulas que obedeciam por comando de voz: “ooooaaa”, para a direita, “vem, vem, vem” para a esquerda e “ppprrrr” para parar. Uma chupada de beiço do “comandante” era como dar partida num carro moderno. Era uma das coisas que eu admirava. Era um comando de “última geração”: um comando de voz.
Pouco mais adiante, nessa mesma estradinha, numa descida para a direita ficava  o sítio do “seu” Dante Mussi, chefe de uma grande família, homem muito trabalhador e honesto que freqüentou nossa casa. Era um dos viticultores que meu pai havia “doutrinado” para que entrasse para a Cooperativa. Ele vinha a cavalo e sempre pitando um cigarro de palha que já lhe causara um evidente inchaço e ferimento no lábio inferior. O ramal de sua estradinha subia o morro, atravessava um bananal e passava em frente à casa dos Lourenção, já próximo ao bairro Traviú.
Naquela vizinhança, já mais perto de onde hoje passa a Anhanguera ficava a casa do Alexandre Bianchim, também viticultor e pai de outra grande família. A mais velha de suas filhas, Arminda, muito alta, era uma das principais catequistas na igrejinha de Currupira. Era ela também que puxava os cânticos nas procissões de festa. Uma irmã mais nova, Ítala era aprendiz de catequista e objeto de minha platônica e secreta paixão.
             
                                           Os Montovani
Essa era uma grande família chefiada pelo “velho” Américo Montovani. A numerosa família de moças e rapazes trabalhava na roça de uvas e principalmente num grande bananal que chegava rente à  estradinha do bairro. Seu Américo Montovani era muito falador e contador de causos e vantagens. Nas suas freqüentes visitas à nossa casa fazia todo mundo rir de sua abundante falação sobre seus feitos, sempre levando “a melhor”. Contava sempre que  antes de casar sua noiva lhe preparava um belo frango assado. “Depois só sobravam uns pedaços. Quando a mulher deu à luz o primeiro filho, o frango ia para a canja da convalescente. Quando vieram os filhos, as melhores partes eram deles. E assim o frango foi sumindo”. Depois de casado, além de capitanear sua grande família, cultivar uva e um grande bananal, seu Américo administrava um moinho de fubá, bem ao lado de sua casa, tocado por uma roda d´água. Periódicamente eu ia a cavalo, montando minha Branquinha em pelo, para fazer moer o milho que se transformaria em nosso fubá, com o pagamento de uma “parcela” do milho para o moinho. Muitas vezes surgiram pequenos atritos entre seu Montovani e meu avô, Beppi(José) Caniato. Isso porque o moinho estava a montante, no mesmo regato que a mais de um quilômetro, a jusante, movia outro pequeno moinho e a mini “hidroelétrica” de meu avô. Quando havia pouca água, seu Montovani, fechava as pequenas comportas de seu açude para reservar mais força para seu moinho. Meu avô, a jusante, tinha que parar sua engenhoca por falta daquela água. Uma das coisas que constituíam o orgulho e as vantagens que seu Américo contava era sua parelha de pequenas mulas de carroça. Era um casal: “brinquedo” e “boneca”. Essa parelha obedecia a comandos de voz, sem necessidade de rédeas. Isso para mim que também lidava com carroça se constituía numa grande admiração. Era uma espécie de “tecnologia de ponta” de carroceiros. Uma vez consegui convencer meu pai a pedir emprestada aquela parelha para  um serviço muito pesado para minha égua sozinha na carroça. Para mim foi um dia de  grande realização comandar a parelha apenas com comando de voz: senti muito orgulho de ser um carroceiro com tecnologia “avançada”.
Dessa grande família saiu uma das moças(Lídia) que se casou com um de meus tios, o tio Américo e se tornou minha    tia Lídia. Esse casal teve  um casal de filhos, meus primos Celi e Bruno. Durante o namoro desses dois, Américo e Lidia, ocorreu uma tragédia: a morte por tifo de uma das moças mais novas da família, a Rosinha. Foi uma acontecimento  que comoveu  e abalou a vida do bairro. Eu fiquei muito impressionado de ver aquela bela jovem no caixão, o desespero  e o choro convulsivo da família. Foi a primeira vez que vi uma pessoa morta: um cadáver.

                                            Os Crepaldi
Pouco adiante da casa dos Montovani, do lado oposto mas rente à estrada de Currupira ficava a casa dos Crepáldi. Era também uma grande família chefiada por Julio Crepaldi, um viticultor. Alem de muito alegre e grande piadista, Júlio era o sanfoneiro do bairro. A família era constituída por várias moças e rapazes. Das moças a mais velha, Leonilda, casou-se com o mais novo de meus tios, o Mario e se tornou a minha tia Leonilda. Estes tiveram três filhas: Vera, Neli e Rosana, minhas primas. Lembro-me quando a matriarca da família, Dona Rosa, morreu de parto, junto com o bebê. Foi outra tragédia no bairro. Os  filhos mais novos  daquela família, Anésio, Raul e Dorival também foram meus amigos nas  brincadeiras de bola e pião e colegas de catecismo na igrejinha de Currupira.

                                             

                                    Outro Bianchim
Já chegando ao alto da estradinha de Currupira, próxima de onde esta desembocava no estradão estadual, ficava o sítio do Eugênio Bianchim. Baixote, de  nariz arrebitado, olhos  muito azuis e apertados, o Bianchim era o maior contador de vantagens e lorotas. Além de viticultor, como quase todo mundo na região, Eugênio Bianchim era um autodidata prático de “veterinária”. Naturalmente a “veterinária” que ele praticava era na base do que ele achava, sem qualquer informação que viesse de livros ou de qualquer outra fonte que não sua intuição e prática. Numa ocasião em que nossa vaca leiteira, a “medalha”, ficou mal, suspendeu o leite e ficou com a barriga inchada, fomos chamar o Bianchim. Ele veio prontamente e depois do “diagnostico” ele enfiou todo o braço pela traseira da vaca que imobilizada se limitava a uns gemidos como eu nunca ouvira. Eu fiquei muito impressionado com aquela “cirurgia”: nunca tinha visto nem imaginado uma cena parecida e para mim repugnante, assistida também por meus pais. Não sei até hoje se a vaca se salvou por causa ou apesar da intervenção do Eugênio Bianchim. Além de um pequeno rebanho de vacas, seu Bianchim tinha umas cabras que vagavam pela estrada. Na volta de uma das aulas de catecismo, numa tarde de domingo, eu e alguns de meus amigos Mario e Orlando, corremos atrás do bode e das cabras do Bianchim que se embrenharam pela capoeira. Não fizemos nada além  disso. À noite em casa, quando já havíamos jantado, alguém bate à nossa porta. Fui abrir. Era o Eugênio Bianchim. Eu gelei de susto e apreensão. Achei que ele vinha fazer queixa a meus pais sobre nossa corrida atrás de suas cabras. Foi um grande alívio ouvir a conversa normal de simples visita de cortesia e que não era nenhuma queixa sobre minha participação na corrida atrás de suas cabras. Se ocorreu alguma reclamação, ela foi “em off”.  Bianchim era, além de chefe de família, um grande contador de piadas e “causos”. No alto de seu sítio acabava a estradinha que vinha lá dos Fernandes até desembocar no estradão estadual já a uns quinhentos metros da vendo do Antonio Miguel, o “Antonio Turco”.


                      

                                A venda e o Antonio Miguel
Por ser a única da região, a venda do Antonio Miguel, o Antonio Turco, era uma espécie de centro para onde convergia todo o bairro. Num raio de vários quilômetros não havia qualquer outro negócio ou ponto de abastecimento. Mesmo aí não havia luz elétrica mas apenas lamparinas e lampiões de querosene. Os cereais como arroz, feijão ficavam depositados em recipientes de madeira com tampas inclinadas ou diretamente em sacos “guardados” por sonolentos gatos como seguro contra os ratos. Aí se comprava sal, açúcar, óleo comestível, balas, querosene, velas, barbante, fumo de rolo, formicida “Tatu”,  alguns poucos outros itens de suprimento e o mais importante  deles: a pinga. Quase todos os homens que vinham fazer alguma compra também tomavam um trago. Por isso sempre havia também algum bêbado, cambaleando. Cada vez que ouço a “moda da pinga” cantada pela Inezita Barroso, acende-se em minha memória todo aquele cenário real. Além de vendeiro, o Antônio Miguel também era o barbeiro da região. A estaçãozinha de Currupira ficava a uns cem metros atrás de vendinha do “Tónho Migué”. Para se chegar à estaçãozinha era preciso atravessar um pequeno  pasto onde reinava um belo garanhão chamado “Tarzã” : um belo cavalo de linda pelagem “pampa”(de grandes manchas brancas e marrons, quase vermelhas). Quando se embarcava ou desembarcava do trenzinho misto, o “catacaipira”, único que aí parava, obrigatoriamente se passava pela venda. Todos os cavalos da região automaticamente entravam para o pátio da venda onde descansavam enquanto o dono fazia as compres ou tomava uma pinga. Na falta do titular da venda, excepcionalmente os clientes eram atendidos por uma de suas irmãs: Sâmia ou Vitória, ambas amigas de nossas famílias e admiradoras dos irmãos Caniato, meus tios. Na venda do Miguel tudo era empoeirado. E´ que o estabelecimento ficava bem a beira do “estradão”, entre duas ladeiras de terra por onde passava todo o grande tráfego especialmente de caminhões a gasogênio no período da II Guerra Mundial que, nos dois sentidos, tomavam embalo para a vencer a subida seguinte. Essa estrada era a que fazia a ligação de São Paulo, capital, para o interior. Só muitos anos mais tarde surgiria a Via Anhanguera.
Era nessa venda que eu vinha, a cavalo  na minha Branquinha,  em pelo, fazer as pequenas compras para minha mãe. Quase todo o caminho era feito pela estradinha interna do bairro dos Fernandes. Ao chegar ao alto do Bianchim era preciso fazer os últimos quinhentos metros na descida do estradão, até a venda. Desde muito cedo, aos dez anos, meus pais me deram essa autonomia que também era ditada pela necessidade. Essas viagens me conferiram muita autoconfiança e me fizeram conhecido e conhecedor de toda a redondeza. Não conheci em toda a região outro garoto que desfrutasse de tamanha autonomia e ao mesmo tempo de tanta responsabilidade quanto eu. Nossos costumes eram bastante diferentes do habitual na região naqueles tempos.
                           
                            
                                
                               A Igrejinha de Currupira.
Durante algum tempo freqüentei a igrejinha nas tardes de domingo para aprender catecismo. Isso foi até a realização da primeira comunhão. Uma vez por mês vinha o Pe. Casarim, com seu cabriolé, desde Capivari, de sua casa paroquial perto de Louveira. Ele vinha por uma estrada interna que passava ao lado da Estação Experimental do Governo do Estado. Ficava todo mundo batendo papo no lado de fora da igrejinha até que o Pe Casarim despontasse na ladeira do “Instituto”. Esse tempo antes da missa era dedicado à cuidadosa arrumação e preparação do altar feita pelas catequistas e também dedicado ao ensaio de um pequeno coro onde o solista era um tio meu, o tio Joãozinho que possuía bela voz de tenor. Algumas vezes eu também participei do coralzinho, embora isso não fosse habitual para menores. Habitualmente, durante a missa eu ficava próximo à porta por trás dos mais velhos para que o padre não me visse. Eu tinha medo que ele me pudesse dirigir a palavra.
Uma vez por ano acontecia a festa da Igreja. O pátio se enchia de bandeirolas e  barraquinhas. A mais movimentada era a barraca do leilão. Aí o leiloeiro apregoava em altos brados as prendas que eram principalmente frangos assados, leitões e um que outro brinde. Durante a manhã, depois da missa, havia a procissão pelos arredores da igreja, acompanhada pela banda do Santo Scaranzi que também vinha do Capivari, perto de Louveira. Numa dessas ocasiões vi chegar para procissão o Engenheiro Francisco de Monlevade que morava nos arredores. O Doutor Monlevade era uma das principais figuras da Companhia Paulista de Estradas de Ferro que era motivo de orgulho dos paulistas. Ele havia sido o engenheiro responsável pela eletrificação da ferrovia alguns anos antes. Era uma figura impressionante: alto magro, muito elegante e de cavanhaque já todo grisalho. Ele  vinha acompanhado de um pequeno  séqüito de criados e parentes. Uma de suas prestigiosas cozinheiras viria, muitos anos mais tarde, a ser minha sogra.
Para uma das festas da igreja consegui que minha mãe me entregasse 500 Reis para que eu participasse da festa. Tomei um picolé importado de Jundiaí por 200 reis e de volta da festa prestei contas do gasto e devolvi o troco de 300 Reis à minha mãe.  Nas procissões eu acompanhava as letras “puxadas” pelas catequistas. Muitas dessas letras estavam estropiadas e muitas sílabas se juntavam formando cacófatos que eu não entendia. Acredito que muita gente, mesmo com todo o fervor não entendia o que elas queriam dizer. Eram muitas. Uma dessas era “susvoai”. Eu me perguntava: “que será susvoai”?.  Só depois de adulto descobri que com certeza deveria ser “Sus!, voai”. “Voai” já seria intrigante mas “susvoai” eu não conseguia entender. E assim muita outra coisa relacionada ao culto e aos cânticos, especialmente arrastados pela multidão nas procissões. Para a molecada, como eu, boa parte da festa era constituída pela possibilidade de um picolé, pela ansiedade da caminhada em grupos na ida e volta até a igreja e pelo borborinho anunciado pelo foguetório que começava na alvorada e pela banda do Santo Scaranzi que vinha desde Capivarí.
        
                                 Um aprendizado diferente.
Eu tinha apenas o início da aprendizagem formal da escola, no Rio de Janeiro e isso tinha ficado longe e para trás. O aprendizado agora era de natureza muito diferente. Valeria e encheria um livro, só  com isso. A  primeira coisa era andar pela casa à noite  só à luz de um lampião de querosene ou as pequenas lamparinas de chama fuligenta e mal cheirosa. Era preciso aprender a andar no escuro. Em compensação o céu me apareceu num esplendor que me marcaria para sempre. A presença do luar ficara ostensiva e mudava o que se podia fazer e andar à noite.  Providenciar a indispensável lenha seca para o fogão. Acender o fogão. Tirar água do poço. Fazer horta e regá-la todos os dias. Limpá-la do mato que  cresce muito mais depressa que o que se plantou. A ordenha, o alimento da vaca, o lidar com a cria, o bezerro que tem que se juntar e separar da vaca. Os cavalos, ou melhor, nossas éguas  eram nosso  transporte de sela ou de carroça. O uso e manutenção dos arreios tanto de montaria quanto de carroça. Um mundo de coisas com que já no dia seguinte à nossa chegada se nos impunham como necessidades que não podem ser adiadas. Nem se dispensam em domingos e feriados. Tudo isso devia ser aprendido com urgência e eficácia. Tudo isso também além do trabalho com as videiras que seriam nosso sustento e meio de vida.
Aos domingos no entanto, algum tempo depois de ordenhadas as vacas, havia um intervalo até às 16:00, quando se precisava distribuir o capim cortado aos animais, alimentá-los, tratar dos bezerros,etc.
Essas horas de domingo tiveram para mim um significado importante, além das brincadeiras e das peladas com a bolinha carioca. È que meus amigos queriam que eu lhes contasse como era a capital do Brasil, o que eu havia visto: aviões, navios, zepelins, auto-giro, rádio, muitos automóveis, embaixadas, bondes. Foi minha primeira oportunidade de exercitar exaustivamente a narrativa de tudo  que eu trazia em minha memória de vida em Copacabana. Foi um verdadeiro encontro de culturas diferentes. Eu precisava aprender urgentemente as coisas em que eu era totalmente ignorante e inexperiente. Houve uma autentica troca entre minha cultura urbana e a cultura caipira que eu ainda não conhecia e precisava com urgência conhecer e praticar. Meus amigos ficaram sabendo através de minhas narrativas coisas de que tinham apenas longinquamente ouvido falar e muitas coisas das quais nunca tinham sabido nada. Isso me valeu também, sei hoje, um certo treinamento de verbalização e narrativa. À medida que o tempo foi passando fui aprendendo rapidamente tanto pela pressão imposta pela urgência como  pela necessidade, muitos dos afazeres de adulto. Esse aprendizado incluiu de início ajuda nas tarefas de ajuda especialmente à minha mãe nos arredores da casa, como horta ordenha e trato das vacas. Logo essas obrigações evoluíram para o trato das éguas de tiro e montaria. Saber como funciona, o que faz e aplicar os arreios para um animal que entre os varais vai puxar uma carroça, não são coisas tão óbvias. Atrelar um segundo animal ou na “guia”(frente) ou na “boléia”(lado), faz muita diferença na coordenação e no equilíbrio de uma carroça carregada com uma montanha de forragem, por exemplo. O equilíbrio de uma carroça tem muitas implicações tanto de segurança quanto de esforço sobre o animal do “varal”. Uma carroça muito “traseira”, isto é, com carga muito para trás, tende a levantar o animal do varal, diminuindo sua capacidade de tração. Carroça muito “dianteira” maltrata o animal e lhe acrescenta peso no lombo. Carga muito alta diminui a estabilidade, especialmente quando se transita em caminhos irregulares ou inteiramente “off road”. Para colocar uma carga, como um saco de milho, ou se tem força para colocá-lo direto sobre a  carroça, e eu não tinha, ou logo se aprende sobre plano inclinado, simplesmente com dois paus paralelos do chão à carroça. Saber quanto trabalho há atrás de qualquer coisa feita ou produzida é uma idéia que reputo fundamental para um exercício de cidadania que não seja só discurso ou demagogia.
                                  
                                    O grande jacarandá.
Quando nos mudamos para a gleba de 40 alqueires  que era de meu pai, foi preciso construir uma nova casa. Acompanhei toda a construção dela tomando parte direta como ajudante e fazendo pequenos serviços. Quando chegou na hora da construção do telhado eu já estava “craque” no uso do martelo e fiz parte considerável da colocação das ripas do madeiramento, junto com meu pai. Coloquei centenas de pregos, depois de muitas marteladas erradas ou nos dedos. Meu pai fez questão de completa instalação hidráulica para banheiro, pia da cozinha, tanque de lavar roupas, enfim “água encanada”. Só que não havia na região qualquer vestígio de energia elétrica e assim toda a “hidráulica” envelheceu virgem até nossa saída, anos depois, em 1943. Nessa casa tivemos que construir toda a infraestrutura como cocheira, galinheiro, chiqueiro, piquete para o gado e rancho de apoio para carroça, arreios e ferramentas. A construção da cocheira para ordenha e guarda dos bezerros marcou época em nossas vidas. Meu pai sempre teve idéias que tinham a ver com, largueza, arejamento, belas vistas e espaços amplos. Por essa razão nossa casa já havia sido construída numa colina, cujo acesso exigia uma cansativa subida.Uma das conseqüências da visão panorâmica foi o poço de 30 metros. Isso exigiu um grande sarilho feito com rodas de carroça para tirar água do poço. A cocheira também deveria ser “ampla, alta, bem arejada”, diferente do que se costumava  entre os modestos sitiantes da região. Tudo entretanto deveria ser feito com madeira retirada de nosso mato. Já havíamos derrubado uma parte do mato para fazer um milharal. A lenha havia sido vendida e transportada pelas pesadas carroças dos donos das olarias da região. Na margem de nossa derrubada de mato havíamos encontrado um grande jacarandá, muito reto e alto e que devia ter quase um metro de diâmetro na sua base. Esse seria o principal esteio de nossa cocheira. Sua derrubada, a machado e a separação da tora principal levou todo um dia de machadeiros, meu pai com a ajuda de seus irmãos Joãozinho, o mais forte, Mario o mais novo e Américo, o do meio. Este último, o tio Américo, era de muito inteligente,  criativo e ficava “bolando” meios engenhosos de como iríamos transportar aquela tora grande e muito pesada do grande jacarandá, desde o mato até as proximidades de nossa casa, onde seria erguida nossa cocheira. O nosso jacarandá tinha cerca de oitenta centímetros de diâmetro na base e cinco metros de comprimento. O jacarandá é madeira das mais pesadas entre as “madeiras de lei”. Arrastar aquele monstro pelo mato exigiu as mais criativas soluções; não existiam tratores na região, era preciso “inventar” soluções. Removê-lo uns poucos metros até o carreador” foi uma operação com alavancas, cordas e força dos irmãos juntos, sob a “engenharia” do tio Américo. No carreador, o caminho no mato, a grande tora foi alavancada para cima de roletes de pau cortados no mato ao redor. Feito isso foi trazido o “Brioso”, um mulo que também entrou para a história da família por várias de suas proezas, pelo seu tamanho, força e por ser inseparável(“amadrinhado”) da bela égua marchadeira de meu pai. Era difícil segurá-lo longe dela. Atrelado à grande tora, o Brioso arrastou por muitos metros a grande tora até que ela caísse dos roletes. Todos achavam que saída de cima dos roletes a pesada tora, arrastando no chão, se tornaria pesada demais para ser puxada. Foi um dos momentos de glória do valente Brioso. Diante da maior força necessária, o brioso, quase  de joelhos de tanto esforço, bufando, arrastou por dezenas de metros a pesada tora, quebrando cipós e fazendo um grande ruído pela  que ia levando de arrasto no meio do mato. Agora era preciso transpor a “barroca”, um vale que separava em  duas  partes o caminho que ia para casa. Ai foi preciso “inventar” outras técnicas para transposição daquele pequeno “cânion” no nosso mato. Foram então tomados por empréstimo os grandes moitões da Companhia Paulista de Estradas de Ferro que eram mantidos num nosso vizinho(Túlio Framba) que era encarregado da manutenção das linhas de “força” que corriam paralelas à estrada de ferro. Foram mais dois dias de operação com cordas alavancas e moitões até a transposição da “barroca”. Chegávamos com a tora até onde se atingia uma estradinha de carroça. Agora o caminho era mais aberto mas ainda no meio do mato. Ainda era preciso vencer duas ladeiras, uma descendo e outra subindo. Estávamos a cerca de um quilômetro de casa. Para outros serviços pesados, meu avô paterno, freqüentador dos grandes “ferro-velhos”, havia comprado  um par de rodetes de ferro de vagoneta(pequeno vagão) sobre os quais o tio Américo havia montado um pequeno vagão de carga feito de pranchas de madeira. Essa vagoneta andava sobre trilhos de madeira que eram constituídos por pares de caibros unidos por tábuas transversais fazendo as vezes de dormentes. Esses trilhos eram móveis e podiam ser transportados, assim como toda a vagoneta desmontada. A vagoneta seria a solução para o trajeto final da tora  até  o local da nova cocheira. Todo aquele arsenal “ferroviário” tinha que ser levado desmontado e remontado no mato. Para chegar ao local onde o jacarandá esperava, tinham que ser vencidas as duas ladeiras, uma descendo e outra subindo. Ao Brioso coube também a grande tarefa de puxar a carroça com toda aquela tralha ao local onde estava o jacarandá. Havia ainda uma grande subida  a ser vencida com a carga da vagoneta desmontada. Será que o Brioso sozinho daria conta? Na dúvida, meus tios resolveram colocar como ajuda para o Brioso a égua Roleta a puxar na “boléia”. A “boléia” de uma carroça fica do lado direito  que era o lado do barranco em que a estrada estava cortada no morro da grande e última subida. Quando a carroça carregada estava  quase vencendo a subida, a égua da boléia se sentiu assustada e puxando de lado  fez o Brioso perder o pé no grande esforço de tração. Meu pai  guiava a carroça, puxando o Brioso pela rédea na frente. Eu, mais a frente e  acompanhava a grande arrancada na subida. O desequilíbrio e força para trás da égua, contra o barranco na ladeira estreita, fizeram a carroça desabar pelo barranco abaixo tombando com a pesada carga e os animais.Foi uma assustadora visão do desastre. Depois do primeiro tombo pelo barranco, o gancho que prendia a égua felizmente se soltou e  a carroça parou tombada contra uma árvore e com o pobre e valente Brioso ainda    bufando preso aos varais. Quando meu pai conseguiu soltar os arreios que prendiam o Brioso à carroça. Esta deu mais um tombo e foi parar no fundo do barranco. Vivi todos momentos de aflição de ver um grande desastre com nossa carroça e nossos animais. Além de assustado e com alguns ferimentos o Brioso teve uns dias de férias e de recuperação, ficando no pasto junto com sua querida Tordilha. A pesar de assustador, o desastre não tinha feito grandes estragos. Depois de alguns dias o trabalho foi retomado e finalmente o grande jacarandá, chegando sobre a vagoneta se tornou o grande esteio da “ampla e arejada” cocheira, como queria  “seu” Antonio, meu pai.


                                        

                                        Vestido de noiva.
Durante quase toda minha vida conheci a máquina de costura de minha mãe. Era uma Singer comprada nova por ela em 1925. Ela e a irmã(tia Elza) como arrumadeiras do Hotel Esplanada, haviam comprado cada uma sua maquina e aprendido a costurar. Toda vida ela fez suas próprias roupas. No sítio, em Currupira, além de costurar para a família ela se tornou a costureira a fazer os vestidos de muitas noivas das vizinhanças. Uma das primeiras foi  a noiva de um nosso querido amigo  da famíla Ceolim. Era o casamento do Amélio Ceolim com uma moça da família Batista: Aparecida. Foi uma grande festa. Várias vezes a noiva esteve em casa para as provas do vestido. Quando da festa, nossa família foi especialmente convidada pelo patriarca da família, Santo Ceolim por quem nutríamos grande estima e admiração. Meu pai ainda guardava roupas do seu tempo de gerente e até um fino “smoking”. Era um casamento com a noiva vestida pela Dona Luiza, minha mãe. Fomos vestidos com roupas ainda do Rio de Janeiro. A festa de casamento se estendia da casa para o terreiro coberto por uma grande lona onde logo depois da chegada dos noivos começou um “arrasta pé”. A lona havia sido armada ainda de dia e guardava um grande calor. O animado baile logo levantou um grande poeirão. Lembro-me de Dona Ida, a matriarca da Família Ceolim oferecendo muito gentil e cerimoniosa “um docinho” a meu pai: era um pires com doce de abóbora. Nunca um “smoking” havia tomado tanta poeira. Voltamos empoeirados mas felizes de haver participado da primeira festa de casamento na roça e de gente tão amiga.
Várias outras noivas foram vestidas pelas criativas e hábeis  mãos de Dona Luiza. Uma dessas, casando-se com meu tio Américo tornou-se minha tia Lydia, uma das várias moças filhas da grande família de Américo Montovani. Entre elas a Sisse, uma  das namoradinhas platônicas da minha adolescência em Currupira.
                                        
                                      Viagem à cidade.
Os suprimentos feitos na venda do Antonio Miguel  eram apenas para coisas mais rudimentares. Uma ou duas vezes por ano era preciso ir à cidade. A cidade era Jundiaí. Essa viagem começava com uma caminhada a pé, muito cedo até a estaçãozinha de Currupira. Aí se tomava o “misto”, o “cata caipira” das  sete horas, com apenas um vagão para passageiros de segunda classe e um vagão para pequenas cargas e encomendas. Em Jundiaí as compras eram feitas no grande armazém da família Rappa, na rua Barão, no centro da cidade. Além das compras daquilo que não existia na venda do Antonio Miguel, ia-se de vez em quando ao dentista que era o Dr. Jurandir, também no centro da cidade. O almoço era de pão crocante “da cidade” com mortadela, acompanhado de Malzbier, na grande padaria e bar do Abílio. À tarde ia-se a pé pela rua Torres Neves até a pequena estação da Paulista onde só parava o trenzinho catacaipira, o “misto”, que nos levava de volta a Currupira. Mais uma caminhada de uns quilômetros pelo estradão era a última etapa da viagem à cidade.
Uma viagem à cidade marcou muito meus tempos de Currupira. Não sei como, meu pai ficou sabendo de uma temporada lírica no Municipal de São Paulo. Ele que havia freqüentado aquele teatro nos seus tempos de mocidade, quis que eu assistisse ao “Rigoletto” de Giuseppe Verdi, nada menos do que no Teatro Municipal de São Paulo. Saímos logo cedo para tomar o Misto em Currupira para Jundiaí. Lá fizemos baldeação para um trem da “Inglesa” até a estação da Luz em São Paulo. Chegamos a São Paulo à tarde e meu pai me mostrou o centro da cidade, nas imediações do Viaduto do Chá e  arredores do Teatro Municipal.Até então eu só conhecia de São Paulo a casa de meus avós paternos, na rua Guayauna, na Penha e o Belenzinho(Quarta Parada), onde morava minha avó materna e minha tia Elza. Como menores não podiam entrar na ópera, especialmente à noite, foram necessárias umas “manobras” que nunca entendi por completo. O fato é que saímos da enxada, em Currupira para assistir a uma noite de ópera no Teatro Municipal de São Paulo. Para mim isso foi tão extraordinário e inesquecível que fiquei com a ópera completa, de ponta a ponta na memória até hoje. A beleza do teatro em noite de ópera, a orquestra, a música, o regente, cada cena, até os lampejos dos relâmpagos sintetizados pelas luzes e orquestra no desfecho daquele drama ficaram em minha memória para sempre. Depois desse episódio eu não seria mais o mesmo em todos os sentidos. Foi uma experiência única e transformadora, em contraste com a vida rústica que levávamos, longe da cidade e de suas luzes, em meio ao trabalho de enxada, brejos,vacas e poeira.
                              
      O Brasil na  II Guerra e um burro chamado Ruano
Corria o ano de 1942.  Vez por outra alguém  trazia da cidade  notícias sobre a II Guerra Mundial.  De repente uma  abalou a todos. Era a notícia sobre o afundamento de navios brasileiros nas costas do Brasil. Submarinos alemães, haviam torpedeado e afundado vários navios entre os quais o “Baependi”. Foram algumas centenas de mortos, além da perda total daquelas embarcações. O governo de Getúlio que até então nutria certa simpatia  pelo “eixo”, foi levado  pela pressão dos EEUU  a se definir e a reagir a aquele  ato de guerra. Havia também um clamor popular nacional de reação a ostensiva  hostilidade e afronta à soberania  do Brasil. O Brasil então declarou guerra ao “eixo”. Em muitos lugares do Brasil ocorreram manifestações e campanhas patrióticas de apoio à entrada do país na Guerra, ao lado dos aliados.  Chegou-se a fazer campanha de coleta de metais para fabrico de armamentos. Eram as “montanhas da Vitória”. Por toda a região e portanto, também no nosso bairro dos Fernandes, perto de  Currupira, chegou a notícia de uma grande evento patriótico  que seria realizado na cidade de Rocinha, hoje Vinhedo. Seria um misto de manifestação política e festa. O ponto alto da festa seria um grande rodeio em que a maior atração  seria um burro (mulo) que se tornara famoso pela sua indomabilidade. Em varias festas e rodeios passados, em outros lugares, nenhum peão  tinha conseguido ficar por mais de uns poucos segundos no lombo daquela verdadeira “fera”, um burro chamado  “Ruano”, por sua cor (ruão)”baia” com crina muito mais clara. Esse animal era uma verdadeira “lenda”: era indomável. O “clima” de patriotismo e o burro Ruano estavam  eletrizando as expectativas em relação a aquele rodeio patriótico. Já dias antes um famoso peão de Jundiaí, o Zico Peão, tido como  o “maior” dos peões da região, aceitara o desafio de montar o Ruano. A festa contaria com oradores, a presença do   prefeito de Rocinha, banda de música e, certamente, uma multidão. Para quem morava, como nós, em Currupira, seria preciso tomar o trem de Louveira até Rocinha. Primeiro teríamos que fazer  a caminhada de quatro quilômetros  a pé até a estação de Louveira. De lá pegaríamos  o trenzinho parador, o “misto”, para Rocinha. Nessa caminhada e viagem, com meus treze anos, acompanhei meu tio Joãozinho. Da estação de Rocinha ainda seria necessária uma grande caminhada  morro acima até o local onde teria lugar o grande acontecimento, no ponto mais alta da então pequenina  cidade que só anos depois, seria chamada de Vinhedo. Quando lá chegamos já havia uma multidão ao redor do grande cercado de tabuas onde aconteceria o rodeio. Ao lado havia um outro cercado onde estavam os animais, cavalos e mulos que seriam montados. Depois dos discursos patrióticos ia começar o rodeio. Apresentou-se a equipe dos “orelhadores”, os peões encarregados de imobilizar aqueles animais xucros até  que  lhes fosse aplicado o “solfete”, uma cinta com alça, único “arreio” no animal e apoio do peão. Os  vários “orelhadores”, depois do  animal laçado, lhe torciam as orelhas até que, creio que de tanta dor,  bufando e resfolegando, o bicho ficava  imóvel. Além dos “orelhadores”, outro peão aplicava um “cachimbo” no focinho do burro.  “cachimbo era um pau munido numa das extremidades, de um laço de couro trançado. Depois de aplicado no focinho do animal o cabo de madeira ia sendo torcido até que o bicho se imobilizasse. Só depois de o peão estar montado a equipe da “seguração” soltava, orelhas e o beiço do animal.  A reação deste era como quando se solta  uma mola comprimida. Aos pulos, coices e corcoveando sem parar, aqueles animais xucros quase sempre conseguiam se livrar de suas montarias. Quando um dos peões agüentava  a “pulação” no lombo do animal xucro, era ovacionado pela multidão. Todos os animais trazidos já haviam sido montados. Agora seria a hora da grande final em que se defrontariam o Ruano, burro até agora “invicto” nos rodeios, e Zico Peão, o desafiador e herói do espetáculo, que vinha de “fora”, de Jundiaí. Como aquele seria o final e   apoteose da festa, antes do duelo Zico Peão versus Ruano, falou o prefeito e a banda tocou mais um dobrado. Agora o silêncio nervoso e a grande expectativa da multidão. Foram necessários vários laçadores, em diferentes direções para que os orelhadores conseguissem botar as mãos nas orelhas e focinho do Ruano. O burro era mesmo  “endiabrado”. Só depois de muito esforço dos laçadores, segurando em direções opostas, os “orelhadores”  conseguiram segurar aquele bicho brabo.  Aplicado o torniquete  no focinho, aquela “fera” muar rosnava e estrebuchava aos arrancos. Finalmente a equipe da “seguração” conseguiu aplicar o solfete no Ruano. A multidão silenciou. Só se ouvia o rosnar do burro imobilizado quase  até a asfixia. Sob palmas, entra então o Zico Peão para montar. Ele monta, segura o solfete, joga o chapéu para o alto e grita ...“larga”! O burro pula furiosamente como uma mola enlouquecida.  Os pulos daquele animal tinham  mesmo um ímpeto e uma fúria como nenhum dos anteriores. A multidão, depois de alguns instantes em que o Zico Peão resistia a tantos pinotes, começou a aplaudir e a gritar o nome do herói que resistia. O burro pulava e o Zico não caia. De repente, o burro , parando de pular,  sai como uma flecha em direção ao tablado vertical que limitava o espaço do rodeio. Sem corcovear, mas galopando a toda brida, como uma flecha, o burro se atira de cabeça contra as tabuas do cercado, atravessando-o e deixando o Zico Peão desfalecido pela peitada contra a tábua superior do cercado. Desfalecido, muito ferido mas vivo, Zico Peão, foi levado pela ambulância de plantão, sem poder  ouvir a ovação que recebeu pela sua bravura em resistir no lombo do Ruano. O animal, com certeza muito assustado e ferido, sumiu no poeirão daquele fim de tarde. A multidão, sem o Ruano e sem o herói, finda a festa, se dispersou. Era o epílogo inesperado do grande evento: um verdadeiro anticlímax pela ausência dos dois principais protagonistas  daquela memorável tarde na cidade de Rocinha, hoje Vinhedo.

                           A luta contra a saúva
Eram os tempos em que se dizia: “ou o Brasil acaba com a saúva ou a saúva acaba com o Brasil”. A saúva era um verdadeiro flagelo de grande parte da agricultura e particularmente para o pequeno agricultor. Grande parte de nossas terras muito antes de serem compradas por meu pai, era constituída de cafezais  e pastos abandonados. Felizmente nossa quadra de videiras de cerca de cerca de três hectares era quase toda cercada de pequenos córregos. Por isso as videiras ficavam menos sujeitas à ação da saúva. Mesmo porque aí qualquer ataque se tornaria mais visível e podia ser combatido localmente. Meu pai sonhava em ter um pomar, especialmente de laranjas e outros citrus.. Desde sua vida urbana ele trazia o hábito de chupar pelo menos uma laranja como primeira parte do desjejum. Nessa propriedade não havia, até nossa mudança nenhum pé de laranja. Meu pai resolveu então que deveríamos formar um pomar. Por plantio direto uma laranjeira leva vários anos para se tornar adulta e produzir. Era preciso encurtar esse tempo. A única solução era ir ao Instituto Agronômico de Campinas para comprar mudas já enxertadas. Acompanhei meu pai nessa viagem que começava com a caminhada a pé até a estaçãozinha de Currupira. Ai tomamos o “misto”, o “cata caipira” de apenas dois vagões que ia até Campinas. Da estação tomamos o bonde e  chegamos ao IAC.  Feita a compra, as mudas seriam despachadas, com muitas formalidades, até  Currupira. Para vir embora, lembro-me nitidamente de, esperando na Av.Andrade Neves em frente ao grande portão do IAC, ver aparecer o bonde que nos levou às proximidades do Mercado Municipal. Aí comemos um lanche: sanduíche de mortadela com “Tubaína”, no bar “Pinguim”, ao lado do Mercado. No fim da tarde estávamos chegando de volta a Currupira. Mais meia hora de caminhada e à noite estávamos de volta em casa.  Nas duas ou três semanas seguintes fui a cavalo à estação saber se  as mudas haviam chegado. Depois de várias viagens inúteis, finalmente as mudas chegaram. Agora era preciso ir buscá-las de carroça na estação. Já estavam feitas as vinte covas com muito esterco e terra boa. As laranjeiras foram plantadas com um cuidado quase religioso. Eram nossa esperança de um pomar. Todos os dias carregávamos regadores de água para apressar a tão esperada brotação das nossas laranjeiras. Finalmente começaram a sair os esperados brotos. Acompanhávamos a cada dia o crescimento de cada um deles. Já estávamos cheios de entusiasmo com a brotada de todas as vinte  jovens laranjeiras. As covas bem estercadas estavam promovendo uma exuberante brotada. Numa das manhãs, a decepção: varias tinham sido peladas pela saúva cortadeira. As delicadas folhas estavam no chão e sendo transportadas nos “carreadores” feitos pelas saúvas à noite. Nos dias seguinte, fomos buscar mais formicida “Tatu” e “Quatro Paus”, as marcas  mais conhecidas e encontradas. O Combate que se podia fazer na época era incapaz de debelar ou mesmo controlar a ação da saúva nos ligares infestados. Só muito poucos lugares não eram infestados: os brejos ou lugares cercados por água.Nossa principal “arma “ era um fole movido a braços que soprava através de um recipiente de ferro onde se colocava algum ingrediente como borracha para fazer fumaça que era assoprada para dentro dos “olheiros”(buracos) das formigas. Era um trabalho exaustivo ficar bombando com o fole até que a fumaça saísse em algum outro “olheiro”. Aí se tampava o olheiro por onde saíra a fumaça, se retirava o fole e se derramava formicida. Era o que dispúnhamos como arma mas de eficiência quase nula. Durante anos, a cada nova brotada as formigas cortavam as novas folhas, até que as plantas definhavam e morriam. Durante vários anos mantivemos essa luta, gastando formicida, tempo e ânimo para plantar. As culturas em pequena escala e com as armas de que se dispunha, a saúva era mesmo uma grande ameaça, especialmente para o pequeno produtor. À medida que foram aumentando tanto a escala das plantações quanto os recursos e produtos para combate à saúva essa “guerra” foi sendo vencida. Mas, durante muitos anos a saúva foi uma grande ameaça à pequena agricultura. No caso das nossas laranjeiras, fomos derrotados. Meu pai alugou uma grande laranjeira caipira de um caboclo que não se interessava por aquela fruta. Toda semana íamos a cavalo buscar dois meios sacos daquela produção “alugada”. Também não havia quem comprasse. O que se produzia também valia pouco, quase nada.
            


                                    

                                  Um jovem matuto
Havíamos chegado a Currupira em meados de 1938 quando eu tinha nove anos. Cinco anos já se haviam passado. Estes eu havia passado sem qualquer escola. Ler era impossível. O trabalho nos ocupava a todos de escuro a escuro. À noite à luz de lamparinas ou, na melhor das situações, de um lampião também de querosene, o cansaço do dia de trabalho não dava qualquer chance a qualquer estudo ou simples leitura. Enfim, eu estava crescendo um verdadeiro matuto. Nos momentos em que eu era quase dominado pelo cansaço e pela falta de perspectiva, meu pai me animava com a possibilidade de termos “no futuro” algum progresso onde eu poderia ter um bom cavalo, com bons arreios. Certamente tanto ele quanto minha mãe, que sabiam da importância da educação, deviam  estar preocupados com meu futuro. Isso deve ter sido a razão por que em 1942 meu pai tomou a decisão de vender o sítio e voltar  com a família para a cidade onde eu pudesse retomar  os estudos apenas começados e abandonados cinco anos antes. A idéia era  vender o sítio de oito alqueires, “de porteira fechada”, isto é com a safra de uva  a ser colhida, animais, arreios, carroça, tudo. Ele foi a São Paulo para colocar anúncios nos jornais. O contato com interessados era feito por carta e era preciso ir buscar as pessoas na estação de Louveira e transportá-las pelos quatro quilômetros que nos separavam daquela estação, onde paravam alguns trens vindos de São Paulo. Vários candidatos vieram e, como a visita ao sítio levava o dia inteiro, ainda era preciso oferecer-lhes,  além do transporte, um almoço. Isso sobrecarregava minha mãe que além de todos os afazeres, tinha que pegar, matar, limpar, assar e preparar um frango para almoço de  gente “fina” da cidade. Muitos candidatos apenas desfrutaram do passeio e do almoço, ainda diminuindo nosso estoque dos minguados frangos, reservados  para o almoço dos domingos. Finalmente apareceu um candidato que realmente se interessou  e meu pai fechou o negócio por 40 contos de Reis, de porteira fechada. Já era  o começo de 1943. O comprador era um senhor francês que falava mal português com forte assento de sua origem: Sr. Renè Jaquê, químico mchefe da Rhodia de Santo André. Como nossa pequena safra de uvas já havia sido colhida,  era hora de fazer as malas para a partida. Já estávamos em março de 1943. Quando as malas começaram a ficar prontas e visíveis comecei a sentir que se iam romper fortes laços criados entre mim e aquela vida de muito trabalho mas de grande liberdade  de ação e de espaço. Além dos laços com aquela vida, aquelas coisas, e aqueles amigos, eu tinha  laços com dois seres que comigo conviviam em quase  todas as tarefas do dia a dia e aos quais, sem me dar conta, eu me afeiçoara profundamente: minha égua Branquinha e meu fiel e inseparável cachorro, o Duque. Chegou a dia da partida. Fui dar um último abraço na minha dócil Branquinha. O Duque não pôde entender minhas lágrimas quando o abracei pela última vez. Quando eu e minha mãe subimos no cabriolé de meu avô que nos levaria a Louveira para tomar o trem, ainda olhei para o alto daquela colina. Dei uma última olhada para aquela  que fora a nossa querida casinha. À medida que nos fomos afastando fui sendo tomado por uma sensação indefinida de que uma importante página de nossas vidas ia sendo virada. Ainda passamos pela  frente da casa dos Gumiero e pela venda do Finamore. Em Louveira tomamos o trem. Nessa estação que eu frequentara,  chegava também o trenzinho da Itatibense. Aí ficava o armazém  do Bento Cruz, o bar do Belmiro Niero, a farmácia do Zezinho,  a ferraria da família Niero onde ferrávamos os animais e a cerâmica do  Pasti. Tudo ficou para trás. Quando o trem passou pelo aterro do bairro dos Fernandes ainda pude ver o nosso vale, a casa dos Ceolim, a casa de meus  tios e avós paternos e o sítio que, mesmo tão familiar,  já não era mais nosso. O trem passou em alta velocidade pela estaçãozinha  de Currupira e por aquelas coisas  tão familiares para mim naquele cenário: a venda do Toninho e  a igrejinha de Currupira. Tudo foi ficando definitivamente para trás. Uma página da minha vida estava sendo definitivamente virada.

  Primeira instalação elétrica  e uma grande aflição
Nosso sítio de 40 alqueires havia sido vendido de “porteira fechada”, isto é com tudo que havia dentro dele, por 40 Contos de Reis. O comprador, um dos diretores da Rhodia de Santo André  havia pago à vista e, mesmo sendo um preço baixo por ser, era em dinheiro considerável para um novo começo de vida. Não posso garantir se nos planos de meu pai  nossa escala em São Paulo seria pela dificuldade de se ir direto para o Rio sem medidas prévias ou se ele contava com alguma possibilidade profissional antes de nossa volta ao Rio. Era fevereiro de 1943. Fomos morar na rua Padre João, 80, uma travessa da rua da Penha, no alto da Penha.  Nossa casa era a parte alta de um sobrado a que se tinha acesso por uma longa e estreita escada. Sem demora fui colocado no Colégio São Vicente das freiras vicentinas. O Colégio ficava bem nos fundos da famosa e concorrida igreja da Penha. Apesar de contar  com água encanada, o fogão era a carvão. Minha mãe teve que fazer um novo aprendizado para lidar com carvão. Eu tinha o meu primeiro contato com uma casa com instalação elétrica, depois da primeira infância até os nove anos no Rio. Agora eu trazia do sítio uma grande iniciativa em agir e ajudar nas coisas da família. Uma dessas tarefas foi a de fazer uma instalação de uma luz de cabeceira. Eu já havia observado, desde o sítio, que as instalações  elétricas visíveis que eu conhecia  tinham sempre dois fios. Todas as que eu via eram externas e tinham fios desencapados. Eu já havia comprado arames para montar  um varal. Também com eles fiz a instalação elétrica, juntando e torcendo juntos os dois arames que deveriam fazer funcionar o abajur. Quando coloquei os fios na tomada, aconteceu o inevitável estouro e fogo provocado pelo “curto” dos dois fios juntos e desencapados. Aprendi então a necessidade de dois fios porem isolados. Desse aprendizado resultou uma pequena “invenção” minha. Uma máquina elétrica para matar moscas. Uma caixinha de goiabada coberta por pares de fios alternados, vindos dos dois fios da tomada. O açúcar dentro da caixinha atraia as moscas que tinham que atravessar a rede tocando em dois fios alternados de “positivo” e “negativo”. As moscas ficavam eletrocutadas “fritando” entre os pares de fios. Embora não tivesse sido fatal para muitas moscas, minha “invenção”  foi importante para mim. Comecei a perceber que tinha que entender coisas “diferentes”, além do muito que havia aprendido nos anos no sítio, longe da eletricidade. Eu estava de novo num ambiente urbano mas muito diferente do que ainda estava em minhas memória de Copacabana.Uma quadra para baixo da nossa rua, na rua da Penha, havia um grande terreno onde se havia instalado um grande circo. Durante todas as tardes  grandes altofalantes, no topo dos mastros tocavam os sucessos da época. Havia cinco anos que não ouvíamos rádio. Especialmente as músicas de Orlando Silva, arrancavam os suspiros das moçoilas do bairro. Nesse ambiente conheci as primeiras filas do Brasil, as “filas do açúcar”. Era época da II Guerra Mundial e  muitas coisas estavam “racionadas”. Foi nesse lugar que também fiz dois amigos de muitas das brincadeiras de rua. Ambos tinham nomes muito brasileiros: Ubirajara e Ubiratã, o menor. Ambos me ajudaram a vender nossas tralhas quando, meses depois nos mudaríamos para o Rio. Foi também nas filas do açúcar que senti pela primeira vez uma paixão “avassaladora”. Era uma garota chamada Yolanda, maior que eu e que passava muito garbosa pela nossa rua. Ela ia e vinha de uma rua de terra, perpendicular à nossa,   sem parar e sem olhar para os lados. Quando  a via,  já a uma quadra distante, eu ficava tão emocionado e com palpitação que nunca consegui dizer-lhe nada quando me passava perto, muito menos falar-lhe  sobre minha “paixão”. Esse sentir com essa intensidade também era uma coisa nova para mim. Eu estava começando a descobrir outras coisas para dentro de mim. Enquanto isso, meu pai  esperava alguma definição para sua volta a empregos no seu “métier”, a hotelaria, no Rio de Janeiro, onde ele ainda tinha   conhecidos e contatos. No entanto era preciso dar tempo para refazer tais contatos e negociações que eram feitas por carta. Ir para o Rio com a família sem ter as coisas já arranjadas era uma temeridade. Lendo um jornal, lhe chamou a atenção um anuncio para admissão num cargo de  caixa de uma   empresa no ramo de metalurgia e de âmbito nacional. Ele se apresentou e logo foi contratado. Como era comum na época, em cargos de grande responsabilidade com dinheiro, exigia-se uma coisa chamada “caução”. A rigor isso se chamava caução fidejussória. Era um depósito de garantia quando um funcionário manipulava grandes quantias em dinheiro vivo. Meu pai acabava de vender o sítio à vista  e dispunha do dinheiro. Eu não saberia precisar de quanto foi a tal caução mas sei que era uma  parte considerável do que ele tinha apurado da venda do sítio. Acredito que entre um décimo e um quarto do total da venda do sítio, entre quatro e dez contos de Reis dos quarenta por que tinha vendido o sítio.  A sede da empresa era luxuosa e  ficava no centro de São Paulo. Meu pai começou a trabalhar. Uma semana depois, meu pai foi preso com toda a “alta diretoria” da “arapuca” e levado para O DOPS. A empresa era de fachada e armada por figuras importantes. No fim da tarde alguém da polícia veio ao nosso endereço e nos avisou, a minha mãe e eu, que meu pai estava preso no DOPS e que não voltaria para casa. Ficamos desesperados. Imediatamente minha mãe tratou de saber onde era o tal DOPS e para lá fomos de bonde. O DOPS, um prédio, cor de tijolo de aspecto sinistro, bem perto da estação Júlio Prestes. Acompanhei minha mãe naquele momento de preocupação e aflição, na tentativa de saber e ver meu pai. Não nos deixaram entrar. Na impossibilidade de entrar, ficamos da calçada oposta olhando para aquele prédio lúgubre, tentando ver ou saber algo do que havia acontecido e de como estava meu pai. Não conseguimos nada. Já noite minha mãe decidiu que invés de voltarmos para casa fôssemos para a casa de minha tia Elza no Belenzinho. Lá chegamos já tarde da noite e tivemos que bater e chamar para acordar. Tio Domingos com cara muito assustada abriu a janela que dava para frente da casa e logo, apressado, abriu a porta e nos acolheu. Era um momento de grande  medo e aflição. Polícia, especialmente   para quem jamais estivera envolvido com ela, era uma coisa amedrontadora, ainda mais nos tempos do Getúlio e de sua famigerada polícia desde os tempos do “chefe” Felinto Müller que entregara Olga, mulher do Prestes, aos nazistas.  Meu tio Domingos era muito generoso conosco mas não lhe ocorria o que se devia ou podia fazer.  A idéia que ocorreu, creio que de minha mãe, foi de mandar um recado para o tio Nino no Traviú. Mas  telefone era uma coisa rara. Não sei exatamente como mas por vias indiretas por  alguém de Louveira, onde havia um telefone e onde chegava correspondência, minha mãe conseguiu fazer chegar um recado ao tio Nino. Logo que soube ele veio à nossa casa em São Paulo e tentou, em vão, chegar até meu pai preso no DOPS. Não conseguindo nada, também aflito e inconformado  com o que acontecia com seu querido e admirado irmão mais velho, ele voltou a Jundiaí e foi procurar o Dr. Romeiro Pereira, advogado e deputado regional pelo PSD.  Meu tio Nino já era conhecido pelo deputado, pois já freqüentava mais Jundiaí. Cerca de dois anos antes, meu pai e esse meu tio tinham estado juntos tratando junto ao Governo do Estado para possibilidade de conseguir um vagão direto da Central do Brasil que chegasse a Louveira. Essa conquista beneficiara muito a todos os viticultores da região pois se evitava que toda a carga de um vagão tivesse que, em São Paulo, ser transferida para outro vagão da Central do Brasil, com destino ao Rio. Nessa negociação tinha sido contatado o deputado Dr. Romeiro que, então conhecia meu pai e sua atuação como fundador da Cooperativa dos Fruticultores de Louveira junto com o Dr. Otoni, agrônomo da casa da Lavoura de Jundiaí. Meu tio Nino conseguiu o contato pessoal com o deputado e pediu sua ajuda. Bastou um telefonema do deputado e meu pai foi libertado no dia seguinte.  Até esse desfecho feliz se haviam passado cerca de dez dias, tempo em que meu pai dividiu uma cela com muitas outras pessoas mas não da sua “diretoria”. Só quando se passa por um dissabor desse tamanho pode-se avaliar o que foi a emoção da chegada de meu pai em casa. Lembro-me bem de sua imagem, barbudo e abatido, subindo a  estreita escada de nossa casa. Durante muito tempo os dois, Antonio e Luiza choraram abraçados. Depois nos abraçamos os três. Seguiram-se horas de relatos, tanto dele na prisão como dela sobre nossas aflitas peregrinações sem saber como livrá-lo e imaginando o que poderia estar acontecendo. Enfim era um final feliz, mas sem conseguir reaver aqueles preciosos contos de Reis da “caução fidejussória”.  No dia seguinte  meu tio Nino veio do Traviú e mais uma vez pude testemunhar sua dedicação, a amizade e a admiração mútua entre aqueles dois, meu pai e seu irmão(Hilário Caniato). Nas semanas seguinte, com â ajuda de meus amigos Ubirajara e Ubiratã, vendemos na vizinhança todas as tralhas de casa, fizemos as malas e fomos para o Rio, mesmo sem novas confirmações de casa e trabalho para meu pai. São Paulo tinha sido um “desastre” para nós. Mais uma vez eu interrompia a apenas reiniciada escola, ajudando a carregar as malas, agora para o Rio de Janeiro.















Parte  3

Da ampla
liberdade ao confinamento

                             










                                   De volta ao Rio
. O Brasil entrara na Guerra que continuava na Europa e agora se estendia também ao Pacífico contra o Japão. O Rio de Janeiro também mudara muito. Havia muito mais gente, especialmente gente fugida da Guerra. Não se encontrava casa para morar.  Por isso fomos  morar numa pensão na Av. Copacabana, esquina da Djalma Ulrich, perto do Posto 5.  Era preciso e urgente que eu voltasse à escola. Eu agora tinha 14 anos. Acompanhei meus pais na tentativa de encontrar uma vaga nas escolas da zona Sul. Todas as escolas estavam lotadas. Fomos ao Colégio Santo Inácio na rua São Clemente. Não havia vaga mas um dos padres aconselhou meu pai, diante das dificuldades, a procurar um lugar onde, segundo ele, era possível encontrar lugar. Era o Colégio Salesiano Santa Rosa em Niterói.  Fizemos a travessia das velhas barcas e fomos para lá, no bairro Santa Rosa. Havia uma vaga mas somente como interno. Era preciso decidir imediatamente. Havia gente na fila. Meu pai ponderou sobre nossa urgência diante de meu jejum de escola e nossa falta de moradia. O padre prefeito do colégio aceitou com a condição de que tomássemos a vaga imediatamente. Lá fiquei, só com a roupa do corpo. Longe de casa, ou melhor, sem casa e longe de meus pais, como nunca havia ficado. Agora tudo era tão estranho para mim. Eu tinha que conviver tão próximo de padres e obedecer, sempre em silêncio ou rezando: só se falava nas horas de recreio e durante algum tempo durante as refeições. A disciplina era rigorosa. Mesmo às refeições era preciso ouvir em silencio à leitura de textos “edificantes”. Rezava-se a cada movimento. O imenso dormitório dos “médios” tinha cerca de 300 camas com seus pequenos armários ao lado. Nos quatro cantos do imenso espaço ficavam os quatro “assistentes”, os noviços que nos vigiavam dia e noite. Nunca ficávamos no escuro: o dormitório ficava durante toda a noite sob uma luz azul. Às seis nosso “assistente”, um clérigo(noviço) batia palmas e dizia “Benedicamus Dominum” e todos tinham que responder em voz alta “Deo gratias”. Depois de lavar a cara, ainda no dormitório, entrávamos  em fila, em silêncio, para a ir todos os dias assistir e participar da missa das sete. Além da missa diária, com  comunhão de quase todos, rezava-se o terço completo, com todos os “mistérios” e depois se repetia toda a “ladainha” de Nossa Senhora, tudo sempre em latim. Muitos desse títulos de Nossa Senhora ficaram em minha memória por toda a vida: “regina angelorum”, “regina patriarcarum”, “turris ebúrnea”, “turris davidica”, “domus áurea”, “phoederis arca”, etc. A cada um desses cerca de 50 titulos os cerca de 400 alunos respondiam “ora pro nobis”. Era uma religiosidade que nos invadia por absoluta saturação, sem chance de qualquer outra idéia e sem qualquer possibilidade de outra escolha. Aos domingos havia, além da missa regular das sete, a missa das 10, com a presença do público. Era uma oportunidade de ver, ainda que de longe, gente e se “arriscar” uma olhada para algumas garotas que freqüentavam aquela missa e nos “tentavam” com alguma olhada mais marota. Qualquer olhar de uma dessas garotas para o nosso lado era capaz de causar grande alvoroço de nossas emoções adolescentes reprimidas. Com olhares aparentemente sedutores, uma dessas garotas, a Terezinha, fez enlouquecer de paixão a um de meus colegas. Não resistindo a esses encantos, o  “apaixonado” conseguiu pular o muro de um dos pátios, em busca da sedutora. Ao encontrá-la teve a maior decepção. A tão desejada “Julieta” não quis nem conversa com o “fedelho”, metido a Romeu que ganhou um mês de suspensão.  O castigo dele foi de ficar em pé, durante todos os recreios, diante do gabinete do Diretor, durante um mês. As visitas dos familiares eram aos domingos, depois do meio dia, até as 5 horas. Minha mãe veio com absoluta regularidade durante os meus três anos e meio de internato. Alguma roupa, uns biscoitos “Aymoré” e umas maçãs (só existiam argentinas) eram o contato com o Mundo.

                     
                              

                         Um pássaro na gaiola.
De repente, da ampla liberdade de movimentos e da grandeza dos espaços  eu estava totalmente confinado e  “enquadrado”. Outra vez em minha vida acontecia um abrupto corte, uma mudança radical. Sofri muito pelas primeiras semanas. Nos dias seguintes minha mãe veio trazer algumas mudas de roupa, toalhas e artigos de cuidado pessoal. Era o começo do segundo semestre de 1943. Vínhamos  de Currupira, interior de São Paulo, onde fazia bastante frio nessa época do ano. No colégio era obrigatório o uso do uniforme caqui de calças compridas. Mas o uniforme mandado fazer na “Colegial”, na rua sete de setembro, no centro do Rio, só ficaria pronto depois de duas semanas. Enquanto isso eu permaneci de calças curtas, e com um blusão  marrom trazido de Currupira. As calças curtas e o blusão logo me valeram um apelido: Gijo, nome de um goleiro da época. Na divisão dos médios onde fiquei, havia um grupinho de adolescentes um pouco maiores, mais velhos que eu. Eu chamava muito a atenção pelo fato de ser o único de calças curtas em meio de uma centena de “médios”. As primeiras semanas foram de muito sofrimento. Era brutal a diferença entre a liberdade nos grandes espaços rurais e agora um confinamento tão rigoroso e com hábitos tão diferentes. Muitas vezes fiquei agarrado às grades do pátio olhando para o lado da baia da Guanabara. Era exatamente a sensação de um pássaro que subitamente, depois de voar livre, se vê preso a uma gaiola. Além dos hábitos de disciplina permanentemente vigiada havia uma malícia por mim desconhecida e dolorosamente descoberta. Com meus amigos nos tempos de sítio, também estávamos descobrindo o próprio sexo. Muitas vezes, conversando enquanto se chupava montes de laranja lima e laranja cravo, se fazia “concurso de piroca”:quem tinha pênis maior. Um dos meus amigos fazia até uma experiência e demonstração bizarra. Enfiava uma haste de um fino capim pela uretra a dentro para exibir o comprimento de seu pênis, diante de toda a turma. Nesses tempos, eu não sabia e creio que meus amigos rurais também não sabiam o que era homosexualidade. Uma experiência muito me marcou e me deixou alerta no colégio. A comida do colégio era horrível,  o pão era “pão de guerra”, pesado  e com um certo azedume devido à  forte presença de farinha mandioca, pois não havia importação de trigo durante a guerra. Todos viviam uma forte privação na qualidade da alimentação. Num dos recreios um colega, um pouco maior que  eu, que havia ganho de sua  visita um tablete de chocolate, me ofereceu um pedaço daquela coisa rara. Eu não tive dúvidas em, inocentemente, aceitar. Logo depois percebi uns rizinhos e uns olhares diferentes de outros colegas. Aquilo não tinha sido um gesto de gentileza mas sim uma “cantada”. Eu não sabia da existência desse tipo de relação. Foi para mim um aviso e a descoberta do clima meio mórbido que se pode estabelecer numa coletividade de jovens adolescentes. Os hormônios começam a se manifestar  e  são apenas fortemente reprimidos por permanente saturação religiosa e vigilância. Abertos os olhos, comecei a perceber relações estranhas entre um par de colegas: quase “namoros”.  Esse par  de “namorados” da minha divisão, a dos “médios”, foi surpreendido na cama e imediatamente expulso. Esse era um caso extremo e que se tornou mais que visível, explosivo.  E´ muito difícil para um jovem discernir o limite em que começa o que pode  ser   ou se  tornar de fato um abuso, diante da forte e repressiva autoridade de seus superiores, ainda mais quando num clima de afetividade religiosa. Lembro-me também de muito falatório sobre padres que davam muitos abraços em certos alunos. Era um novo aprendizado de algo que, em geral não se aprende em livros. Para mim uma triste descoberta e um alerta, embora não tenha sido sequer, testemunha ocular de qualquer fato dessa natureza.

                       
                        
                                   

                                      Adaptação e estudo.
Se por um lado a privação da liberdade foi inicialmente sofrida, logo, minha avidez por conhecimento encheu todo o meu tempo. Eu não havia feito o “primário”, condição para entrar no “ginásio”. Nesses tempos havia a possibilidade de se fazer o exame de “admissão”. Passei então todo o segundo semestre de 1943 estudando muito para esse exame. O que me faltava em pratica de estudo, sobrava-me em vontade de aprender e aplicação. Eu havia sentido por uma experiência vivida, a importância do conhecimento. Consegui naqueles seis meses colocar em dia os conhecimentos para passar no exame de admissão. Grande parte do tempo dos alunos era passado nas grandes salas de estudos, em absoluto silencio. Isso foi muito proveitoso e me permitiu tirar o atraso dos anos de jejum escolar. Em 1944 comecei o primeiro ano ginasial e durante quase todo o ano estive em primeiro ou segundo lugar na classificação de minha turma. No ano seguinte, 1945 eu já estava adaptado às regras do Colégio e até à sua cultura religiosa. Rezávamos a cada movimento; creio que umas cinqüenta vezes por dia. Adotei também os valores e hábitos impostos pelo convívio diário com os padres e com a visão religiosa. Cheguei mesmo a sentir fervor religioso e me parecia  até   poder falar com Jesus Cristo e Nossa Senhora. Fazia comunhão diária e confissão todos os sábados. Além da rotina  de rezar a cada movimento, durante o ano havia um período de três dias de retiro espiritual. Não se estudava. Rezava-se quase sem parar ou lia-se biografias  de santos ou de vidas edificantes. Vinham padres pregadores de fora. Alguns eram mesmo grandes oradores e nos deixavam com a forte impressão de estarmos à beira do fogo e da condenação do inferno. Numa ocasião fui convidado e aceitei a ajudar o pároco  da grande igreja do colégio, N.S. Auxiliadora a fazer evangelização nas populações pobres nos morros entre Santa Rosa e Saco de São Francisco. Às quartas feiras, no fim da tarde vinha um cavaleiro rebocando dois outros pangarés pobremente arreiados para os evangelizadores, o pároco e eu. Íamos a cavalo por quase uma hora pelo espigão dos morros de Viradouro, saindo por trás do  grande monumento de N.S. Auxiliadora, na direção do Saco de são Francisco. Aí  o padre era esperado e havia um pequeno grupo de casinhas muito humildes.   Umas quinze pessoas já aguardavam o padre. Dentro de uma das casas o vigário fazia sua pregação depois de me entregar um grupo de umas dez crianças, quase todas negras ou mulatas. Enquanto o padre fazia sua pregação dentro de uma das casas, eu fora dela, à beira de um pequeno e humilde jardim deveria ensinar aos pequenos “o que é ser cristão”. Foi minha primeira experiência desse tipo. Aqueles pequenos olhos negros me fitavam e esperavam a minha palavra. Eu havia ganho uma medalha de ouro como “campeão” de  catecismo mas de nada adiantaria nem seria em nada entendido se lhes repetisse as coisas que sabia  de cor. Foi uma forma de um bom e suave desafio. Essa catequese teve várias semanas de duração. Não sei se algo do que eu disse a aquelas crianças ficou em suas memórias. Na minha ficou uma forte impressão daqueles pequenos olhos negros que me fitavam e esperavam que eu lhes dissesse algo. Além dessa atividade de catequese,  aprendi a ajudar a missa   naqueles tempos em que toda a celebração era em latim, incluindo as respostas dadas pelo coroinha. Tão integrado eu estava em todas as atividades que  meus superiores me chamaram para elogiar  atuação e me aconselhar a seguir a carreira de padre. Entretanto essa idéia em nenhum momento me pareceu aceitável.
Apesar da grande privação de liberdade, o período de internato foi para mim de grande crescimento nos estudos. Tive vários professores muito bons. Destacaria especialmente um padre, Pe.Heriberto José Schmidt, meu professor de português. Ele nos fez estudar quase toda a “Gramática Expositiva” de Eduardo Carlos Pereira. Anos depois, no Colégio Juruena em Botafogo, já fazendo o “científico”, o professor de português ficou tão admirado de meu conhecimento de análise lógica por diagrama que pelos dois anos seguintes me passou com alta nota sem nunca mais me perguntar nada. De latim também tive como bom professor um padre polonês muito alto e magro, com cara de caveira e que  nos assustava com seu jeito meio sinistro e destituído de qualquer graça ou sorriso. Tive também um bom professor de Geografia, Prof. Vieira, com quem sempre tirei notas altas. Ainda me lembro também do Prof. Vanier, muito sério e exigente   que nos fez conjugar todos os tempos de dezenas de verbos em Frances. Esse estudo também se mostrou útil e importante para minha futura leitura  no idioma de Voltaire. Tivemos também outro professor de Frances que se   queixava de uma mal que o deixava meio indisposto e o obrigava a tomar um remédio, uma colher de sopa, durante a aula. Um colega descobriu que o “remédio” era conhaque. As aulas de história do Brasil ficavam por conta de um professor muito corpulento e que fazia um discurso triunfalista sobre o Brasil.  Ele contava também as glorias de ser um ardoroso torcedor do time de futebol Botafogo.
                     
                 Uma descoberta intrigante
 As aulas de Ciências Np colégio se limitavam a estudo do corpo humano naquelas descrições mais tradicionais: “cabeça, tronco e membros”. Eu tinha, sem saber por que, uma grande curiosidade por saber como as  coisas funcionam. Nem eu tinha idéia do que fosse Ciência. Eu andava solitariamente pensando como devia funcionar um chuveiro elétrico, por exemplo. Numa rápida viagem de férias, eu havia estado de visita rápida com meu tio Américo em Jundiaí. Ele estava fabricando em sua oficina uma série de pequenos chuveiros elétricos inteiramente feitos por ele. Isso me havia deixado pensando como seria o funcionamento daqueles dispositivos. Cheguei a fazer uns esboços em desenho, pensando sobre o que teria dentro daqueles tubos metálicos que meu tio fabricava e vendia na vizinhança. Outra coisa que me causara grande impressão eram as locomotivas a vapor. Depois de muito pensar e fazer algumas perguntas a um padre amigo, Pe.Daniel Feder, cheguei a entender como  a idéia geral do funcionamento básico. Mas ainda me instigava como devia ser a vávula para comandar a entrada e saída do vapor do cilindro principal. Fiz muitas tentativas de esboçar como deveria ser o comando da válvula que regula a entrada e saída do vapor. Mas não havia com quem trocar idéias sobre isso, a não ser fazer uma ou outra pergunta quando o Pe. Daniel passava pelo nosso pátio. Outra coisa que me havia impressionado muito nos anos de nossa “diáspora” no mato, em Currupira era a beleza do céu estrelado e as noites de luar. Um outro tio, o Tio Nino, me havia mostrado umas estrelas e me havia até dado o nome de um grupo de estrelas para onde eu às vezes olhava. Ele me falou de que aquele grupo se chamava de Orion, mas de forma muito vaga. Do pátio em que ficávamos em recreio depois do jantar, já na divisão dos “maiores”, tinha-se uma boa visão do céu e do morro sobre o qual estava o grande monumento a N.S. Auxiliadora, a padroeira do colégio.Nas noites de Lua cheia, eu ficava fascinado com a visão da Lua aparecendo sobre o mato, por trás do grande monumento.Eu queria registrar aquela coisa que me impressionava. Pensei em fotografar a Lua.Numa das visitas, pedi à minha mãe que trouxesse a velha maquina fotográfica marca “Contessa Netel”, de grande fole, de meu pai. Numa outra visita ela trouxe a máquina.Depois de comprado o filme consegui colocá-lo na máquina o que já implicava em uma operação que eu nunca havia feito. Esperei a próxima Lua cheia. Tirei várias fotos. O filme foi para a revelação e depois de muito tempo chegou a revelação: uma decepção. Não saiu nada, tudo preto. Fui perguntar ao Pe. Daniel e ele me deu muito breve explicação. A luz tinha sido insuficiente. Seria preciso um maior tempo de exposição para que a luz pudesse sensibilizar o filme. Para manter o obturador aberta seria preciso imobilizar a máquina. Com conseguir isso.Ocorreu-me colocar a máquina dentro de um dos bebedouros cônicos de latão que havia pelo pátio. Na próxima Lua cheia eu estava a postos com a máquina. Coloquei-a dentro do bebedouro e consegui uma posição em que ela ficasse voltada para o céu, na direção da Lua. O obturador da máquina tinha um ponto “t”(time) com o qual era possível deixar a objetiva aberta. Apontando e segurando a ´máquina imobilizada fiz “clic” e segurei o obturador acerto por um tempo, talvez de um ou dois minutos, antes de fazer o “clac”. Mandei revelar o filme e esperei alguns dias com grande ansiedade. Finalmente o filme voltou. Foi ao mesmo tempo uma decepção e uma descoberta. Em lugar da Lua apareceu uma imagem que maus parecia uma salsicha. No tepo em que o obturador permaneceu aberto, a Lua óbviamente se deslocou fazendo uma imagem curva e borrada. Também apareceram pequenos pedaços de arcos que correspondiam a algumas estrelas que estavam dentro do campo da objetiva e que entre o “clic” e o “clac” também se deslocaram. Eu acabava de descobrir a rotação do céu junto com a Lua. Esse fato teve um grande efeito para mim e me fez pensar no que eu nunca tinha  notado: como gira o céu. Era meu primeiro encontro com  um conceito sobre céu e Astronomia.

                    
                     

                            
                            
                                  
                                Aulas com  Villa Lobos.
Os anos de vida rural foram também meu primeiro contato mais próximo com alguma música. Meus três tios tocavam violão. Um deles, o mais novo, tio Mário tocava também gaita e sanfona de botões. As noites de luar nos encorajavam e sugeriam nossa reunião em casa de meus avós paternos e tios. Minha mãe sempre gostou de cantar, como quase todo suíço. Ela e a irmã Elza, solteiras, cantavam a duas vozes: haviam aprendido isso na escola ainda na Suiça. Minha mãe ainda  solteira já no Brasil,conhecia e cantarolava o “Quem sabe” de Carlos Gomes. Foi dela que, ainda criança, ouvi e aprendi essa famosa modinha. Nas noites do sertão fazíamos coro com meus tios: Luar do Sertão, Tristeza do Jeca, Chuá chuá, Saudades de Matão, Maringá eram as mais freqüentes a de nosso repertório. Minha avó paterna também fazia coro com nossas canções mas fazia algum solo, especialmente com  o “mazzolin de fiori”, cantado por todos os vênetos. Meu pai sempre participava como ouvinte. Embora fosse apaixonado por música até às lágrimas, era incapaz de uma  nota afinada. Ainda antes de estar “enturmado” com o pessoal do coralzinho na igrejinha de Currupira, eu já começara a participar das cantorias com meus tios, minha mãe e Dona Ana, minha avó paterna. Agora, no colégio se cantava durante a missa. Eu o fazia com grande entusiasmo e achava que tinha voz forte. Sempre esperei que os padres me convidassem para integrar um pequeno coral que participava com orquestra em grandes solenidades com “Te Deum”. Nunca consegui ser convidado para isso. Aquele coral era integrado por  adolescentes “especiais” e muito próximos aos padres. Três irmãos que eram escolhidos tinham pais espanhóis que cantavam no Coral do Municipal do Rio de Janeiro. Nesse seleto grupo eu nunca consegui nada, embora o almejasse. Só consegui cantar próximo à orquestra mas à margem. Eu ficava tomado de grande emoção e cantava forte mas nunca consegui ser “descoberto” e menos ainda ser incluído entre os cantores que tinham o privilégio de ficar junto com a orquestra dirigida pelo Pe. Virgínio Fistarol nas grandes solenidades em que se cantava o “Te Deum”.
Num certo dia fomos convocados para assistir aulas de manossolfa, o uso das mãos  para representar as notas musicais. Fomos reunidos em grupos  para ter aulas de preparação com os vários assistentes do Maestro Heitor Villa Lobos. Depois dessas aulas tivemos vários encontros com Villa Lobos, pessoalmente. Esse grande maestro e compositor brasileiro, além de seu prestígio internacional, era quase o músico oficial do período Vargas. Além da música erudita, Villa lobos desenvolvia experimentos e projetos de canto orfeônico com a juventude. Depois de preparados pelos seus assistentes tivemos então oportunidade de participar dos experimentos orfeônicos com o grande e excêntrico regente. Além de cantar e fazer outros ruídos, tínhamos que acompanhar os sons com movimentos corporais,  especialmente de mãos e braços. Antes de cada reunião com Villa lobos os padres nos faziam mil recomendações de cuidados de comportamento, considerando o conhecido, impetuoso e desbocado comportamento daquele maestro. Realmente pudemos testemunhar, não só experimentos nunca antes feitos nessas proporções no Brasil, como também as “explosões” temperamentais de um dos mais famosos compositores do Brasil,  reconhecido mundialmente. Além do respeito pela celebridade tínhamos medo das conseqüências de algum erro que pudesse desencadear a “ira” do regente. Os experimentos orfeônicos de que participei sob a regência de Villa Lobos foram realizados num ginásio coberto, numa praça de Niterói, entre Icaraí e o Ingá. Era a primeira metade   da  década de quarente.

                              Fim da II Guerra Mundial (1945)
Esse ano teve outro evento marcante, memorável: o fim da Segunda II Guerra Mundial. Em 7  de maio acontecia a rendição da Alemanha nazista. Em 6 de agosto o bombardeio atômico de Hiroshima. Só depois do segundo bombardeio, em Nagasaki acontecia  o episódio final:a rendição do Império Nipônico. Lembro-me do repicar dos sinos das igrejas, anunciando o fim daquela grande tragédia mundial. Quando os pracinhas voltaram da Itália foram recebidos com um verdadeiro delírio da multidão. Eu fui com um grupo de outros sete colegiais, em traje de gala, para participar da recepção aos nossos soldados, os “pracinhas” da FEB. Eles desembarcaram do navio na praça Mauá, desfilaram em fila indiana pela av.Rio Branco, em meio à comoção de uma massa humana que chorava, os ovacionava,   e abraçava, enquanto os altofalantes tocavam o Hino da FEB e outros hinos patrióticos. Esse foi um dia histórico, inesquecível de que fui testemunha ocular. Outro fato que me marcou essa época foi a visita à mais famosa casa noturna de espetáculos da época no Brasil. Meu pai me convidou para conhecer o Cassino da Urca, numa noite em que vi alguns dos mais famosos artistas da época: Grande Otelo e Carlos Ramirez.
Em fins1946 eu acabava o terceiro ano ginasial e   completara 17 anos. O ano havia sido de grande proveito na escola com a “colheita” de várias medalhas de “ouro”. Eu conquistara várias medalhas  pela aplicação nos estudos e também no estudo da religião, o catecismo. Meu pai que trabalhava restaurante do Cassino da Urca, a  mais famosa das casas noturnas  do Brasil, acabava de perder o emprego. O Presidente Dutra, numa de suas primeiras medidas, pressionado pela Igreja, fechara todos os cassinos do Brasil. Felizmente e graças ao seu conhecimento de idiomas, meu pai foi logo contratado para as primeiras linhas internacionais da PANAIR do Brasil. Em sua primeira viagem a Buenos Aires ele trouxe alguns quilos da  preciosa farinha de trigo, coisa que já havia tempo não se encontrava no Brasil. Minha mãe logo fez  em casa o pão de trigo, o primeiro que comíamos depois dos anos de guerra. Meu pai acabava também de assumir a compra de um apartamento em Botafogo, na rua Bambina, 180, esquina de São Clemente. Eu não podia mais aceitar, aos dezessete anos, que meu pai me sustentasse no colégio. Além disso eu também não suportava mais a vida de colégio interno e ansiava por liberdade e autonomia. Meus pais entenderam e concordaram que eu saísse para assumir meus estudos e um trabalho. Nos primeiros dias de dezembro, encerrado o ano letivo, minha mãe veio para a última visita, ou melhor, para me levar embora.  Eu ia sair do colégio. Ao sair pela portaria do grande Colégio Salesiano Santa Rosa, de Niterói, eu deixava para trás  outro capítulo de minha história  que havia exigido de mim  o esforço de  adaptação a outra mudança radical . Agora se abria diante de mim  outro horizonte em que eu assumiria minha vida, meu trabalho e minha vida pessoal. Nunca a travessia com as velhas barcas de Niterói havia tido aquele sabor. A brisa do mar sentida no rosto naquela travessia, me pareceu tão diferente. Senti  uma imensa euforia e uma grande embriaguez de vida e de liberdade, como se o Mundo se abrisse de par em par para me receber.

                                                        FIM